Bancos Digitais: os riscos e as vantagens, por Igor Macedo Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Nos últimos 3 anos a concentração bancária no setor de cartões de crédito e contas correntes sofreu uma grande mudança. A proliferação de bancos digitais, com a facilitação da criação das fintechs por parte do Banco Central do Brasil, foi um importante passo para melhorar a competitividade em um setor historicamente concentrado no Brasil.
A principal facilidade que os bancos digitais divulgam para seus potenciais clientes são contas sem tarifas de manutenção, operações de transferências gratuitas, abertura de contas on-line, investimentos com liquidez diária e muitos outros atributos que facilitam o dia a dia das pessoas, poupando dinheiro e principalmente tempo, o nosso ativo mais importante.
Não há dúvidas que as fintechs vieram para ficar e que bancos tradicionais, como o Itaú e o Banco do Brasil, também lançaram suas versões digitais para competir neste segmento. Contudo vale ressaltar que na ânsia de se ter serviços financeiros mais baratos ou mais práticos, muitas pessoas passam a esquecer elementos básicos sobre o que pensar quando contratar uma instituição financeira.
O primeiro e mais importante elemento é a confiança, tendo em vista que depositamos nosso salário, nossas economias e nossos investimentos. Em maio de 2018 o Banco Central liquidou judicialmente o Banco Neon, impactando nas contas correntes daquela fintech, o aplicativo ficou fora do ar e as pessoas não conseguiram fazer pagamentos, saques ou depósitos, prejudicando 600 mil clientes. É extremamente importante que as pessoas saibam se o banco digital que estão contratando possui um histórico de qualidade no mercado ou se pertence a algum conglomerado mais consolidado no mercado.
O segundo aspecto são as demonstrações contábeis. Pode parecer algo técnico e as vezes até complicado, porém o Brasil é um dos países mais lucrativos para o setor financeiro e estruturalmente as margens de lucros altas dos bancos ajudam na estabilidade no sistema financeiro nacional e consequentemente na confiança dos depositantes. Em análise de alguns desses bancos digitais é surpreendente a sequência de prejuízos em vários semestres seguintes ou valores de lucros baixíssimos, que aparentam serem meramente contábeis. Chegamos então a uma nova pergunta, você deixaria seu dinheiro em um banco que gera prejuízos?
O terceiro e talvez mais importante aspecto é que várias dessas finechs não estão ligadas ao FGC, o Fundo Garantidor de Crédito, uma instituição que garante em caso de quebra da instituição financeira a restituição de até R$ 250.000,00 de reembolso ao depositante.
De maneira geral as propagandas dessas instituições são descoladas, focam no público jovem e criticam o mercado tradicional. Até aí tudo bem, pois eles estão no legítimo papel de atrair clientes e quanto mais clientes tiverem em sua base, maior a probabilidade de lucros no futuro.
O grande questionamento é se é possível manter a confiança e a garantia de uma operação financeira saudável no longo prazo oferecendo diversos serviços aos clientes e cobrando quase nada por isso.
Outro importante questionamento é justamente que as fintechs ou bancos digitais operam muito mais com serviços bancários do que com crédito, que continua concentrado nas 6 maiores instituições brasileiras, e o avanço nessa área foi muito pequeno devido à baixa capacidade de funding das fintechs brasileiras para poder emprestar a pessoas físicas e jurídicas.
Baseado no ditado popular, quando a esmola é demais, o santo desconfia. Esse mercado ainda não é lucrativo, porém acredito que será no futuro. A atenção é que hoje existe um contingente cada vez maior de pessoas que opera nos bancos digitais achando que estão com vantagens em diversos serviços, mas se esquecem que estão contraindo riscos bem desvantajosos que podem levar a prejuízos e grandes dores de cabeças.
É importante que com todo esse movimento de educação financeira que está sendo divulgado e ampliado por meio de cursos e das redes sociais, que as diferenças sobre bancos tradicionais e bancos digitais estejam bem expostas para que os consumidores possam estar cientes das decisões sobre aonde guardar seu dinheiro.

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