Médico João Flávio Nogueira analisa descoberta de tratamento da Covid-19: “Corticóides! Sempre eles”.

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João Flávio Nogueira é médico (CRM-CE 9344, RQE 4114), formado na UFC, com residência médica em otorrinolaringologia em São Paulo. Fellowship na Penn University – Philadelphia Membro da Academia Americana de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço Professor convidado do Massachusetts Eye and Ear Infirmary – Harvard affiliate.

Sou médico otorrinolaringologista em Fortaleza. E nossa especialidade, até pela característica de atender síndromes gripais e de estarmos muito próximos (no exame físico dos pacientes) das regiões mais procuradas pelo SARS-CoV-2 nos nossos corpos (nariz e garganta), foi uma das primeiras a identificar e, infelizmente, a sofrer com baixas de colegas de especialidade na China, Europa, EUA e até aqui no Brasil.

Na otorrinolaringologia, aprendemos desde cedo a usar e respeitar os corticoides, nossos principais aliados e verdadeiros “cavalos de batalha” na luta contra inflamações no nariz, ouvidos e garganta. Esses medicamentos são geralmente baratos, facilmente disponíveis hoje em dia, mas ainda “sofrem” com um preconceito de muitos, médicos inclusive, por puro desconhecimento.

Pessoas têm “medo” dos efeitos colaterais dessas medicações: “vou engordar”, “vou ter problemas nos olhos”, “vou ficar viciado” e outros comentários são frases constantemente ouvidas quando, responsavelmente, tentamos prescrever essas medicações àqueles que as necessitam.

Somos a especialidade que mais prescreve corticoides no mundo e, talvez, justamente por isso nós, otorrinos, já “mudamos” o mundo por, pelo menos, 3 vezes. Estivemos sempre presentes em episódios marcantes e históricos que modificaram o jeito e como vivemos até hoje.

Como, além da medicina, sou um apaixonado por história, vamos nessa viagem: o primeiro desses episódios (mais recentes) foi o acontecido com o primeiro presidente dos EUA, George Washington. Diferentemente de outros líderes e até do “status-quo” da época, ele garantiu o presidencialismo (e não uma monarquia) na nação da América do Norte, recém liberta do Império Britânico. Esse presidencialismo estável, desde 1776, sem golpes e impeachments consumados, apenas com uma renúncia (Richard Nixon, em 1974), se deu muito graças às atitudes iniciais e “fraquezas” de saúde do general americano.

Washington foi presidente entre os anos de 1789 até 1797, por 8 anos, ou dois termos. E, mesmo podendo fazer como outros líderes de período similar da história, como Napoleão Bonaparte, mais novo que Washington, mas que usurpou o poder para si quando teve oportunidade, se autoproclamando imperador da França em 1804, Washington, que poderia ter feito algo semelhante, resolveu sair naturalmente da presidência, deixando vaga para uma sucessão pacífica e ordeira, assumindo seu vice, eleito democraticamente, John Adams.

Mas uma das razões “não contadas” dessa sucessão pacífica é que George Washington, nessa época, tinha saúde frágil, afligido por crises frequentes de amigdalites (inflamações na garganta) que, num mundo sem antibióticos e corticoides, deixava o tratamento e, principalmente, as complicações dessa doença quase como sentenças de morte.

E foi justamente uma complicação de amigdalite que matou o primeiro presidente dos EUA, em 1799. Foram realizadas sangrias com sanguessugas pelo otorrino de Washington (tratamento utilizado à época), mas o ex-presidente acabou falecendo em sua propriedade em Mont Vernon, perto da cidade construída que hoje leva o nome do general, capital dos EUA.

Talvez, num mundo com corticóides e antibióticos a história teria sido diferente, não sabemos se para melhor ou pior.

Pois bem, a segunda vez que nossa especialidade e os corticoides (ou a falta deles) mudaram a história foi no episódio estopim da I Guerra Mundial, a “Grande Guerra”, confronto que mudou estratégias de batalhas, armamentos, e levou o mundo ao que o historiador Eric Hobsbawm definiu no fantástico “A Era dos Extremos”, como “o curto Século XX” – 1914 (com a I Guerra) até 1991 (com a queda da URSS).

Todos aprendemos que o estopim desse confronto se deu pelo assassinato em Sarajevo do arquiduque da Áustria-Hungria Francisco Ferdinando, em 28 de junho de 1914. Ferdinando era mais explosivo e conhecido por não ser um bom negociador. E a própria atitude de mandar não o imperador, mas o herdeiro do trono, pode ter enfurecido os nacionalistas locais que queriam uma conversa com Francisco I para que pudessem expor seus problemas. Mas poucas pessoas sabem o porquê do Arqueduque (e herdeiro do trono) ter ido a Bósnia e não o próprio Imperador.

Ele (Ferdinando) foi nessa “missão” porque o então Imperador Áustro-Húngaro, Francisco I, tio de Ferdinando e que não tinha herdeiros vivos, estava doente e não poderia participar de eventos e viagens oficiais, formalmente contra-indicados por seu otorrino imperial, o Prof. Adam Politzer.

E qual era a doença de Francisco I?

Francisco I, casado com a icônica imperatriz Sissi, que tinha (ela) uma “doença pulmonar” intratável, era (ele) um portador de rinossinusite crônica, ou uma inflamação nos seios da face, e nesse período, de junho de 1914, estava em uma daquelas crises muito “fortes”, com dores de cabeça excruciantes.

