De negação em negação. De recusa em recusa

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Por Fábio Campos, no O Povo deste domingo (28)
fabiocampos@focuspoder.com.br

Fui ativo militante de esquerda entre as décadas de 1980 e 1990. Mais precisamente, entre 1984, ano em que ingressei na Faculdade de Economia da UFC, e 1992, quando me formei em Comunicação Social, vulgo Jornalismo, na mesma Federal. Esse período teve forte influência em minha formação, mas considero que minhas leituras indisciplinadas foram mais importantes. Cometi a prazerosa desobediência de não me restringir à cartilha da esquerda.

Havia naquele momento, pelo menos em meu grupo de convivência, a valorização da ideia de que divergir livremente era saudável e deveria ser estimulado. Bons tempos. As palavras “crítica” e “autocrítica” eram muito presentes. A primeira, usada numa prática voraz. A segunda, muito cobrada para que fosse praticada (pelos outros).

Pois é. Voltemos ao presente. A esquerda chegou ao poder. Lá, passou 13 anos e alguns meses. Na república, algo comparável apenas a Getúlio Vargas, que, na marra da ditadura, ficou de 1930 a 1945 e depois, na primavera da democracia, exerceu o poder de 1951 até sua morte em 1954.

Então, em termos de tempo de poder, somente um ditador pode ser comparado com o tempo que a esquerda deu as cartas. Diga-se: um ditador reverenciado pela esquerda, mesmo que, no poder, o tal tenha massacrado o que então era a esquerda.

Sim, mais de 13 anos. Foram quatro vitórias em eleições livres e democráticas. Muitos acertos e uma sequência fatal de desacertos. Veio o impeachment. Ou golpe, como gostam os “impichados”. Volto a dizer: Se foi golpe contra Dilma, foi golpe contra Collor. Mas, não é esta a questão que quero abordar.

Uma sequência fatal de desacertos, certo? Sim, parece insofismável. Mas, será que se vê por aí alguma autocrítica? Nada. Nem sequer a admissão de que houveram os tais desacertos. Já fiz isso uma vez neste espaço e faço novamente. No caso, recorro à elaboração de um cientista político reconhecidamente de esquerda e que, a meu ver, está sendo honesto com a História.

Chama-se Marco Aurélio Nogueira. É cientista político formado pelas melhores universidades de São Paulo, USP e Unesp. Sobre ele, escreveu: “Nos anos de militância, foi como se eu tivesse me posto em contato com a história viva do País, que pulara fora dos livros e se mostrava por inteiro, com suas virtudes e suas deficiências. Conheci a velha guarda comunista, os militantes incógnitos, os dirigentes sindicais combativos e os pelegos, os intelectuais antigos e os novos, os conhecidos e os desconhecidos, os grandes ‘mitos’ como Prestes. Corri o Brasil. Ganhei outro sentido para a vida e para o trabalho”.

Hoje, Nogueira milita nas ideias e nos ideais. Escreve artigos e livros. Indico a sua obra para entender melhor as manifestações de junho de 2013, as maiores da história e renegadas pela esquerda. Recentemente, o professor assinou no Estadão um artigo intitulado “A esquerda que não merecemos ter”. Pois bem.

Um trecho: “A simplificação mental é assustadora. Um mundo todo está acabando na política. Partidos e lideranças se desfazem por efeito das transformações estruturais do capitalismo e, no Brasil, dos desdobramentos da Lava-Jato e da crise do Estado e da política. Em vez de reconhecer isso, o esquerdismo prevalecente opta por vitimizar Lula e o PT: somente eles seriam ‘perseguidos’. Impeachment foi golpe, eleição sem Lula seria fraude, Lula estaria sendo condenado sem prova só para não poder se candidatar, a lawfare seria a adaga espetada em seu peito. Uma catilinária ilimitada”.

Outro: “Não há mais crítica política. Muito menos autocrítica. Os iluminados, como se fossem escolhidos, sabem tudo, dominam os mares, voam mais alto. São ‘perseguidos’ e, por isso, automaticamente purificados, desobrigados de analisar os próprios passos, os erros cometidos, as culpas que carregam. Toda exigência deveria ser suspensa para não facilitar o trabalho da ‘direita’…  Durante os anos do petismo no poder, a crítica não podia ser formulada porque desestabilizaria e enfraqueceria o governo; depois do impeachment, ela é inadmissível porque serviria para fortalecer os ‘golpistas’. De negação em negação, de recusa em recusa, foi-se empurrando a sujeira para baixo do tapete”.

Bom, o artigo inteiro é muito melhor que esse resumo. Basta colocar o título no site de buscas e ele estará disponível para os leitores.

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