
“Não tenho nenhum compromisso, nem de votar, zero compromisso. Está desfeito qualquer tipo de compromisso que a gente tinha”. A fala de Ivo Gomes (PSB) não é um desabafo isolado nem retórica de rádio. Ela precisa ser lida como sinal político, daqueles que costumam anteceder movimentos maiores… e mais silenciosos… no tabuleiro do Ceará.
Ao declarar “compromisso zero” com a reeleição do governador Elmano de Freitas (PT), Ivo rompe publicamente com um arranjo que ele próprio ajudou a construir em 2022. Não é pouca coisa. Naquela eleição, o então prefeito de Sobral foi peça central na engrenagem que garantiu a vitória de Elmano no primeiro turno e impôs uma derrota estratégica ao grupo de Roberto Cláudio, cuja candidatura ao Governo gerou o rompimento do camilo-petismo com a aliança até então hegemônica. No fim das contas, deu-se um resultado que redesenhou o poder no Estado e teve efeitos em cascata, inclusive na eleição municipal seguinte, quando José Sarto naufragou ainda no primeiro turno de Fortaleza.
O Papel de Ivo na Política Cearense
O ponto sensível, agora, não é apenas o afastamento de Ivo em relação ao PT. É o motivo. A aproximação do governo Elmano com o grupo do prefeito de Sobral, Oscar Rodrigues (União), toca num nervo exposto da política cearense: Sobral não é um município qualquer. É território simbólico, histórico e estratégico da familia Ferreira Gomes. Ali, o embate de 2024 foi duro, traumático e, segundo o próprio Ivo, marcado por violência e tentativa de destruição política.
“Por que eu vou estar com uma pessoa que por mim não tem nenhuma consideração? Que se alia a pessoas que só querem o meu mal? Não só querem, tentaram, como tentam diariamente me destruir. Para que vou estar ligado com pessoas que estão alinhadas com outro que é fascista. Porque o que é fascista? É uma pessoa que não acredita na divergência civilizada de ideias. Que acredita que o conflito tem que ser feito com violência”.
Quando Ivo diz que não faz sentido estar aliado a quem se associa a seus adversários diretos, indo além, ao usar o termo “fascista” para caracterizar esse campo, ele está delimitando claras fronteiras. Não apenas pessoais, mas políticas. Para bom entendedor, o recado é claro: há limites para a conciliação.
Mais relevante ainda é o subtexto. Ivo sempre caminhou em sintonia com o senador Cid Gomes, que, para muitos, é o mais brilhante estrategista da política do Ceará. Em 2022, os dois estiveram juntos nas decisões que levaram ao apoio a Elmano no plano estadual e a uma participação apens protocolar na campanha do irmão Ciro Gomes na disputa presidencial. Agora, ao afirmar sem hesitação que faria campanha para Ciro, Ivo recoloca o irmão no centro do jogo estadual. ”Claro que faria [campanha para Ciro], lógico que faria. O Ciro seria o melhor presidente que o Brasil teria, avalie o melhor governador do Ceará”
No “mercado político”, como se costuma dizer, a leitura é inevitável: se Ciro for candidato ao Governo do Ceará, a fala de Ivo abre a hipótese concreta de Cid seguir pelo mesmo caminho. Não como ruptura abrupta, mas como deslocamento gradual provocado, ironicamente por, digamos, uma escolha do próprio governo petista.
O PT, ao buscar ampliar sua base com alianças locais pragmáticas, corre o risco de tensionar demais uma relação que sempre foi sustentada mais por convergência estratégica do que por afinidade ideológica. A declaração de Ivo Gomes não fecha portas, mas acende um alerta. E, na política cearense, alertas raramente são ignorados sem custo.
Em síntese: não se trata apenas de Sobral. Trata-se de 2026. E o relógio, não tão silenciosamente, já está correndo.







