
Por Ricardo Alcântara*
Post Convidado
O acaso me levou a conviver diariamente, mas por poucos meses, com o carnavalesco Joãozinho Trinta, figura maravilhosa. Anos antes, ele havia provocado furor ao entrar no Sambódromo – construído para cores e brilhos esfuziantes – arrastando uma legião de mendigos. Substituiu plumas e paetês por panos em farrapos. A ousadia causou, como se diz agora, não só pelo fato em si, mas, também, porque partira do mais radical adepto do glamour carnavalesco, que um dia se justificou afirmando que “pobre gosta de luxo e quem gosta de pobreza é intelectual.”
Ali, a pobreza não foi instrumentalizada pelo desejo de realizar uma denúncia específica, o que também seria legítimo, mas esteticamente pobre. Não. Havia maior complexidade. Sobre o ocorrido, um dia me disse ele: “Eu não queria fazer revolução p*rra nenhuma. Só queria mostrar que eles podem nos tomar quase tudo, menos a nossa capacidade de ser feliz. E é por isso que ainda acredito no Brasil”. Grande João!
A lembrança do nosso convívio no hospital Sarah Kubitscheck, em Brasília, veio com as notícias de que uma escola de samba carioca fizera de seu desfile um recurso de denúncia contra os escravocratas residuais da sociedade brasileira. A Tuiuti vestiu seus foliões com carteiras de trabalho para defender a CLT, uma anciã que já prestou bons serviços ao país, mas que até pouco tempo se mantinha viva ligada por aparelhos. Aparelhos sindicais, no caso.
Alheia a seus protestos, a realidade logo tratou de colocar a própria escola do lado dos denunciados: havia pouca gente com carteira assinada entre as centenas que trabalharam duramente para que ela pudesse ir para as ruas protestar contra aquilo que passou o ano inteiro praticando: sobreviver à custa do trabalho informal.
Não assisto desfiles de carnaval, mas soube que foi bem sucedida, a Tuiuti, saindo da jornada como vice-campeã após ter contado a história do Brasil pulando aquela parte incômoda em que o maior partido de esquerda da história latino-americana abandonou seus valores na entrada da avenida e desfilou, ao ritmo da velha batucada “escravocrata”, na companhia dos piores aliados até alcançar a Praça da Apoteose instalada num presídio de Brasília chamado Papuda.
Por que somente agora escolhera uma temática política para seu desfile? Questionado, o carnavalesco da escola cometeu sincericídio, enforcando-se em suas palavras às vistas de repórteres e fotógrafos: confessou que, antes aliada dos governos lulistas, não poderia incomodá-lo com narrativas que pudessem comprometer a prosódia dos amigos. Bem, não é novidade ver a História contada de acordo com as conveniências do narrador. A novidade é que a falsificação, agora, não parte daqueles que a contavam na perspectiva dos interesses dos senhores da casa grande – sua capatazia esclarecida – mas vocalizada por quem instituiu a si mesmo a condição de genuína voz das senzalas.
Ora, escravizar a verdade nunca libertou ninguém.
*Ricardo Alcântara é escritor e publicitário e filiado à Rede Sustentabilidade.







