Desaprovação de Lula: onde estão as dores? Por Ricardo Alcântara

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A princípio, não é tarefa simples no Brasil vencer uma eleição contra um presidente no exercício do cargo, como já ficou demonstrado. Em país de maior dimensão e povoado em grande parte de seu território, como é nosso caso, a estrutura que o governo aporta no processo de disputa tende a oferecer uma vantagem ponderável, se mal não for a avaliação de seu desempenho – quadro compatível com a situação atual do presidente Lula em busca de um quarto mandato.

No entanto, e por força de outros fatores, a sirene de alerta foi ligada no comando estratégico do Lulismo com as duas recentes pesquisas eleitorais (DataFolha e Atlasintel) que saíram do forno neste final de março, quando se fecha uma etapa de definição de candidaturas com peso mensurável na disputa presidencial, sondagens que confirmam continuidade na queda de aprovação popular ao desempenho de Lula, já verificada desde o início do ano.

É um período geralmente crítico, em que as pessoas, por terem mais despesas a desafiar o precário equilíbrio das contas domésticas, se lembram de que são pobres, e a esse mal estar veio somar-se, para intoxicar ainda mais o ambiente social e agravar os humores, um rosário amargo de episódios tocantes a má conduta republicana que, vindos de Brasília, se confundem no imaginário coletivo com as responsabilidades do poder executivo – almirante do chamado “sistema” no regime presidencialista.

Porém, esses são contornos de definição geral e não alcançam a anatomia das dores crônicas que a sociedade sente na dimensão cotidiana. Estratificando os índices de desaprovação, encontramos mais.

Os homens, por exemplo, mais atentos aos problemas de Segurança Pública, se mostram menos satisfeitos com a ação do governo: 63% deles, contra 45% de mulheres (18% de diferença), estão mais desapontados.

A boa pergunta é: a violência nas ruas aumentou? A resposta é Não. Mas a hipertrofia do crime organizado assusta, como poder paralelo cada vez mais presente: comanda territórios, participa de licitações públicas e elege diretamente representantes no comando dos orçamentos públicos.

Outro recorte das pesquisas que causa estresse no terceiro andar do Palácio do Planalto, o coração do governo, é o que se estratifica por faixa etária. São os jovens os mais insatisfeitos com Lula: 73% entre 16 e 24 anos e 62% entre 25 e 34 anos – indicativo de que a vida adulta se mostra um ambiente adverso para o desenvolvimento das suas potencialidades.

A boa pergunta agora é: Por que isso importa tanto? Porque o governo representa forças políticas que se sustentam sobre um discurso reformista, que alimenta, ou deveria alimentar, anseios progressistas, mas que agora não alcança aqueles que são a parte da sociedade mais receptiva a mudanças: a juventude.

É como se o coração tivesse mudado de lado: para a juventude, o verbo Mudar está sendo conjugado com mais impulsão do outro lado da linha, na direita e no delírio de sua simulação “anti sistema”. E a esquerda, que sempre teve uma relação umbilical com a juventude – sua inspiração era o futuro – agora são percebidos como os velhinhos moderados que defendem as melhores tradições da democracia liberal.

Por fim, outro recorte agravante é de base religiosa e remete a uma clara reação conservadora, de preservação de valores que se concentram na noção nuclear da família, no campo dos costumes: um exército mobilizável de 85% dos evangélicos desaprovam o governo Lula (são razoáveis 45%, entre os católicos).

Enquanto o talibã identitário coloca uma deputada trans no comando da comissão parlamentar dos direitos das mulheres, a reação vem da periferia pobre, justamente o setor que o governo mais se preocupa em atender com sua rede de programas de proteção social. Antes que venha o linchamento moral, apresso em dizer que não há dúvida, a meu ver, quanto ao direito líquido da indicação da parlamentar, mas como “passarinho que come pedra deve saber o c* que tem”, não reclamem depois do tipo de resposta que ampla camada da população der nas urnas aquela medida, de resto desnecessária.

Quem não concordar, não precisa se incomodar com a aparência covarde dessa ponderação: continue distribuindo suas latinhas de famílias em conserva na porta dos templos evangélicos das periferias urbanas.

Detivemo-nos neste artigo ao recorte de um determinado aspecto das pesquisas – onde estão os contrariados e seus porquês – mas há nos seus números, tanto quanto nas perspectivas objetivas da disputa, bons motivos também para o lulismo continuar confiante em sua capacidade de reabilitação. O jogo está só começando.

Ricardo Alcântara é escritor, publicitário, profissional do marketing político e articulista do Focus.

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