Eudoro: A louvação do que deve ser louvado; Por Ricardo Alcântara

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Eudoro Santana na posse como presidente do PSB no Ceará: o retorno à antiga casa.

Meus quatro ou cinco leitores eventuais talvez se surpreendam com este artigo, assinado por quem tanto se esforça em analisar os fatos políticos com a isenção possível e independência em relação a outros interesses, senão o de fazer uma leitura o mais próximo da realidade que consigo perceber.

O poema de Bertold Brecht (marxista alemão que viveu em Berlim sob os horrores do Nazismo), todos conhecem: fala do homem que luta por algum tempo e é bom, e de outros, que lutam sempre, e sobre estes o bardo bávaro alertou: “São os imprescindíveis”.

Pois neste sábado pude confirmar uma reverência que me acompanha desde jovem a um “imprescindível” que, agora com 87 anos, ainda mostra energia e dá provas de ser mestre no “realismo esperançoso” que Ariano Suassuna receitava. Falo do engenheiro e ex-deputado Eudoro Santana, conduzido no sábado, numa celebração cívica, à presidência estadual do Partido Socialista Brasileiro.

Conheci Eudoro quando ele era, como meu pai, Vasco Weyne, membro do primeiro escalão do governo reformista de Tasso Jereissati, eleito em 1986. Dali saíram na mesma fase e pelos mesmos motivos para, logo depois, compartilharem com outro dissidente, Ariosto Holanda, a luta para construir uma alternativa consistente de esquerda no Ceará – eles, no PSB; meu velho, no PCB.

Sua resistência sertaneja, forjada ao pé da grande chapada, emociona a quem dele se aproxima: contam – cito para ilustrar, apenas – que no ano passado, apesar da idade, injetava entusiasmo na rapaziada de mobilização da campanha de seu filho Camilo ao senado e de Elmano de Freitas a governador, quando chegava no comitê cedo da manhã – barba feita, camisa passada – e, como se fora apenas um militante a mais, passava horas dobrando material de propaganda e fazendo pacotes deles com fita e tesoura para distribuição nos municípios. Não o fazia à toa, como traço pitoresco: Eudoro sabe que a palavra reúne, mas só o exemplo conduz.

Reparem só. Seu filho Camilo foi governador por oito anos. Durante o período, não circulavam rumores, mesmo nos bastidores mais informados, de que Eudoro estaria se valendo de sua condição para exercer pressões, obter privilégios ou mover qualquer gesto em que circunstancialmente pudesse se impor pela condição extra oficial de pai do governador – coisas nas quais este Brasil é pródigo, mas que, a respeito dele, não há testemunho algum que demonstre escasso espírito público.

Agora, ao vê-lo ali naquele encontro, cercado de jovens lideranças e velhos companheiros, ainda envolvido com a luta democrática e contra as desigualdades sociais (causas de uma vida toda), com retinas umedecidas eu apenas pedia a Deus que me desse uma vida igualmente longa e mantenha minhas esperanças, como ele mantém as dele, imunes ao assalto amargo das decepções.

Uma palavra o define: exemplo.

Ricardo Alcântara é publicitário, escritor e colaborador do Focus.

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