
Bom senso, ideias e política
Consideração inicial
Antes de tudo, aqui faço um diálogo com o texto da filosofa e colunista e articulista do Focus, Catarina Rochamonte. Tenho consciência das minhas limitações não só filosóficas, mas de humanidades em geral. Como a autora em certo ponto nos lembra, a filosofia deve ser “entendida como esforço contínuo de autoconhecimento e de conhecimento, entendida como um projeto interminável de aprimoramento intelectual e moral”. Assim como ela, ainda me considero “um caso em progresso” e, em muitos sentidos, um ignaro. Feita essa ressalva e sabendo que me falta muito (minha única certeza com meus atuais 21 anos é de saber muito pouco), comento alguns dos pontos levantados pela colega.
É fato, o futuro do Brasil depende de um acréscimo de bom senso. Na coluna da semana passada, comentei a querela pública entre dois grandes divulgadores de ideias nos EUA do século passado, Gore Vidal e William F. Buckley Jr. Naqueles dez encontros específicos, havia um respeito mútuo que só fora quebrado no final. Uma ruptura pelo comportamento inadequado do Buckley Jr. levou a uma posterior sequência de confrontos midiáticos não tão polidos, mas ainda assim de qualidade superior aos de hoje em dia. Terminei com um tom pessimista – afinal, sou pessimista – lembrando que parece haver uma onda de imbecilidade envolvendo não só nosso país, mas também os EUA.
Como eu gosto de cultivar desgraça, lembro também a ascensão de discursos irracionais, ao menos, na Alemanha (o partido AfD nutre-se de uma raiva, não de todo desmedida, ao islamismo), na França (os Le Pen que, diferente dos conservadores à brasileira e à americana, cultuam um espirito anticlerical, antirreligioso, mas muito tradicionalista), na Hungria (Viktor Orbán usa do estado para suprimir quaisquer polos opositores no campo das ideias, perseguindo o compatriota e bilionário Georges Soros), na Turquia (Recep Erdoğan não é nada menos do que um autoritário) etc. Não vou nem comentar sobre países sem o mínimo de democracia, como a Venezuela e Coreia do Norte. Não existe democracia sem liberdade. E sem liberdade, tudo tem uma aura orwelliana por definição.
Divergindo do foco da colunista, não quero falar do indivíduo em seu Sapere aude, mas do homem público e suas ideias.
História do ativismo, ou que tipo de mudança queria Marx?
A liberdade preterida pelos iluministas franceses e alemães é uma faca de dois gumes. Funciona, na maior parte dos casos, para o individuo, mas não para a sociedade (atenção nessa palavra). No já citado pela filosofa Catarina Rochamonte Was ist Aufklärung? (O que é Iluminismo/Esclarecimento?), Immanuel Kant (1724-1804) define, na minha tradução livre, o Iluminismo como “a saída do homem de sua autoinflingida (selbstverschuldeten) imaturidade”. “Imaturidade”, continua Kant, “é a incapacidade de pensar sem ser conduzido pelo outro”. Interpretando: o Iluminismo é individual por definição, ele é a chave para a saída do individuo de uma condição inferior. Esse foco no indivíduo não é peculiaridade do Iluminismo alemão, mas tem uma força própria nele. Novalis, um pensador e poeta do final do século XVIII, chegou a formular que “o conhecimento tem que crescer de maneira orgânica dentro da pessoa”. (Momento do marketing pessoal: clicando aqui você encontrará traduções que fiz de Novalis)
Os alemães, seguindo a lógica kantiana, divergiam em muitos pontos. Esmiuçar cada um deles seria exaustivo e eu nem saberia fazê-lo. Só vou comentar sobre a generalização de que Kant, nas leituras tradicionais, dava ao indivíduo dotado de razão a capacidade de chegar em um patamar superior. A racionalidade daria aos homens, eventualmente, a resposta certa para as perguntas diversas. Vamos dar a essa capacidade de chegar em um patamar superior por meio da razão o nome de Idealismo. (Desculpem pelo didatismo, leitores filósofos. E perdão em avanço pelos próximos passos, se eles forem muito simplistas.)
Antes de tudo, dizer que se entende Hegel é tolice. Quando eu falar que Hegel quis dizer isso ou aquilo, não levem como verdade absoluta. Autores tanto à direita quanto à esquerda pegaram as ideias de Hegel e transformaram-nas em uma mixórdia hermenêutica bizarra. Temos, portanto, e grosso modo, hegelianos de esquerda e de direita. Um dos hegelianos de esquerda foi o já citado pela colunista Ludwig Feurbach (1804-1872), autor de A essência do Cristianismo (1841).
