
AUTORITÁRIOS E TOTALITÁRIOS
Autoritários pretendem impor condutas para defender interesses materiais ou no campo do simbólico, mas sempre ligado ao poder. Os impérios da Antiguidade Clássica eram autoritários. Os romanos toleravam a preservação das tradições dos povos que conquistavam. Exigiam pagamento de tributos, podendo exigir ainda comportamentos prenhes de simbolismo, com atos de exaltação ao imperador romano. Não pretendiam, porém, moldar consciências. Não usavam o verbo conscientizar.
Teocracias medievais buscavam o domínio das consciências. Eram totalitárias. A perseguição movida contra os que pensam diferente instalou-se. A fogueira ganhou status de instrumento de defesa da verdadeira consciência. A modernidade buscou a razão como guia das decisões humanas. Foi também, em certo sentido, uma tentativa de retomar o curso do desenvolvimento cognitivo da Antiguidade, parcialmente interrompido na Idade Média. A literatura renascentista é rica em invocações puramente estéticas de divindades do mundo grego e romano. A busca da razão levou a secularização e ao cosmocentrismo dos helenos. A busca de universalidade se insinua quando se substitui a doxa pela conhecimento que tem como arrimo a validação obtida por meio da vigilância epistemológica.
Isso restringe as manifestações subjetivas, a passionalidade. A modernidade acreditou na verdade lógica dos matemáticos, que catapultou a Física e promoveu a Revolução Científica do séc. XVII. Acreditou ainda na verdade objetiva, impulsionando assim o empirismo, que também contribuiu para o desenvolvimento da ciência e da técnica. A crença no potencial cognitivo de todo homem e o reconhecimento da metafísica como o campo por excelência do relativismo e da falibilidade (por não ser verificável), nivelou por baixo eruditos e apedeutas no campo dos valores axiológicos. Nascia a democracia (um homem um voto) e a viabilidade das reformas religiosas.
A política não é técnica. Não se faz concurso para cargos políticos. Um sistema de garantias voltadas para assegurar tolerância em face das divergências em torno dos dilemas de consciência, acrescentado ao tema da representação ou participação como fonte de legitimidade. A “Carta sobre a tolerância”, de John Locke (1632 – 1704) é exemplo disso. A tolerância resulta da admissão da própria falibilidade. A certeza tende a ser totalitária.
O iluminismo, porém, caiu no cientificismo. Teorias necessariamente orientadas por convicções valorativas reivindicaram o status de ciência, confundindo esta com certeza. A ideia de verdadeira consciência e de conscientização é totalitária. José Guilher Merquior (1941 – 1991), escrevendo sobre o esforço de descristianização da França, revela a atitude de diretores de consciência dos revolucionários. Querer dominar consciência é totalitarismo. A violência totalitária é mais invasiva, tende a produzir a noção de crime de opinião, mais agressivo do que os tipos penais de mera conduta. Conquistar “corações e mentes” é a mais pura expressão do totalitarismo, é o exercício do poder não apenas sobre as condutas, mas sobre as consciência. Não há opressão maior do que a do escravo que ama o senhor, ao modo da “síndrome de Estocolmo”.
O conflito pelo domínio de consciências é a mais grave ameaça do nosso tempo, nos termos expressos por Gyorgy Lukács (1885 – 1971), quando disse: o nosso objetivo não é a conquista do governo, mas o domínio da cultura.







