
*Por Paulo Elpídio de Menezes Neto
A onda do “politically correct” ampliou-se, gasta pelo uso, de contritas persignações liberais aos redutos inexpugnáveis da classe média americana, enquanto perdia, com o uso indistinto dessa redução hipócrita, a sua identidade de origem.
De sotaque burguês, colarinho e gravata, saído das tribos puritanas que se incluem entre os “fundadores da América”, o “politicamente correto” ganhou espaço, território e adeptos numerosos – e internacionalizou-se, a exemplo de movimentos que pregam, em nome da liberdade e da democracia, justamente o que mais as ameaça. Tornou-se código, símbolo, imagem, com entrada e assento garantidos na semiologia, a um só tempo, celebrada e vituperada na academia, na intimidade da morada dos políticos e nos círculos concêntricos do poder do Estado.
O corretamente político tem muito a ver com a conveniência cultivada entre pessoas bem nascidas e bem plantadas na vida. É linguagem corrente, consensual, própria a iguais remidos ou a insurgentes que encontraram uma causa pela qual combater, entregues aos seus sacrifícios pessoais, no quadro das suas ambições, dos ódios acumulados e das perdas dissimuladas.
Do sentimento compartilhado, moldado pelo comportamento ético, carregado de virtudes e boas intenções, às obrigações impositivas das regras assumidas foi um salto que, a muito poucos, terá despertado a atenção, sequer a percepção das ameaças totalitárias, presentes em todas as redes das relações sociais.
Essas digressões dispensáveis — haveriam de julgar os leitores de índole contida — não devem alongar-se. Menos por lhes faltar a atração do objeto crítico, muito mais porque as ideias devem ser reduzidas a proporções justas, despidas de atavios desnecessários que ponham em risco o essencial do que intentam questionar.
A elaboração de todo e qualquer texto deve ser precedida de certos cuidados estéticos, assim aprendemos, mas também de acertos estilísticos, estabelecidos como limites de contenção da retórica do autor, até mesmo de certo preciosismo que a sua vaidade não conseguiresconder.
Afinal, para quem estamos a escrever? E o que nos anima a fazê-lo e a transmitir a um “receptor” desconhecido que não nos coube designar mensagem assim construída? Quem imaginamos poder alcançar com as proposições e sobre quem pretendemos exercer alguma forma de influência real? Usando a linguagem, oral ou escrita, como instrumento de transmissão e compartilhamento, em que medida ela deverá ser modelada à vista do destinatário anônimo em cuja intenção ela foi concebida? Qual a medida aceita,adequada, à moda de receita, para os cânones do “politicamente correto” de que poderemos nos valer? Como funciona o ajuizamento do “correto” e do “justo” na avaliação do conteúdo de uma ideia?
Não iremos nos expor, por sábia precaução, aos desafios da “análise do discurso” e das teorias que animam esses exercícios intelectuais. Se tivéssemos de fazê-lo, traríamos de logo o nome familiar de um estudioso discreto, Tarcísio Santiago, quem, sob os nossos olhos desatentos, consagrou a sua vida inteira a essas pacientes navegações.
A “análise de conteúdo” é usada, em geral, como contraponto à “análise do discurso”, mas nessa aparente antinomia não se excluem, antes, se associam na paciente aventura da descoberta de como se elaboram as construções ideológicas em um texto, como elas se dissimulam e escondem. São instrumentos poderosos de que se servem amplamente as ciências sociais, e deles retiram perspectivas quantitativas e qualitativas de uma análise ampla de conteúdo.
Teorias à parte, nesses recursos encontram-se os caminhos incontornáveis para melhor análise e apreensão dos textos da mídia e das ideologias que os produzem. De algum modo, haveremos de correr por cima deles, em outra ocasião, embora não seja propósito destas considerações.
O texto deve ser elaborado em função do destinatário — de seus anseios, das perplexidades, em favor das suas fidelidades ideológicas ou contra elas, ou como sumária roupagem de conteúdos que ao autor agrada e encoraja escrever, malgrado o leitor?
Essas conjecturas conduzem inevitavelmente à discussão em torno do papel dos novos “meios” de comunicação, categoria recente, de algumas décadas, desde a construção da Internet. Temo-los por canais “desinstitucionalizados”, em contraponto aos tradicionais, a “mídia” formal, organizada em bases empresariais, segundo as suas regras e a partir de uma economia própria dos seus custos operacionais e das suas fontes de receita. Distintas entre si, mostram-se, ademais, em processo inacabado de construção, as relações desses meios de comunicação com o Estado e os governos, um tão antigo, o outro, por demais recente. A “mídia” designada “tradicional” em contraposição ao novo despontado transforma-se e adapta-se à circunstâncias emergentes, para não falarmos dos “novos tempos”, numa luta de sobrevivência travada nos espaços virtuais com as “redes” ditas sociais.
