
Por Catarina Rochamonte
Articulista Focus.jor
O problema da doutrinação escolar não se limita à perseguição ideológica e à ausência de cumprimento de preceitos básicos da docência, mas passa também pela inclusão nas pautas escolares de temas totalmente desprovidos de significado ético no sentido mais alto do termo. Quando se tenta ministrar um curso ou uma aula fazendo-se tabula rasa dos conhecimentos morais prévios do aluno para ali, naquele espaço escolar, tentar incutir na cabeça do jovem uma aventura ideológica e social fantasiada pela mente embevecida do professor que se julga instância máxima de saber e poder, então temos, de fato, um conflito de interesses. De um lado o professor que quer doutrinar e de outro o aluno que tem o direito de conhecer.
O jovem, ainda cativo, ainda em processo de maturação moral e ética encontra-se vulnerável ao influxo constante de ideias, sendo louvável qualquer projeto que vise a arejar a mente do educando de modo a fazer dele algo além de um depositário de teses materialistas vulgarizadas pela mídia e abraçadas pelas vertentes políticas que veem nelas uma brecha para a promoção de sua visão de mundo anticristã e negativista. No intuito de promover a agenda ideológica do momento, todos os meios culturais à disposição são utilizados: desde o teatro até a sala de aula.
Os antigos tinham da educação uma ideia nobre, uma ideia de formação moral e espiritual abrangente, capaz de elevar o indivíduo de uma dimensão mais pragmática a uma dimensão mais ética e racionalmente fundamentada. Hoje, perdido o elo entre o interesse educativo formador e o que nos foi legado pela tradição, oferece-se ao estudante não apenas um consenso acadêmico partidário de esquerda – como, às vezes, por comodidade, costumamos falar – mas um consenso baseado no niilismo e no imoralismo, na tergiversação constante em relação a princípios e leis, o que, por ora, de acordo com a óptica adotada, aproxima-se mais da postura política que se intitula progressista.
O desmonte da retórica dos que querem se afirmar como pedagogos, sem conterem em seus programas o mínimo necessário da substância intelectual acumulada ao longo de séculos da nossa civilização, pressupõe a audácia e a altivez de alguns. Audaciosos hoje são os que falam em nome de Deus quando Nietzsche já o declarou morto; destemidos são os que se afirmam cristãos quando Marx já disse que a religião é o ópio do povo; ousados são os que confrontam a ditadura do politicamente correto por saberem que o correto está além da política e além da linguagem daqueles que querem substituir a real e saudável discussão em sala de aula por um manual revolucionário qualquer – mesmo que esse manual tenha sido escrito por um intelectual consagrado ao qual alguns incautos acharam por bem chamar de filósofo.
A filosofia se opõe de modo radical à ideologia e as ideologias que se fazem passar por ela merecem nosso descaso. Se estivéssemos preparados para uma educação humana solidamente fundada não precisaríamos de práticas restritivas à atividade docente, mesmo que tais restrições, como as que são elencadas pelo cartaz elaborado pelo Escola Sem Partido, sejam apenas um apelo à decência, ao bom senso e ao cumprimento do dever do professor e do respeito à Constituição. Não podemos, porém, fechar os olhos à realidade e a realidade nos mostra que o sistema educacional brasileiro é falho, obtuso, centralizador, ideológico e doutrinário, além de revolucionário e transgressor.
Mas transgressão e revolução se fazem dentro de si. Que cada um conteste internamente as convenções morais e sociais que lhe desagradam ou corroborem dentro de si as leis e regras que lhe parecem boas. Que caiba, porém, ao Estado postular e impor uma visão de mundo, incutindo-a sub-repticiamente nos currículos escolares, nos projetos de lei e no Exame Nacional do Ensino Médio, isso não devemos admitir, principalmente se essa visão de mundo que se busca forçar entra em choque com aquilo que temos de caro e valoroso: nossos sentimentos morais.
É claro que o tempo necessário para criar um ambiente escolar menos profuso em ideologias é muito longo; não obstante, o trabalho de cada um de nós que resiste, que denuncia, que limita a atuação dos sofistas da pior espécie travestidos de professores é um trabalho importante que deve ser incentivado, porque a docência, se levada com seriedade, jamais trairá o princípio de liberdade.
O que está acontecendo não apenas no Brasil, mas no mundo com o surgimento de projetos de viés conservador como o Escola Sem Partido ou como o “Con Mis Hijos No Te Metas” (Peru) é uma tentativa de restaurar determinados padrões éticos e estéticos solapados por aberrações doutrinárias como a ideologia de gênero, que proliferaram como se se tratasse aí de pensamento ético e transformador quando na verdade não passa de servilismo acadêmico ao corporativismo de um séquito de ideólogos que hoje, depois de décadas e décadas no conforto e no luxo de suas divagações teóricas promovidas pelas benesses do Estado, encontra finalmente certa resistência que aponta a sua contradição.
Não pensamos, portanto, que faz sentido rotular uma denúncia por parte do aluno de atitude contrária e contrastante com o ambiente de estudos e de disseminação de ideias que deve ser a escola e a universidade, porque aquilo que se denuncia não é a postura X ou Y em torno de um determinado tema, mas o proselitismo abusivo e demagógico que faz da sala de aula um palanque.
Por mais que nos sintamos corretos em um ponto específico de determinado assunto conflitivo do ponto de vista ético, não nos cabe incutir nosso posicionamento em nossos alunos, mas estimulá-los ao exercício reflexivo por meio da exposição honesta e idônea de variadas perspectivas em torno do tema em pauta. Se isso não for possível, que o professor ao menos se posicione sem pressão, sem discursos inflamados, sem odiosas perseguições difamatórias aos docentes e discentes que ousaram divergir de suas teorias.
Não se combate, de fato, a doutrinação com mais doutrinação, mas se combate a pressão psicológica a que professores submetem seus alunos com as próprias leis já existentes, que o Escola Sem Partido visa apenas enfatizar.
Somos contrários ao controle excessivo do que se pode ou não se pode dizer em sala de aula, mas somos favoráveis ao justo cumprimento do papel social de cada um, o que, por consequência, nos faz contrários ao uso da atividade intelectual docente como instrumento de manipulação de consciências para fins políticos.
Desde sempre a filosofia, a educação, o espaço universitário e o próprio estudo particular de cada um favoreceu o amadurecimento pessoal, servindo de defesa contra as posturas agressivas de tentativas de cerceamento da liberdade de consciência e da liberdade de expressão. O que ocorre no momento atual, quando o espaço do saber é questionado juridicamente pela forma como alguns professores acharam por bem nele se exprimir e dele fazer uso, não é, de forma alguma, uma traição ao papel tradicional da educação como propulsora da liberdade de pensamento, de autonomia e de crítica, mas é, pelo contrário, uma tentativa de reafirmar esse papel tradicional que se viu relegado pelo outro objetivo menos nobre de reconfigurar e remodelar o comportamento de novas gerações, reestruturando a sociedade por meio da manipulação do psiquismo das crianças e adolescentes.
O jovem que resiste hoje ao totalitarismo psicopedagógico é aquele que será capaz de dinamizar e impulsionar esse país para os cumes da sua grandeza econômica, ética e política. Sem uma educação nova, desprovida de ranços ideológicos abusivos, continuaremos servis e sem o criticismo necessário para compreendermos que a crítica social desprovida de substância moral profunda é um abismo aberto aos pés de uma juventude perdida e sem rumo.