Quando eu estava estudando Marx pela primeira vez, tive a impressão de que Feurbach era um alvo de discórdia profunda do autor, principalmente porque uma das frases mais incisivas de Marx era contra Feurbach: “os filósofos não fizeram nada mais que interpretar o mundo de forma diferente; trata-se porém de modificá-lo”. Justiça seja feita, Marx era um grande escritor e daria um grande publicitário. Precisamos investigar, entretanto, o que significava “interpretar o mundo de forma diferente” para os que vieram antes de Marx.
Feurbach não era um idealista. Era um materialista. Apesar do título, A essência do Cristianismo não é um ensaio teológico. A tese de Feurbach era bem radical. Ele colocou tanto a filosofia quanto a teologia no balaio da alienação, no pior sentido da palavra. O materialismo feurbachiano queria abolir a filosofia, porque esta seria mera teoria divorciada das necessidades concretas dos homens. Para o materialismo de Feurbach, todo pensamento estava preso à realidade e ao mundo dos homens. Era, portanto, antropologia (conhecimento sobre os homens).
Moses Hess (1812-1875) era outro hegeliano de esquerda. Diferente de Feurbach, ele era mais messiânico: queria converter a filosofia em revolução. Foi Hess quem converteu Friedrich Engels (1825-1895) ao comunismo. Para ele, comunismo era “a lei do amor”, o que deixava Marx furioso. Apesar disso, foi dele que Marx pegou a ideia de uma terceira alienação, nem filosófica nem teológica, mas econômica.
Não fazia sentido para Marx pensar em filosofia desvinculada de sua tese principal, a luta de classes. Quando ele diz que é preciso modificar o mundo, ele não está falando de ativismo pelo ativismo, mas de uma maneira de fazer a filosofia existir. Explico, citando José Guilherme Merquior:
“Marx acentuava que, se a filosofia não podia ser alcançada sem transcender o proletariado (i.e., sem abolir a sociedade de classes), o proletariado tampouco podia transcender-se sem alcançar a filosofia. ‘A teoria’, escreveu Marx, ‘tornar-se-á força material assim que se apoderar das massas’”. (Pág. 62 do Marxismo Ocidental; grifos meus.)
Portanto, ao menos dois pontos foram tirados de Feurbach e de Hess: o materialismo da crítica feurbachiana e o cumprimento da filosofia através da revolução social e no papel filosófico e humanístico destinado ao proletariado alemão. Em marxismo, não se fala, portanto, em indivíduos. Tampouco em filosofia no sentido iluminista.
E qual a importância de uma corrente filosófica como a marxista para a política real? Bem, antes, vou falar sobre a origem dos partidos políticos e sua necessidade em contextos diferentes.
Sobre os partidos políticos
Diferentemente dos alemães, os franceses não foram tão afeitos à ideia do indivíduo puro e simples. A revolução francesa, liderada pela classe ascendente da burguesia, formulou o conceito de partidos políticos. Simone Weil (1909-1943) escreveu um ensaio chamado “Pela supressão dos partidos políticos” no qual ela expõe algumas inquietações sobre o tema.
Ela retoma ideias do iluminista Rousseau sobre o bem e a justiça. Em resumo: racionalmente qualquer individuo sabe e sente o bom e, dessa forma, consegue agir de maneira justa. O problema dos partidos políticos, segundo Weil, é que eles nasceram do totalitarismo exercido pelos jacobinos a partir de 1789.
Na lógica do individual, incomodar a verdade e a justiça não traz a priori consequência alguma. Agora, ir contra os preceitos abstratos da vontade do partido pode destruir a vida do membro (ou não-membro), seja fisicamente pela guilhotina, seja socialmente, por demissões e afins.
Voltando antes da Revolução Francesa, Weil lembra a fé inquestionável de São Tomás à Igreja Católica e a critica pelos mesmos motivos. A falta de individualismo em prol da vontade e do conhecimento de uma instituição qualquer é o alvo da ira da Weil. Lembremos do “livrar-se da imaturidade” do iluminismo kantiano.
Transitando entre uma racionalista e uma empirista, Weil critica veementemente a falta de divergências internas (leia-se, pensamento próprio) entre os membros de um partido e a hipocrisia necessária para ser filiado. “Falar pelo partido” ou “falar como monarquista, socialista, comunista, liberal etc.” é sempre abdicar do bem e da verdade, porque é abdicar de si. Nada mais distante dos preceitos do esclarecimento.
Não estamos diante da lógica individual, mas coletiva. Todavia, retomo um ponto levantado lá em cima: o iluminismo funciona, na maior parte dos casos, para o individuo, mas não para a sociedade (reitero a atenção nessa palavra). Para Weil, a supressão dos partidos políticos seria uma vantagem à sociedade. Não vejo dessa maneira.
