"Jair, o breve?", por Ricardo Alcântara

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Um homem passa a maior parte de sua vida adulta como deputado federal de um estado grande e, em nenhum momento, ocupa cargo na mesa diretora da câmara ou preside uma comissão técnica. Foi sequer relator de algum projeto. Não brilha na tribuna e apresentou uma única proposta, rejeitada. Jamais foi protagonista em qualquer articulação. Quem acreditou que um político com esse perfil poderia ser bem sucedido na presidência da república colocou a esperança acima da própria experiência.
As limitações são, no caso de Bolsonaro, cognitivas e, no limite, refletem um quadro psicológico alterado. Não me estenderei em exemplificações para comprovar sua incapacidade; o mal que tem feito ao país e a si mesmo é revelado agora pela pesquisa de opinião Atlas/El País: em poucos meses, a aprovação do governo caiu 10% e sua reprovação subiu 14% (saldo negativo de 24%) – fenômeno inédito nos mandatos presidenciais anteriores.
Seu erro maior é governar exclusivamente para os eleitores que nele votaram no primeiro turno, desprezando as expectativas – mais amplas, exigentes e moderadas – dos que a eles se juntaram no turno final somente para evitar o retorno ao poder de duas dezenas de políticos investigados por um repertório diversificado de ilicitudes envolvendo grandes somas de recursos púbicos.
Ao povoar seu ministério com radicais de extrema-direita e demonstrar pouco apreço pelo pragmatismo moderado dos setores militar e liberal do governo, ele se fixa numa fidelidade a si mesmo que ultrapassa aquela linha de racionalidade que recomenda considerar as circunstâncias em que atuam suas crenças e desejos.
Domingo, as manifestações convocadas em seu apoio darão a real medida de sua liderança: irão reunir gente com o perfil Bolsonaro raiz. Não haverá apoio ostensivo do empresariado, nem dos grupos liberais (MBL e outros). Sequer o presidente do PSL, partido de Bolsonaro, será visto lá. O objetivo é pressionar moralmente as instituições republicanas a quedar-se às suas exigências no mesmo instante em que, paradoxalmente, um filho do líder evocado é investigado em caso de envolvimento com o crime organizado – as milícias, abrigo de ex-policiais expulsos da corporação e dedicados a extorsão, tráfico de armas e execuções sumárias. Sério isso.
Não se sabe por quanto tempo mais Jair Bolsonaro estará à frente do governo. Não é certo, sequer, de que suporte, ele mesmo, pois a frustração é mútua: se a cada dia menos gente acredita no seu êxito, é também evidente o desapontamento dele com o tamanho real do cargo que ocupa. Tomado por um sentimento paranoico de que mesmo alguns de seus auxiliares que dão expediente no Palácio conspiram contra ele, o que fará? Pois muitos em Brasília também já se perguntam: o que faremos com ele?
Ricardo Alcântara, escritor e publicitário

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