Maílson da Nóbrega: o Brasil precisa de um partido de esquerda moderno

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“O Brasil não está condenado à pobreza por falta de potencial, mas por escolhas políticas. E enquanto o debate continuar preso ao populismo fiscal e à resistência a reformas, o país seguirá adiando a chance de virar uma nação rica”, resume Maílson da Nóbrega.

 

Aos 83 anos, o economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega voltou ao centro do debate econômico nacional com o lançamento do livro “O Brasil ainda pode ser um país rico?” (Matrix Editora). Na obra, ele sustenta que o país não permanece pobre por falta de recursos ou de potencial produtivo, mas por carregar um conjunto de amarras políticas, institucionais e fiscais que travam o crescimento há décadas. Em entrevistas recentes, Maílson afirmou que o PT é “uma das causas” que ajudam a explicar por que o Brasil não consegue se tornar uma nação próspera, ao insistir, segundo ele, em uma visão econômica ultrapassada e resistente a refoA crítica não se limita ao governo atual. Para o economista, o PT representa uma corrente de pensamento que mantém desconfiança estrutural em relação ao mercado, privilegia o Estado como motor quase exclusivo do desenvolvimento e tende a tratar reformas pró-competitividade como concessões ao “neoliberalismo”. Na avaliação de Maílson, esse padrão ideológico se traduz em escolhas concretas: expansão recorrente do gasto público como ferramenta de estímulo, resistência à modernização administrativa e pouca disposição para enfrentar o problema central do país, que é a produtividade estagnada.

Nascido na Paraíba, em Cruz do Espírito Santo, Maílson tem uma trajetória pessoal frequentemente citada como exemplo de ascensão social. Filho de um alfaiate, trabalhou ainda criança como descastanhador de caju e vendedor ambulante, antes de construir carreira técnica. Entrou no setor público e se consolidou como um dos principais quadros da área econômica brasileira ao longo do século XX, atuando em órgãos ligados ao planejamento fiscal e ao funcionamento do Estado.

Sua projeção nacional se deu dentro do próprio Ministério da Fazenda, onde ocupou cargos de alto nível até chegar ao comando da pasta no fim do governo Sarney. Como ministro da Fazenda entre 1988 e 1990, enfrentou um dos períodos mais críticos da história econômica recente, marcado por hiperinflação, instabilidade monetária e desorganização fiscal. Após deixar o governo, Maílson ampliou sua atuação internacional e trabalhou em Londres, como executivo do Eurobraz (European Brazilian Bank), experiência que reforçou seu trânsito no mercado financeiro e sua visão comparada sobre o Brasil. No retorno ao país, tornou-se sócio da Tendências Consultoria Integrada, uma das consultorias mais influentes do Brasil, e passou a atuar também como conselheiro de grandes empresas.

No meio empresarial, acumulou participação em conselhos e boards de companhias relevantes, incluindo grupos como Cosan, Grendene, Banco Pine e TIM Participações, o que contribuiu para consolidar sua reputação como um economista respeitado tanto pela experiência no Estado quanto pela leitura prática do setor privado.

No livro, Maílson defende que o Brasil se aproxima de uma armadilha: um Estado que arrecada muito, gasta muito e investe pouco. Ele afirma que o PT, embora tenha capital político e base social ampla, não enfrenta o problema estrutural das contas públicas. Ao contrário, tenderia a reforçar uma cultura de expansão de despesas obrigatórias, criação de programas permanentes e resistência a medidas de ajuste, mantendo o país preso ao ciclo de desconfiança fiscal, juros altos e crédito caro.

Na visão de Maílson, a esquerda europeia evoluiu e aceitou combinar economia de mercado com políticas sociais robustas, enquanto o PT permaneceria preso a uma lógica de confronto, tratando responsabilidade fiscal como sinônimo de retirada de direitos. Para ele, isso impede consensos mínimos sobre reformas essenciais, como a administrativa e o redesenho do orçamento público.

O economista lista nove entraves centrais que impedem o Brasil de enriquecer: baixa qualidade da educação, rigidez orçamentária criada pela Constituição de 1988, excesso de vinculações de receitas, crescimento das despesas obrigatórias, desequilíbrio fiscal crônico, resistência a reformas estruturais, insegurança jurídica, baixa poupança e investimento insuficiente e o alto custo do capital, com juros elevados e crédito restrito.

Para Maílson, a combinação desses fatores cria um país que se mantém em “marcha lenta”: arrecada muito, mas investe pouco; distribui renda sem elevar produtividade; preserva privilégios corporativos enquanto a maioria enfrenta serviços públicos precários; e perde competitividade internacional. Ele sustenta que o Brasil ainda pode ser rico, mas somente se abandonar o improviso fiscal e enfrentar reformas profundas — um caminho que, em sua leitura, esbarra justamente na cultura política e econômica que o PT simboliza e reforça.

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