Quando Edmund Burke (1729-1797), o pai do conservadorismo britânico, expõe suas ressalvas à Revolução Francesa ele não o faz na posição apenas de pensador, mas de político. Como bem lembra Catarina Rochamonte, “a primeira linhagem [de Whigs] nos legou a noção de um ordenamento espontâneo da sociedade cujo progresso dava-se lentamente sustentado em tradições, costumes e hábitos estabelecidos pelos resultados não antecipáveis dos agentes individuais”. Tal qual Simone Weil, Burke também tinha dúvidas quanto ao estabelecimento de partidos políticos. Mas diferentemente dela, ele via como uma tradição e uma geração espontânea a junção de pessoas em prol de um ideal, mesmo que esse ideal seja a manutenção da sociedade gradualmente, pois consciente das próprias limitações impostas pela condição humana. Por que não chamar essa junção de pessoas de partido político? Foi exatamente isso que os conservadores britânicos fizeram.
Marxistas e conservadores
Com o que estamos lidando quando colocamos essas duas categorias em contraposto? Bem, em resumo, ideias. A filosofia por trás do marxismo e da máxima “transformar o mundo” pressupõe a supressão de toda uma classe social, o que, como mostra a história, sempre leva a uma ação à la jacobines. A junção em partidos políticos pelos marxistas tem como objetivo trazer à tona a filosofia, que está velada pelos vícios da burguesia.
Por outro lado, ao se juntarem politicamente, os conservadores têm a máxima burkeniana de serem responsáveis não só por manter as tradições, mas pelas “pessoas do passado, do presente e as que ainda estão por vir”. Nesse sentido futuro, cabe lembrar a frase atribuída ao compositor Gustav Mahler: “A tradição não é o culto das cinzas, mas a transmissão do fogo”. Fico pensando o que os conservadores tradicionais recomendariam sobre a questão ambiental. Por exemplo, em oposição ao irracional negacionismo de mudanças climáticas por parte dos reacionários americanos e brasileiros, jovens da nova direita europeia cultivam hábitos ecofriendly.
Só um breve detalhe, não uso conservador no mesmo sentido que reacionário. Por conservador, tomo a definição da primeira linhagem de liberais da Catarina Rochamonte, a saber,
“[…] a noção de um ordenamento espontâneo da sociedade cujo progresso dava-se lentamente sustentado em tradições, costumes e hábitos estabelecidos pelos resultados não antecipáveis dos agentes individuais. Legou-nos também um sentido restrito e bem definido de liberdade: uma pessoa livre não está sujeita à coerção arbitrária; além disso, estabeleceu claramente a relação dessa liberdade com o império da lei e suscitou o debate acerca do poder da razão para estabelecer as regras morais e sociais.”
Seguindo “As ideias conservadoras: explicadas a revolucionários e reacionários”, do cientista político João Pereira Coutinho, eu acrescentaria nessa definição uma palavra fundamental: ceticismo. Diferente do marxista, que tem uma filosofia para alcançar o fim da história – poder-se-ia ler esse fim como “salvação” pelo comunismo –, ou dos liberistas, que têm a máxima da defesa do livre comércio como redentora, os conservadores clássicos não se atrevem a dar sentido fechado algum ao mundo, nem pregam uma direção preestabelecida (leia-se, ideológica).
Pragmatismo
Quando os dois grupos se juntam entre si, entram em jogo suas visões de mundo. Cada qual com sua crença devidamente estabelecida por meio de uma razão. Mesmo que para um haja um foco na tradição e para o outro só possa haver pensamento filosófico na subtração da sociedade de classes, quando discutem, e quando estão bem-intencionados, cada qual usa de uma linguagem racional para chegar à consensos. Mas temos que lembrar que, para o bem ou para o mal, homens políticos não são filósofos, no sentido grego. As discussões não podem ser nada além de profissionais.
A pragmática política exige dos envolvidos um grau de seriedade exatamente igual a de um ofício. Isso cria o famigerado político profissional. Nos melhores casos, esses políticos não discutem ideias. Ao contrário, tomam-nas como pressupostos para divergências. E trabalhando com essas divergências, tentam chegar a algum lugar nas políticas públicas. Como bem aponta a colunista, o povo não se deve incorrer no erro de personificar suas ideologias, sejam elas de esquerda ou direita, formando heróis e vilões. Se não deve ser feita tal diferenciação pelo povo, tampouco o político pode se permitir tal equívoco.
