
Em entrevista ao Valor Econômico, o deputado federal José Guimarães (PT-CE), líder do governo Lula na Câmara e vice-presidente nacional do PT, fez um diagnóstico cru e direto sobre os limites políticos do governo no Congresso, o futuro da agenda de segurança pública, as prioridades eleitorais do partido e o papel de Fernando Haddad nas eleições de 2026.
A seguir, o Focus Poder destaca, ponto a ponto, os principais trechos da conversa e apresenta uma leitura analítica do que está em jogo nos bastidores de Brasília, entre recuos estratégicos, disputas de poder e a reconfiguração do projeto lulista para a próxima eleição.
1 PEC da Segurança Pública: derrota antecipada
O que Guimarães disse
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A PEC da Segurança “subiu no telhado”.
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Não deve ser votada antes das eleições.
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O relatório de Mendonça Filho (União-PE) é considerado inaceitável para o governo.
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Segurança pública é um campo onde a direita costuma prevalecer pelo discurso e pela desinformação.
Leitura política
Na prática, o governo reconhece que perdeu o controle da narrativa em segurança pública. Em ano eleitoral, ninguém do centro quer ficar colado a uma pauta em que o bolsonarismo domina o discurso emocional. A PEC virou um risco político, não um ativo.
Nas entrelinhas da fala do líder, há uma admissão:
O governo desistiu da sua principal bandeira institucional na área de segurança.
2 Ministério da Segurança: ideia enterrada por enquanto
O que ele disse
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Defende a criação de um Ministério da Segurança Pública.
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Mas só depois da aprovação da PEC.
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Como a PEC não deve passar, a reforma também não sai.
Leitura
Isso confirma que a saída de Lewandowski deixa, por enquanto, um vazio estratégico. O PT queria reorganizar a política de segurança, mas sem PEC não há base legal nem política para isso.
Resultado:
O governo ficará sem reforma estrutural da segurança até 2027. Não é bom para a esquerda, principalmente nos estados da Região Nordeste, base e massa lulista que sofre com problemas na segurança pública.
3 Relação com Hugo Motta: trégua, não aliança
O que disse
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As feridas “estão cicatrizando”.
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Houve erro na escolha de relatores em projetos sensíveis. “matérias polêmicas precisam ser relatadas, na minha opinião, por gente que consiga fazer a síntese dessa realidade, nem só para um lado, nem só para o outro”.
Leitura
Guimarães admite que o Governo não manteve o controle do processo legislativo em pautas estratégicas. O Centrão reagiu, impôs relatores hostis, e o governo teve de recuar.
“Cicatrizou” significa:
O conflito foi congelado, não resolvido.
4 Escala 6×1 vira eixo da campanha
O que ele diz
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A redução da jornada é prioridade do semestre.
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Pode virar bandeira da campanha de Lula.
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Não implica corte de salário.
Leitura
O PT escolheu uma pauta de mobilização popular para substituir a segurança pública. O fim do 6×1 funciona como:
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Mensagem direta à classe trabalhadora
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Símbolo de “novo pacto social”
É uma jogada inteligente e bem no estilo da esquerda: “A redução da escala 6×1 é um tema estratégico porque responde a uma nova realidade do mundo do trabalho”, disse. Então:
Trocar a pauta da ordem (segurança) pela pauta da justiça social (trabalho).
5 Congresso hostil: confissão rara
O que ele disse
“É dolorosa a realidade aqui dentro. Chega a ser dilacerante.”
Leitura
É uma constatação rara do ponto de vista político:
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Não controla a Câmara
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Não controla o Senado
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Vive refém do Centrão
Por isso a meta prioritária para este ano:
Eleger senadores e deputados em 2026.
6 Estratégia eleitoral do PT
Prioridades declaradas
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Reeleger Lula
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Eleger senadores
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Eleger deputados
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Governadores ficam em segundo plano
Leitura
O PT entendeu algo que não entendeu em 2018: “O PT vai se dedicar a cumprir a sua missão mais grandiosa dos últimos tempos: alterar a correlação de forças na Câmara e no Senado”. Ou seja:
Sem Senado e Câmara, o presidente vira refém ou é sabotado.
Isso explica o foco brutal em 90 deputados federais.
7 Haddad virou peça de campanha
O que Guimarães disse
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Haddad não pode “ir para casa”.
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Deve ser candidato em SP.
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Pode ser ao governo ou ao Senado.
Leitura
O PT precisa de:
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Um nome forte em São Paulo
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Um palanque para Lula
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Um puxador de votos
Haddad virou um ativo eleitoral, não apenas ministro.
8 Visão econômica do PT: ruptura explícita com o “fiscalismo”
O que Guimarães disse
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Déficit não é problema.
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EUA são muito mais endividados.
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Países ricos são endividados.
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O Brasil pode se endividar para reduzir desigualdade.
Leitura
Isso mostra que o PT:
Continuará desconsiderando o discurso e a prática da austeridade sem mexer nas bases que dustentam a política econômica do Brasil desde o Plano Real.
O Haddad virou um ministro político, não um fiscalista.
9 Nordeste e Ceará: o cofre eleitoral
O que ele disse
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Nordeste continua sendo “o paraíso”.
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No Ceará, Lula teria 50 pontos sobre Flávio Bolsonaro.
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Elmano tem 70% de aprovação.
Leitura
O PT vê o Nordeste como:
A muralha eleitoral contra o bolsonarismo.
Mesmo com erosão, ainda é a base de sustentação do projeto Lula.
10 Bolsonarismo: menos forte, ainda perigoso
O que ele disse
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Bolsonaro ainda manda.
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Tarcísio dificilmente será candidato.
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A família Bolsonaro não abrirá mão.
Leitura
O PT aposta que:
O bolsonarismo entrará dividido, mas não morto.
Por isso o discurso de humildade e alerta.
10 Conclusão política
A entrevista de Guimarães é uma radiografia honesta do governo Lula III:
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Perdeu a agenda da segurança
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Não controla o Congresso
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Vai apostar tudo em:
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Trabalho
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Renda
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Mobilização social
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Nordeste
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Senado em 2026
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