Capitalismo e Democracia, Quo Vadis? Por Igor Macedo de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

“Quo Vadis ?” é uma palavra em latim que pode ser traduzida ao pé da letra como “aonde vai?” Nos últimos 70 anos a queda do muro de Berlim e a derrocada da União Soviética levaram ao fim de uma disputa internacional no campo político e econômico.

O ocidente formado pelos Estados Unidos, pela Europa Ocidental e com uma forte representatividade do Japão na Ásia consolidaram o sistema capitalista como o modelo hegemônico de relações de produção no planeta, mostrando sua eficiência na criação de riqueza, sua capacidade de diminuir a pobreza nas sociedades e principalmente mostrando as contradições do sistema comunista de produção.

Do ponto de vista político essas nações impuseram ao mundo como o sistema democrático, seja parlamentar ou presidencialista, era uma maneira de resolução de conflitos internos, capaz de gerar uma coesão social e principalmente garantir bases legais para o desenvolvimento do capitalismo, tornando-se indissociável dentro do desenvolvimento político e econômico dos Estados.

Dentro deste contexto cria-se o que comumente conhecemos como Ordem Liberal Internacional, um sistema que veio se expandindo e se tornando invejado por países que não conseguiam atingir esse grau de desenvolvimento. Ao relacionar a lista das maiores potências globais no final do século passado, era visível que se tratavam todas de democracias capitalistas.

Entretanto esse cenário começou a mudar com a acensão da China no cenário internacional, principalmente após as reformas estruturais realizadas durante o governo de Deng Xiaoping (1978-1990). Em sua visão o líder chinês conseguiu realizar algo impensável para uma nação que havia passado por uma revolução comunista, separar ideais políticos e econômicos.

Para Xiaoping a revolução comunista foi essencial para criar uma nova base política para a China, onde seus interesses se voltariam para dentro da nação e para seus compatriotas, mas sua visão sobre os fracassos econômicos da União Soviética, de Cuba e da Coréia do Norte era algo que ele concebia como uma falha insanável do comunismo, o qual seria a fonte da derrota da China e o fim da revolução.

Nesse contexto criou-se um experimento até então desacreditado pelos ocidentais, ao manter um modelo de ditadura comunista na política nacional e ao mesmo tempo desenvolver uma economia de mercado integrada as cadeias globais de valor e que fosse capaz de atrair investimento direto estrangeiro e capitais para dentro do sistema. Em outras palavras, a China procurou criar um modelo comunista onde a base política fosse tão sólida quanto a democrática no âmbito da confiança e da garantia aos investidores, que pudesse competir no longo prazo com os modelos ocidentais e assim desenvolver nesta nova base o capitalismo de mercado.

Apesar de ter criado um modelo onde o peso do Estado é muito maior do que nas outras nações e que empresas estatais operam em mercados estratégicos, seu crescimento de dois dígitos durante anos e o aumento da população se tornaram atrativos que não poderiam ser ignorados pela globalização e pela expansão das multinacionais ocidentais.

O Japão foi o primeiro país a assentar bases na China, transferindo tecnologia e desenvolvendo joint-ventures para criar industrias de base nos setores de extração mineral, siderurgia, química, petróleo e até automóveis. Nos anos seguintes os americanos e os europeus começaram a criar suas joint-ventures na China e ofertar produtos e serviços.

Nessa conjuntura a China ofereceu um novo modelo ao mundo, onde o desenvolvimento econômico e principalmente a melhora na qualidade de vida das pessoas, o aumento da riqueza material e do conforto poderia ser alcançado em um modelo sem democracia. Era possível se alinhar a um governo totalitário e gerar riqueza e bem estar para uma população, algo até então impossível.

É dentro deste contexto que apresento a ideia de “capitalismo e democracia, quo vadis?” Um dos principais problemas das democracias no século XXI é que a melhora na qualidade de vida das pessoas parece ter desaparecido. Protestos das classes médias e baixas na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina vem derrubando líderes regionais, refazendo constituições e em muitos casos gerando críticas contundentes sobre a atual incapacidade de nações democráticas avançarem na melhora da qualidade de vida de suas populações, algo que foi durante 70 anos a base social da defesa das democracias liberais.

O risco que se apresenta hoje do ponto de vista político é: a China ao apresentar um modelo politicamente totalitário, mas que vem entregando resultados surpreendentes em riqueza material e prosperidade para sua população pode se tornar hegemônico? É uma pergunta difícil de responder, tendo em vista que culturalmente a China ainda é um país bastante fechado e a cultura faz parte da hegemonia política mundial.

Há um risco claro, existirão nações onde as bases democráticas são frágeis e que podem sim adotar suas próprias versões de “comunismo capitalista” como uma maneira de tentar replicar o sucesso econômico chinês. Esse é talvez um dos mais perigosos desafios da manutenção da Ordem Liberal Internacional, como se reinventar e mostrar que as democracias liberais ainda podem entregar mais riqueza e uma melhoria na qualidade de vida de suas populações sem se entregarem ao totalitarismo de um novo sistema.

Por isso pergunto novamente, capitalismo e democracia, Quo Vadis?

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