O que está em movimento de mudança e o que mudará inevitavelmente, nestes tempos vorazes? A quem se dirigirá a mídia formal “tradicional” e a “moderna”, qual o conteúdo da mensagem a transmitir? Como se construirá a imagem da realidade? Como identificar os fatos relevantes e as notícias que os levarão aos “leitores”? Por quanto tempo existirão leitores e expectadores para as mensagens que continuam a ser produzidas por processos envelhecidos e, no mais das vezes, desacreditados? Poderíamos falar de uma “insurreição” dos leitores, da fuga temida dos anunciantes e provedores públicos da mídia tradicional?
O que significa, como ”fait accompli”, a renúncia ao papel impresso e o ingresso de um jornal no planeta digital, o abandono inevitável da sedução gutenberguiana pelos apelos dos recursos virtuais?
Quem busca informações como matéria de consumo corrente e quem a procura em resposta a necessidade conspícua, indispensável ao seu negócio e aos seus projetos em expansão?
O mercado da comunicação está povoado por uma gama variada de profissionais muitos dos quais até há bem pouco inexistentes: publicitários, “influencers”, “promoters”, consultores, categorias em franca e diversificada expansão. Há nesse meio os que buscaram nichos de atividade tidos até há pouco tempo como promissores, porém presos a incertezas e dúvidas. Aconselhadores financeiros, auditores econômicos, conselheiros políticos, lobistas, ex-funcionários dos altos escalões, postos em disponibilidade, parlamentares vocacionados para essa lucrativa intermediação entre o público e o privado são mão de obra especializada, em elevada cotação no mercado.
A informação governamental, rotulada de propaganda ou vista com indulgência como comunicação “social” indispensável, é obra da engenharia política, de alcance inestimável, como descobrira Goebbels.
Em virtude dos avanços tecnológicos das últimas décadas, o processo de hipnotização das massas exercido pelos governos com base na mídia tradicional, experimentou surpreendentes mudanças. A burocracia do Estado e os agentes públicos desenvolveram meios e instrumentos que os libertaram e as suas mensagens da intermediação dos meios mais tradicionais de comunicação.
O governante fala diretamente com o povo, sem interposições onerosas, por múltiplos canais privados. O empresário dispõe das informações gerenciais que o interessam e aos seus negócios pelos préstimos de consultores qualificados, contratados ad hoc. As relações políticas interpartidárias com o governo, processo ágil bem conhecido são operadas com sucesso, graças aos atrativos das verbas públicas, dos fundos partidários, da distribuição de cargos e das dotações vinculadas. Dispensam, ça va sans dire, as intermediações singulares de outros tempos.
Há quem enxergue mudanças graduais, porém efetivas, anunciadas para os próximos anos. As mudanças sociais e políticas e dos aparelhos do Estado têm medida temporal própria. Não ocorrem no ritmo da vida dos viventes, cidadãos e homens de Estado. São mais lentas, ainda que mais letais (desculpo-me pelo trocadilho involuntário, mas de bom gosto, admitamos).
Sem pretender roubar a cena aos oráculos e aos portadores da revelação, é possível prever que tais mudanças, em curso, sem retorno, estão inscritas nos livros da anunciação.
Quando a humanidade incorporou a leitura aos seus hábitos intelectuais, aposentando para horror dos mais céticos a oralidade dos jardins do Éden, associou-a ao vezo de diálogos de tantos séculos. A leitura, nos seus começos, declamada diante do descrédito da audiência, era feita em voz alta, ao compasso do ritmo dado por um cajado. O método socializava a leitura com os ouvintes de uma cultura remanescente e acudia aos receios dos que temiam que o conhecimento, posto em letra de forma, pudesse ser esquecido. A escrita para esses argutos senhores, desvendadores antecipados da psiquê dos humanos, significava, como a viam, um indesejável processo de transferência para o papel do que deveria ser guardado pela memória. Et pourtant…
Terminaremos por escrever para nós mesmos? Os que pensamos serem nossos leitores, entre eles os amigos mais devotados, continuarão a sê-lo, no futuro? Seremos nós leitores do que outros escrevem?
Não por acaso, a palavra “journal”, o “diary” em inglês, designa a memória ao curso dos registros, o “journal” dos escritos diários, o “diário”, feito gênero literário, com enorme prestígio entre intelectuais e a nobreza europeia, de longa data. Os jornais, muitos e prósperos, estão ligados a uma vetusta tradição peninsular, de onde recebemos algumas heranças confessáveis, outras nem tanto assim. Jornais, como se chamavam essas preciosidades, mesmo aquelas magras folhas de circulação incerta e duvidosa… Os noticiosos do rádio e da televisão chamam-se curiosamente de “jornais”.
E para os que, como nós, não perdemos de vista o passado, os jornais perduram a ser aqueles repositórios de tinta e papel, notícias e opinião, recolhidos ao monitor dos computadores e celulares. Infelizmente, sem a feição artesanal que os tornava tão gostosos de ler.








