Mercado, sentimento e ilusões. Por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Fala-se em ditadura do mercado. Quem é o tal mercado? É o conjunto de oportunidades de trocas, o encontro das demandas com as ofertas. É a expressão da sociedade se manifestando conforma se organiza. O reducionismo economicista, como os demais, limita e desvia a compreensão da realidade. Mas a relevância da forma como as pessoas buscam os seus objetivos (demandas), ajustando-os às oportunidades (ofertas) não explica tudo, mas revela aspectos importantes.

Intelectuais atuam no mundo das ideias, conforme Thomas Sowell, (1930 – vivo), na obra “Os intelectuais e a sociedade”. São letrados, peritos ou escribas, segundo Raymond Aron (1905 – 1983), na obra “O ópio dos intelectuais”. A posição do intelectual no mercado de profissões é logo abaixo dos homens públicos de peso, como seus lugares-tenentes; são instrumento de legitimação, mormente com a ascensão maligna do perito (comunicólogos, politólogos e outros), conforme palavras de Carl Wright Mills (1916 – 1962), na obra “A elite do poder”.

O mercado de trabalho dos intelectuais guarda relação com diferentes formas de poder. No Brasil as interações dos intelectuais com a política; o público para quem escreve; editoras e revistas acadêmicas; departamentos de universidades; os seus pares foram abordadas, em parte, por Sérgio Miceli Pessôa de Barros, na obra “Intelectuais e a classe dirigente no Brasil: 1920 – 1945”; Pedro Demo (1941 – vivo), na obra “Intelectuais e vivaldinos”; Edmundo Campos Coelho (1939 – 2001), na obra “Sinecura acadêmica – a ética universitária em questão”; Leandro Augusto Marques Coelho Konder (1936 – 2014), na obra “A derrota da dialética”; Luís Augusto Sarmento Cavalcanti de Gusmão, na obra “O fetichismo do conceito”; Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé (1962 – vivo) e suas publicações e vários outros.

As demandas dos intelectuais, na relação com os seus pares, nos campi das universidades, visam a publicação e venda de livros; publicar em revista acadêmica; financiar pesquisa; ser citado por colegas, segundo Pondé. Escrevem sobre o exótico como se fosse desafiador e original, mas é submissão à tendência hegemônica. Alguns relatam mera coleta de depoimentos como se fosse tese. Citam autores como argumento de autoridade, conforme Demo e Campos, nas universidades que são marcadas pela endogamia.

A subjetividade da seleção dos programas de pós-graduação; o personalismo do orientador nas relações com o orientando; a confusão entre o recente e o inovador; o julgamento da bibliografia pela data de publicação das obras; o credencialismo dos títulos acadêmicos nem sempre correspondentes ao mérito; e a cômoda dialética negativa, que destrói ao modo niilista, como assinala José Guilherme Merquior (1941 – 1991), na obra “Michel Foucault ou niilismo de cátedra”. Emoções substituem a razão e os fatos, conforme Pascal Bernardin (1960 – vivo), na obra “Maquiavel pedagogo” como parte do mercado de teses, vagas nos programas de graduação, financiamento de pesquisa, publicação de artigos em revistas acadêmicas. Não faltam condutas heterodoxas. Vender ilusões, na forma de utopias, facilita tudo isso.

Universidades, porém, são arquipélagos em que cada ilha tem uma cultura institucional diferente. Mercado é apresentado pejorativamente, devendo ter a torpeza dos seus agentes ser controlada. O mercado da política e o mercado intelectual nele contido, pretende exercer tal controle. Políticos e intelectuais colocam-se como vestais, sacerdotisas de Vesta, de pureza imaculada, candidatos a déspotas esclarecidos. Mas não são piores nem melhores que o comum dos mortais. A política é um mercado como qualquer outro, onde habitam os intelectuais engajados.

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