Catarina Rochamonte: o relâmpago em Davos e a trovoada na Venezuela

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Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE, Mestre em Filosofia pela UFRN e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

Relâmpago em Davos e trovoada na Venezuela: o discurso de Jair Bolsonaro e o juramento de Juán Guaidó  

Por Catarina Rochamonte
Os personagens políticos desta semana foram – aliás, estão sendo – o presidente efetivamente eleito do Brasil e o presidente interinamente consagrado da Venezuela. Jair Bolsonaro fez em Davos, no Fórum Econômico Mundial, um discurso relâmpago: rápido e claro. Em Caracas, Juan Guaidó, diante de centenas de milhares de cidadãos em clamor contra uma tirania, ergueu a voz como uma trovoada pela liberdade, jurando “ante Deus todo poderoso e a Venezuela, assumir formalmente as competências do Executivo nacional como presidente encarregado da Venezuela para pôr fim à usurpação, iniciar um governo de transição e viabilizar eleições livres”.
Em Davos, o presidente do Brasil tinha à sua disposição quarenta e cinco minutos, mas falou menos de dez. Não foi um discurso brilhante, mas não havia porque esperar brilhantismo e eloquência. Bolsonaro foi eleito com um discurso simples e direto e em várias ocasiões teve a humildade de reconhecer que não entendia de economia e que estava passando a bola para quem entendia e muito do assunto. Ele apenas afiançou os seus ministros ao afirmar que “pela primeira vez no Brasil um presidente montou uma equipe de ministros qualificados, honrando o compromisso de campanha, não aceitando ingerências político-partidárias que, no passado, apenas geraram ineficiência do Estado e corrupção.
No mais, Bolsonaro traçou um quadro minimalista de intenções estratégicas cujas complexidades só podem, por óbvio, ser tratadas por quem efetivamente entende do assunto. O importante para os investidores e para o mercado financeiro internacional que se fazia presente no Fórum não era a força retórica do presidente, mas a sua disposição em sustentar a agenda liberal de Paulo Guedes e essa disposição ficou explícita no seguinte trecho do discurso:
Gozamos de credibilidade para fazer as reformas de que precisamos e que o mundo espera de nós. […] Vamos diminuir a carga tributária, simplificar as normas, facilitando a vida de quem deseja produzir, empreender, investir e gerar empregos. Trabalharemos pela estabilidade macroeconômica, respeitando os contratos, privatizando e equilibrando as contas públicas. O Brasil ainda é uma economia relativamente fechada ao comércio internacional, e mudar essa condição é um dos maiores compromissos deste Governo. […] Tenham certeza de que, até o final do meu mandato, nossa equipe econômica, liderada pelo ministro Paulo Guedes, nos colocará no ranking dos 50 melhores países para se fazer negócios.”
Em um interessante artigo intitulado “A primavera liberal”, Gustavo Franco – economista que foi responsável pela implementação do Plano Real e que preside atualmente a Fundação do Partido NOVO – analisa esse momento peculiar da nossa história política no qual “siglas como MBL, VPR, RAPS e Renova, cuja origem tinha que ver com as mobilizações associadas ao impeachment e o anseio por uma nova política” tiveram envergadura suficiente para eleger vários de seus filiados formando, assim, “uma bancada de índole autenticamente liberal na economia, ainda que pequena.” Esses novos representantes do liberalismo no Congresso encontram-se, no entanto, dispersos em vários partidos desde o NOVO até a REDE, passando pelo Democratas.
No referido artigo, Franco nos lembra ainda que o PSL – “partido que surge do nada para se tornar a segunda maior bancada na Câmara dos Deputados na esteira do sucesso eleitoral de Jair Bolsonaro” – estava prestes a se deixar moldar por uma pauta mais liberal tanto na economia quanto nos costumes quando a entrada de Bolsonaro provocou uma precipitada evasão e uma onda de desfiliação. Esse fato é ilustrativo das tensões provocadas pelo tal do “liberalismo na economia e conservadorismo nos costumes”.
Alguns veem esse misto de conservadorismo e liberalismo como algo negativo e há entre intelectuais liberais alguns críticos ferrenhos do atual governo. De nossa parte, vemos o copo pela metade como metade cheio e não como metade vazio, ou seja, mantemos, ainda, uma visão otimista que parece ser a do próprio Paulo Guedes que, em entrevista concedida à Bloomberang internacional, afirmou que há um erro de percepção entre aqueles que não enxergam que há hoje no Brasil “uma aliança de conservadores no centro e liberais no centro e na direita, depois de trinta anos de domínio da social-democracia” e que essa aliança que caracteriza tal mudança política é a expressão de uma “democracia bem vibrante em funcionamento.”
