
O TEMOR À FALA
O presidente não enganou ninguém quando disse que combateria o “ativismo”, termo que aplica com sentido excludente para a prática de participação dos segmentos organizados da sociedade na vida nacional. Já começou a fazer o estrago: dissolveu todos os conselhos sociais que as margens da lei lhe permitiam.
O ato não significa “calar a sociedade”, como o discurso simplificador da oposição mais radical reclama genericamente, porque a composição deles não reflete, como um espelho fiel, o pensamento médio dessa sociedade, mas seus agentes mais esclarecidos nos mais diversos setores.
Contudo, silencia, sim, sua vocalização mais orgânica e o argumento que (des)ampara a decisão é inconsistente, como já habitual nos nichos do governo que se postam sob influência excessiva de critérios ideológicos a pretexto de combater, paradoxalmente, a “influência das ideologias”.
No caso, se trataria “de devolver ao governo suas atribuições, conquistadas com legitimidade pelo voto”. Bobagem, quando é assim, tão larga, resvala na desonestidade intelectual: aos conselhos nunca coube governar. Eram instâncias consultivas, com pouca capacidade deliberativa, restrito poder de encaminhamento: não julgam, não legislam, nem decretam.
Bem, a questão substantiva comporta uma pergunta: eram necessários? O tempo dirá que sim. Representam, nas democracias modernas, uma atenuação efetiva dos interesses unilaterais, de pressão dominante, em favor do interesse comum quando trazem à luz o que resulta, referencialmente, da experiência direta dos diversos agentes sociais envolvidos, e nem sempre de modo consensual, no trato com as questões que chegam às pautas de suas discussões.
A motivação de fundo para a dissolução deles é que, nas áreas sociais de governança, eram majoritariamente definidos por um corte humanista, avesso ao ideário do presidente. E, é fato: nos governos do lulismo, a permeabilidade de sua base política permitiu que alguns deles impusessem linhas de atuação que não representavam o pensamento médio de uma sociedade que, goste a esquerda ou não, contém amplas parcelas de uma população de perfil conservador, ainda que moderado.
Contudo, o presidente deveria ter enfrentado as contradições inegáveis deste modelo, hoje consagrado no Ocidente, no território que, pressentindo a fragilidade de suas posições, decidiu ele mesmo implodir: os conselhos consultivos e de representação. A decisão nos faz um país menos democrático: ignorar diferenças não é a maneira mais inteligente de superá-las.
Mas talvez a legião do olavismo tome meus argumentos como típicos sintomas decadentes de uma civilização contaminada pelo vírus do “marxismo cultural”. Mal sabem eles que minha frase favorita de Karl Marx é, exatamente, “eu não sou marxista”.