Num mundo sem corticoides e antibióticos, o tratamento era baseado em dolorosas drenagens e lavagens nasais com duchas, conhecidas como duchas de Politzer. E isso o impossibilitou de ir ao evento na Bósnia.

Talvez num mundo com corticoides, ele tivesse usado as medicações, melhorado do quadro clínico e tivesse ido até Sarajevo. Com a figura do próprio Imperador presente talvez os nacionalistas tivessem se sentido mais prestigiados e esse confronto, depois com proporções mundiais, fosse evitado.

E o terceiro episódio foi justamente durante a II Guerra Mundial, conflito “filho” da I Guerra. O presidente norte-americano era Franklin Delano Roosevelt, que tinha poliomielite e também rinossinusite crônica.

De início os EUA se mantiveram isolados do confronto “europeu”, mas com o ataque japonês em 07 de dezembro de 1941 à base naval de Pearl Harbor, no Hawaii, os EUA foram compelidos ao confronto.

Poucos sabem que quem declarou guerra ao Império do Japão e, por consequência, ao “Eixo” foi o próprio Presidente dos EUA, e não um general comandante do exército ou marinha americanas. Isso não era comum e Roosevelt, pessoalmente, solicitou autorização rapidamente ao Congresso daquele país em sessão histórica e gravada no icônico discurso: “sete de dezembro de 1941, o dia que vai permanecer na infâmia”.

Mas menos pessoas ainda sabem que o presidente americano estava, justamente no dia 07 de dezembro de 1941, com uma crise igualmente ferrenha de sinusite. Na manhã do dia 07 de dezembro, Roosevelt procurou seu otorrino se queixando de sintomas muito fortes de sinusite: dores de cabeça, obstrução nasal, etc. O otorrino, então, fez o tratamento que se fazia à época: cocaína tópica, ou seja, cocaína em pó colocada diretamente no nariz de Roosevelt. Isso mesmo, cocaína já foi uma medicação muito usada pelos otorrinos para o tratamento das rinossinusites.

Pouco tempo depois Roosevelt, provavelmente ainda sob o efeito da droga, recebeu a notícia e intempestivamente (característica não comum a FDR, que era conhecido justamente por sua prudência) foi logo se avexando em declarar guerra contra os japoneses.

Talvez não tivesse ainda sob influência de cocaína, e talvez se tivesse usado corticoides, ele (Roosevelt) tivesse sido mais prudente e avaliado melhor a situação antes de levar os EUA ao maior confronto militar de sua história.

Todos esses 3 episódios mudaram o mundo. E hoje, 16 de junho de 2020, na maior pandemia desse século e numa das crises sanitárias mais importantes da história recente da humanidade, o que já se fazia na prática se materializou com um dos “braços” do estudo britânico “Recovery”, um dos maiores e mais importantes que pesquisa justamente potenciais medicações e tratamentos para a COVID-19.

Um corticoide, sempre ele, pode ser um “game-changer”, ou uma medicação que mudará mais uma vez a história.

Essa medicação, a dexametasona, nesse braço desse estudo randomizado, duplo-cego e controlado, se mostrou extremamente útil em pacientes graves com a COVID-19.

O “velho, bom e barato”, corticóide. E hoje, nesse dia histórico, temos “oficialmente” as primeiras evidências mais robustas e seguras do primeiro tratamento farmacológico realmente eficaz para essas formas mais graves da COVID-19.

Pois bem, esse estudo “Recovery”, capitaneado pela Universidade de Oxford acaba de publicar os resultados preliminares de estudo randomizado com grupo controle que comparou dexametasona x grupo controle com placebo.

E nesses resultados preliminares, uma dose de 6mg de dexametasona por via oral ou por via endovenosa 1x/dia por 10 dias consecutivos mostrou:

1) uma redução de mortalidade (em 28 dias) de 1/3 (33,3%) nos pacientes com COVID-19 em ventilação mecânica;
2) uma redução de mortalidade (em 28 dias) de 1/5 (20%) nos pacientes necessitando de oxigênio e que não estavam em uso de ventilação mecânica;
3) que não houve diferença significativa de mortalidade nos pacientes que não estavam necessitando de oxigênio.

Conclusão prática: todo paciente com COVID-19 hospitalizado em ventilação mecânica e os igualmente internados que necessitem de oxigênio fora da UTI devem receber dexametasona, esse corticoide, por via oral ou endovenosa na dose de 6mg 1x/dia por 10 dias. Isso salva vidas!

Medicação barata, de acesso universal e que está começando a “mudar o jogo” em favor da vida e da humanidade contra essa doença, principalmente para esses pacientes mais graves.

Sabemos até agora que a grande maioria dos pacientes não complicará com a COVID-19, mas naqueles que tiverem o infortúnio dessas complicações, agora temos uma medicação comprovadamente que pode ajudar – e muito!

O que essa doença tem nos ensinado – e ela tem nos ensinado muito – é a capacidade de tentarmos identificar aqueles grupos de pacientes que potencialmente podem complicar e, neles, agir de forma precoce, nos antecipando à doença e estando sempre “um passo à frente” dela e não mais atrás como estávamos há alguns meses.

Dia histórico no tratamento da COVID-19! Dia histórico no uso dos corticoides (leia aqui). E como sempre gosto de falar: vai dar certo, vamos vencer, afinal a humanidade sempre venceu as outras pandemias do passado, sem e, muito mais agora, com os corticoides!

Leia Mais
+Dexametasona reduz mortalidade por Covid-19 e pesquisadores falam que conclusão é “histórica”

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