O problema do atual governo não está, portanto, nesse tipo saudável de aliança entre conservadores e liberais ou entre centro e direita, mas no reacionarismo de alguns que se dizem conservadores e no antiliberalismo de alguns setores corporativistas que tentarão salvaguardar seus próprios interesses. Por mais promissores que sejam os planos de Paulo Guedes para vivificar a nossa economia, as pautas liberais precisam avançar no Congresso – principalmente a da reforma da previdência – e o próprio PSL pode acabar sendo um obstáculo a isso. A polêmica viagem da bancada do PSL à China em dissonância com o presidente e com o Itamaraty mostrou que não há alinhamento interno e que muitos parlamentares eleitos por esse partido não têm nenhum compromisso a não ser consigo mesmo e com os seus quatro anos de fama conquistados de última hora às custas da popularidade obtida pela declaração de apoio a Bolsonaro. Há ali, e em outros partidos também, um certo ranço antiliberal corporativista que pode pôr quase tudo a perder.
De todo modo, se o ministro da economia é aclamado por unanimidade entre os liberais, os conservadores se vêm representados tanto pelo ministro da educação quanto pelo ministro das relações exteriores. Conservadores não reacionários raramente atacam o liberalismo econômico. São contra o globalismo, mas não contra a globalização (embora muitos jornalistas continuem fazendo análises a partir da confusão entre os dois conceitos). Já os liberais/progressistas atacam fortemente o viés conservador do governo, enquanto nós, liberais/conservadores, tendemos a aplaudir quando ouvimos o presidente afirmar em Davos que vai “defender a família, os verdadeiros direitos humanos e proteger o direito à vida.” A verdade é que Bolsonaro não foi eleito apenas pela sua agenda econômica. Havia candidatos liberais na disputa. Ele foi eleito por defender exatamente o que voltou a defender na sucinta frase acima.
Muito do que o presidente deixou de dizer no seu discurso relâmpago, foi dito em seguida por ele mesmo ou pelos ministros presentes na comitiva. Vista em conjunto, portanto, a missão do presidente brasileiro no Fórum Mundial foi um sucesso. Ao contrário do que prega a militância histérica das universidades, Bolsonaro tem se mostrado moderado e moderador, aberto ao diálogo, a sugestões e seguindo pelo caminho constitucional. Isso, claro, será sempre negado pela esquerda que torce desesperadamente para que ele se revele autoritário, atrabiliário, déspota e fascista.
Sobre as denúncias envolvendo o seu filho e Senador da República, não tendo elementos suficientes para avaliar a questão, limitamo-nos ao sentimento de apreensão sem defender ou acusar ninguém antes do esclarecimento dos fatos, concedendo o benefício da dúvida e reproduzindo aqui a declaração dada pelo presidente à agência Bloomberg, ainda no contexto do referido Fórum: “Se ele errou e isso ficar provado, eu lamento como pai, mas ele vai ter que pagar.
Apesar de ter dado mais destaque em seu discurso às pautas econômicas do “garoto de Chicago”, Bolsonaro não deixou de citar nominalmente seu ministro da Justiça, Sérgio Moro, nem seu chanceler e asseverou: “nossas relações internacionais serão dinamizadas pelo ministro Ernesto Araújo, implementando uma política na qual o viés ideológico deixará de existir.” Sem perda de tempo e sem tibiezas, ainda em Davos, Bolsonaro anunciou o reconhecimento do Brasil a Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela. Aliás, a clareza de posição quanto ao resguardo dos valores da democracia e da liberdade tem sido a marca da nova diplomacia brasileira desde que o diplomata de carreira Ernesto Araújo assumiu o Itamaraty. Vale notar que por não ter medo de confrontar as doutrinas totalitárias e as ditaduras, o Chanceler tem sido alvo preferencial da esquerda e por ser religioso e admitir a necessidade de uma guerra contra o marxismo cultural e contra o globalismo ele tem sido alvo preferencial dos liberais/progressista.
Como era de se esperar, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann – que fora à Venezuela no dia 10 de janeiro prestigiar o facínora usurpador Nicolás Maduro por ocasião da sua “posse” – condenou a postura do Brasil em reconhecer Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela, dizendo a dita cuja que “não se faz política externa de forma ideológica”. Como se o seu partido, cujos governos financiaram as ditaduras da Venezuela e de Cuba a fundo perdido, que cederam mais de uma refinaria de petróleo ao governo bolivariano da Bolívia tivesse moral para fazer semelhante afirmação! Como se o partido cujo ministro da Justiça mandou caçar refugiados cubanos para devolvê-los ao ditador Castro, que integra o organismo internacional de extrema esquerda Foro de São Paulo, tivesse alguma autoridade para fazer declaração de isenção ideológica!
