Hora de colocar uma lupa sobre quem quer ser a lupa

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Por Fábio Campos
fabiocampos@focuspoder.com.br

Com prazer, reproduzo a seguir o artigo assinado por Eduardo Afonso no Estadão. O autor foca em um ponto: quem checa os checadores? Pois é. É uma variação de outra questão muito usada na crônica política: quem controla os controladores? No texto, Afonso questiona principalmente o papel das agências checadoras de notícias. A ideia das agências até que é boa, não fosse elas cativadas por uma ideologia.

Vejam o texto de Eduardo Afonso.

Quem checa a checagem?

Hoje se tem mais acesso à informação do que em qualquer outro momento da História. Mas ainda há quem acredite em lendas urbanas, como “criado-mudo”, “meia-tigela”, “doméstica”, “fazer nas coxas” etc. exprimirem conceitos racistas. E não porque alguma avó, refém de dogmas ancestrais (“manga com leite mata; masturbação não mata, mas causa espinha”), insista nessas crendices.
São jornais respeitáveis, instituições públicas e (pasme!) agências de checagem de fatos que se encarregam de lhes dar publicidade, ano após ano, alheios às evidências em contrário.O nome disso é “etimologia freestyle”: expressões seculares agraciadas com origens novinhas em folha e conotações estapafúrdias —tudo para atender a uma demanda ideológica.
Que um militante queira dar feição de fato às ficções que engendra, vá lá — faz parte do jogo sujo da desinformação. Mas que a Defensoria Pública da Bahia, formadores de opinião (como Luciano Huck) e agências que se dedicam a combater notícias falsas (como a Lupa) se prestem a esse papel, é um desserviço e tanto. O resultado é que pesquisas na internet acabam levando a essas “fontes” equivocadas, e a coisa se espalha, ganhando verniz de autenticidade.
O professor Sérgio Nogueira explicou, no G1, em julho de 2014, que “meia-tigela” remonta à época da monarquia portuguesa. “Ao povo da corte (criados, pajens, oficiais) que não morava no palácio servia-se comida observando as rações previstas no ‘Livro da Cozinha del Rei’. O manual estipulava a porção de cada um de acordo com a importância do serviço que prestava. E assim alguns ganhavam tigela inteira; outros, meia tigela.”Para descobrir que “doméstica” não tem relação com racismo, bastava consultar um dicionário etimológico (qualquer um).
Para se dar conta de que “fazer nas coxas” e “criado-mudo” não têm nada a ver com telhas e gente de boca fechada, de plantão ao lado da cama, era só se aconselhar com o bom senso. E para “mulata”, ouvir Chico (Quero tua cor mulata / A tua verde mata / Os teus mares azuis), Caetano (Os olhos verdes da mulata / A cabeleira esconde atrás da verde mata / O luar do sertão) ou Milton (com Pedro Tierra e D. Pedro Casaldáliga: Maria mulata / Maria daquela colônia-favela que foi Nazaré).
Quatro dias e centenas de tuítes indignados depois, a agência Lupa fez um “meia culpa” (“mea-culpa” meia-boca, sem efetivamente se desculpar). Os termos teriam “origem imprecisa e até mesmo controversa”, seriam “rejeitados pelos movimentos negros por ser considerados ofensivos” e insistiu na tese defendida pelo Notícia Preta (jornal antirracista, seu copiloto nessa derrapada): “Se aquilo fere um determinado grupo de pessoas, aquilo tem que ser banido do vocabulário”.Não, não tem. Cala a boca já morreu (ainda que os negros tenham tido sua voz calada, a expressão não é racista: é apenas antiautoritária).
Há que debater e, principalmente, combater o racismo real, não esse imaginário. E lembrar que, se a agência tivesse checado os fatos, teria se poupado da perda de credibilidade (que será explorada pelos espalhadores contumazes de notícias falsas).Ainda bem que há leitores críticos, de prontidão, para checar as checagens.

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