Claro que as considerações pragmáticas só valem dentro de um congresso. A lógica não é a mesma em período de eleições. Como me apontou um leitor da minha última coluna, as personalidades políticas não têm a obrigação de discutir racionalmente ideias quando estão pleiteando um cargo. Pedir coerência e passividade dos candidatos é ignorar a realidade do jogo eleitoral, no qual cada qual procura ganhar custe o que custar. Tendo isso em vista, o que eu queria ter apontado anteriormente é que a animosidade na sociedade civil, decorrente de exageros políticos, quando atrapalha as discussões racionais, é nociva a porteriori das eleições. Vivemos numa época, entretanto, que a animosidade se estendeu para o campo da Realpolitik, tanto nas nossas relações internas quanto externas. Isso não é nenhuma particularidade do momento presente, mas uma representação de falhas institucionais (das regras do jogo), coxeadas do sistema político enfraquecido.
Quando são levadas a sério pautas como a exterminação de “inimigos”, como ocorre em sistemas totalitários diversos, ou a existência material de produtos da imaginação (teorias da conspiração lideradas por essa ou aquela pessoa), temos a obrigação de revisitar nossas ideias, a origem delas e a contraposição. E não só repensar as nossas, como sociedade civil, mas reforçar aos políticos eleitos que revejam as suas próprias ideias.
O momento é sim de estudo, como diz a colunista, mas também de sair em pedido de cautela.
Nossos partidos não seguem a lógica britânica de reflexão, mas a francesa de engajamento e pensamento único e estrutural. (Os partidos do centrão, entretanto, são hors-concours por especificidades do sistema do presidencialismo de coalizão). Entendo que é um tanto ingênuo pedir uma mudança de estruturas tão definidas, mas elas já estão acontecendo. Infelizmente, para pior.
Ignoram-se discussões racionais por questões infantis à esquerda e à direita. Existem debates essenciais que não estão sendo feitos à luz do dia por obscurantistas orgulhosos de sê-lo, ou de ideologias, liberais e socialistas. Não estou falando para darmos as mãos e dançarmos ciranda. Posso ser materialista, mas de hedonismo tenho muito pouco. O que me apeteceria nesse momento é tão somente um grau de governabilidade mais elevado, necessário para passar políticas públicas de qualidade (nem falo de qualquer uma em específico) e de coalizão, um termo injustamente impopular nesse momento.
Além disso, o sistema democrático nunca abriu espaço à aplicação em larga escala de qualquer corrente ideológica. Não se pode falar em hegemonia do campo das ideias na população em geral. Tal pressuposto vai contra os dados empíricos, ao menos no Brasil.
De acordo com gráficos modernos feitos pelos pesquisadores André Borges e Robert Vidigal, a maior parte (variando entre 45 e 55 por cento) da população não tem qualquer afinidade ideológica definida. O que poderíamos conjecturar é uma afinidade ideológica nas Supremas Cortes, como fez a colunista. Mas até aí teríamos dados contrastantes. A melhor explicação para o ativismo do STF, e esse é o meu ponto de maior discordância com a Catarina, é mais a configuração dada à corte pela Constituição de 88 e uma sobreposição forçada do poder judiciário sobre os outros poderes. Minha resposta seria mais técnica-jurídica do que ética-moral das decisões dos ministros. Mas, no final do dia, é apenas minha opinião.
Considerações finais
Não se deve questionar demais a racionalidade, nem os princípios básicos do Iluminismo. Nisso, concordo integralmente com a colunista. O que quis apontar é o sentido volátil das ideias como motivadoras do homem. Pela razão, ao menos em um primeiro momento, marxistas, liberais e conservadores chegaram a soluções diversas para resolver os problemas do mundo. Espero ter mostrado apenas que todas tiveram suas origens em um destrinchar complexo e não-tão-caótico no plano das ideias. Negar uma ou outra linha de pensamento por conta de inimizades quaisquer é apenas humano, mas não é sensato ignorar a gênese delas. E, afinal, qual delas está correta? Não faço ideia.
As ideias motivam pessoas políticas. Algumas ideias têm complexidade racional maior, outras menores, às vezes iguais, e podem levar para o mesmo ou para caminhos diferentes. No final do dia, me parece, são opiniões. Me interessa saber: 1. Como se manifestam no mundo real?; 2. Como as pessoas as defendem?
Talvez o objetivo final desse breve ensaio foi adicionar uma ideia de Keynes a Kant. O sapere aude (“tenha coragem de usar seu próprio intelecto”) me lembrou de uma frase de Keynes: O estudo da história da opinião é um passo preliminar à emancipação da mente.
A moral da história? Quanto mais ousarmos saber sobre o saber, mais livres seremos. Ou, sendo mais pessimista, “a diferença entre ilusão e verdade repousa nas suas funções na vida de cada um”, como disse Novalis.







