De um leitor de Angela Barros Leal; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

COMPARTILHE A NOTÍCIA


O RISO E A MOFA NA PRAÇA DO FERREIRA

Não resisti a uma primeira leitura deste relato de Ângela Barros Leal sobre “As esculturas e a língua do povo”. Em um segundo repasse, que do texto não pude largar, ocorreram-me lembranças de situações semelhantes ou assemelhadas das quais tive notícias trazidas pela memória familiar.

Sem bater à porta de Ângela e sem a autorização devida, entrei de folgado e pus-me a recordar velhos episódios quase esquecidos.

As mudanças e novidades que chegavam às nossas cidades, pelo tempo em que fui jovem na praia de Iracema, causavam um certo deslumbramento a que respondiam a arrelia do povo e a molecagem crítica mal comportada do “Zépovim”, tratamento reservado aos desocupados que acorriam à praça do Ferreira, nos tempos distantes do Boticário que lhe deu nome, prestígio e destaque.

O Abrigo Central, antes de ser ocupado pelos transeuntes da praça, pelas rodas de desocupados e pelos intelectuais, foi objeto de árdua recriminação pública e dos gracejos que a todos divertiam e faziam rir. Pela forma incomum, entre o casario das vizinhanças, em concreto bem ao estilo modernizante da época.

Não que os fortalezenses chorassem a demolição da velha Intendência para dar lugar ao Abrigo e às suas garapeiras, lojinhas de miudezas e até um quiosque de jornais. Era a novidade abusiva, “pós-moderna”, que os incomodava.

Aos poucos, entretanto, a enorme cobertura foi sendo incorporada aos hábitos dos frequentadores dos arredores. Era uma imagem renovada dos velhos cafés da praça do Ferreira. O Café do Comércio, o Café Java, o Café Emygdio, o Café Elegante e o Café Riche foram, com alguns outros, os precursores das rodas de conversa e da corrente de boatos e aleivosias que ali nasciam e ganhavam foros de verdade… Hoje, alguma voz acusatória haveria de os chamar de “fake news… Por esse tempo não despertáramos ainda para o novo, para a modernidade que se insinuava entre as pessoas viajadas.

As escadas rolantes do Romcy Magazine atraiam multidões, muitos dos frequentes e dos curiosos não se atreviam a confrontar-se com aquele trambolho a subir e a descer continuamente. Houve quem quisesse pular da escada em movimento.

Algumas famílias subiam ao edifício Diogo para ter uma “vista” da cidade. Foi durante algum tempo o único “arranha -céu” de Fortaleza.

A construção dos esgotos, considerada a obra do século do Ceará, o artista plástico Sérvulo Esmeraldo foi convocado para construir uma escultura alusiva ao evento. Lá está a obra do artista, de enorme proporções, marco artístico de grande projeção de um grande empreendimento. Mas não escaparia ao riso maldoso e à zombaria do “zépovim”, aqueles críticos impertinentes que riem, dão vaias no sol e gritam diante das novidades que não compreendem…

A Cátedral, o Edifício São Luiz e o Porto do Mucuripe, em lenta construção durante décadas, eram consideradas pelo “zépovim” as obras inacabadas de vários e inoperantes governos, da igreja e dos ricaços da terra.

Passados mais de duzentos anos da fundação de Fortaleza, o governo do Estado, a prefeitura e a imprensa que não era ainda “mídia”, resolveram comemorar uma data redonda pelos anos 60, com reforma da praça do Ferreira, e outras justas celebrações.

Alguns historiadores aprofundaram as suas pesquisas para chegarem a um impasse aparentemente insuperável : quem seria, afinal, o fundador de Fortaleza? Matias Beck ou Martim Soares Moreno ?

Para Raimundo Girão, Matias Beck. Para Ismael Pordeus, Martim Soares Moreno. Longa e arrastada discussão tomou conta das rodas intelectuais. Formaram-se partidos diatribes abertas, imprecações, acusações mútuas, amizades antigas desfeitas, um clima de guerra baixou sobre a cidade e a intelligentsia cearense.

Martins Filho , reitor da UFC, atribuiu ao pintor Floriano Teixeira, em missão de pacificador de acirradas paixões, o encargo de pintar o retrato de Matias Beck e de Soares Moreno, sem foto ou gravura que lembrasse o semblante heróico dos ilustres personagens. Alguns meses depois, em nome da conciliação dos cearenses os dois retratos a óleo foram entronizados na reitoria da UFC.

Nas águas de uma anunciada reconciliação intelectual dos cearenses, Lustosa da Costa propôs, em sua coluna do UNITÁRIO, que o riacho PAJEÚ servisse de fronteira entre Fortaleza Ocidental e Fortaleza Oriental e que a cada uma delas fosse dado o nome do fundador preferido…

Saímos ganhando: em vez de termos um, temos dois fundadores da nossa “loira desposada de sol”…

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

PPP do Esgoto no Ceará: R$ 7 bilhões para universalizar saneamento em 127 cidades

Genial/Quaest: Lula segue com desaprovação maior que aprovação e perde fôlego entre independentes

Lula lidera, mas Flávio encosta e vira principal rival, aponta Genial/Quaest; Polarização se mantém

Jogo aberto: PT acena ao centrão em movimento que mira a disputa do Ceará

Sánchez e a coragem de dizer o impopular; Veja instigante artigo do líder espanhol em defesa moral e econômica dos imigrantes

Cearense Pedro Albuquerque assume como CFO do Grupo Pão de Açucar

Pesquisa para o Senado: Wagner lidera em cenários movediços; Veja as simulações

Líder com folga em três cenários, Lula ancora o voto no Ceará

Nova pesquisa: Elmano lidera com a direita fragmentada e empata com Ciro em confronto direto

Série protagonistas: Romeu Aldigueri como fiador da estabilidade

A reorganização da direita e o estreito caminho até o centro

Luiz Pontes e o método do poder silencioso

MAIS LIDAS DO DIA

STJ afasta dano moral automático por dados no cadastro positivo

Justiça determina que Itapipoca utilize apenas procuradores concursados em licitações

TST mantém justa causa de gerente da Ambev por “brincadeira” com bebida adulterada

Lula sanciona reajuste salarial de 2026 para Câmara, Senado e TCU e veta aumentos previstos até 2029

Banco Central decreta liquidação extrajudicial do Banco Pleno, ex-Voiter e ligado ao caso Master

Prefeitos do Nordeste articulam limite para cachês milionários em eventos com verba pública

O playboy assassino: A pedagogia do mal; Por Walter Pinto Filho

Ceará lidera crescimento do turismo no Nordeste com alta de 7,3% em 12 meses, aponta IBGE

Feira da Indústria terá energia 100% renovável e compensação total das emissões de carbono