A tresloucada e inconsequente presidente do Partido dos Trabalhadores – que já chegou a ir  à TV árabe, Al-Jazira, pedir ajuda para libertar Lula – acusa o Brasil de querer interferir na soberania e na autodeterminação da Venezuela! Ora, foi o povo venezuelano que mesmo faminto, fadigado, oprimido, devastado foi às ruas novamente em busca da sua libertação. O povo venezuelano já se autodeterminou: ele quer o fim da miséria socialista e a deposição imediata do tirano usurpador que se esbalda em churrascaria de luxo enquanto o seu povo miserável come carne podre ou morre à míngua.
Mas esse povo está desarmado e a Guarda Nacional Bolivariana já iniciou a repressão brutal de sempre. Até essa quinta-feira (25 de Janeiro), entidades de Direitos Humanos e a imprensa internacional haviam registrado a morte de 26 manifestantes, assassinados pela repressão chavista, sendo realista  considerarmos que os militares – detentores que são do comando de estatais e de cargos de alto escalão na atual ditadura chavista – só abandonarão Maduro se ficar claro que ele cairá de qualquer maneira e isso só acontecerá se a pressão da comunidade internacional e dos Estados Unidos em particular continuar.
Até agora o governo brasileiro não sinalizou para uma intervenção militar na Venezuela.  Quem sinalizou para isso foi justamente o presidente dos Estados Unidos ao declarar que “todas as opções estão sobre a mesa”, embora ele mesmo tenha mitigado o peso da declaração com frase subsequente na qual afirma que usará “todo o peso do poder econômico e diplomático dos EUA para pressionar pela restauração da democracia venezuelana”.
Essa pressão contra a tirania chavista, que está esmagando o povo venezuelano pela repressão e pela fome, tornou-se exigência inescapável da consciência democrática sem fronteiras, da sociedade aberta que somos e que queremos preservar. Nessa direção caminham, cada vez mais decididamente, as democracias liberais de todo o mundo, tomando o caminho inverso os regimes que tendem ao recrudescimento, ao despotismo, ao totalitarismo e que, por isso mesmo, afinam-se com o regime sustentado por Maduro.
Dentre os que ainda sustentam o famigerado ditador citamos Cuba, Rússia, Turquia, China, Irã, México, Bolívia e Nicarágua. De todos os apoios, o mais apaixonado é o do PT e o mais efetivo é o de Cuba, que tem presença forte em todo território da Venezuela e mantém com o governo chavista, desde há muito, relações de interdependência financeira e militar.
Felizmente a balança dos apoios internacionais pende contra a ditadura de Maduro. Até o dia da conclusão desse artigo, Brasil, Estados Unidos, Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Reino Unido eram contabilizados como apoios internacionais à restauração democrática na Venezuela por meio do reconhecimento da interinidade de Juan Guaidó.
A ONU, pela voz do seu secretário-geral Antonio Guterres, pediu “diálogo” para evitar um “desastre”. Cumpre o seu papel moderador, embora seja meridianamente claro que a ditadura de Nicolás Maduro é o próprio desastre.
A OEA reafirmou seu apoio à Assembleia Nacional e à presidência interina de Juan Guaidó.  A União Europeia, em declaração redigida sob o impacto das notícias e imagens dos protestos da quarta-feira, condenou o regime de Maduro e exigiu a realização de “eleições livres e confiáveis”. Via Twitter, o presidente da França, Emmanuel Macron, declarou o apoio da Europa à causa da democracia na Venezuela e saudou os manifestantes: “Je salue Le courage de centaines de milliers de Vénézuéliens qui marchent pou leur liberté”.  
Macron está certo. Eles marcham pela liberdade. E nós marchamos com eles. Eles marcham pelo  que defendemos há séculos e o fazem porque têm esperança e porque a sustentam em valores. Eles lutam pelo direito à dignidade que só existe na liberdade e lutam também pelas suas próprias vidas. Um passo a mais do mal e o bem esquecerá a força que tem. Fazer política é também ter consciência de si como povo, como nação, como história e como civilização.
Não se preocupem com o discurso curto do nosso presidente. Ele disse exatamente o que precisava dizer: “Vamos resgatar nossos valores e abrir nossa economia”. Ajudar os irmãos da Venezuela na luta pela liberdade faz parte do resgate desses valores e abrir nossa economia fará nosso país prosperar e crescer. Ele falou para conservadores, liberais e democratas. Os outros simplesmente não têm ouvidos para ouvir.   

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