
Por Jacob Henrique Barata de Boms*
A tarifa zero aliviaria o empobrecimento de milhões de brasileiros. De acordo com um estudo feito pelo IBGE, 39,3 milhões dos trabalhadores brasileiros fazem parte do mercado informal e, portanto, não recebem o Vale Transporte (VT). Conforme esse mesmo estudo, cerca de 6,8 milhões de pessoas estavam desempregadas de março a maio de 2025.
Para as pessoas que não recebem VT, o preço da tarifa de ônibus é uma das despesas mais significativas. No mínimo, para trabalhar, alguém teria que pagar duas tarifas por 22 dias do mês, resultando em uma despesa média de R$ 221,57, com base em dados de oito capitais brasileiras (RJ, SP, BH, POA, PE, BA, PR e DF). Esse valor sobe para R$ 599,25 com um uso normal de quatro passagens por dia, necessário para atividades além do trabalho.
Com o uso mínimo, esse gasto representa 17,74% do salário mínimo federal; com o uso normal, chega a 39,48%. Em relação ao salário médio do Brasil, corresponde a 6,5% no uso mínimo e 14,47% no uso normal.
Esses números revelam a magnitude do custo da mobilidade urbana no orçamento das famílias brasileiras. O impacto é ainda maior para trabalhadores informais, que não recebem VT. O alto preço do transporte também representa um risco social e de saúde, pois pode impedir o deslocamento para atendimento médico. Além disso, encarece a busca por emprego, já que entrevistas, cursos e redes de contato exigem deslocamento. Isso reduz a taxa de ocupação e afeta negativamente a economia, criando um ciclo vicioso: quem não consegue pagar o transporte não consegue procurar emprego, e quem não encontra emprego não consegue pagar o transporte.
A tarifa zero surge como uma solução possível para esse problema. Seria viável financiar essa política apenas com a realocação dos recursos hoje destinados ao Vale Transporte. Um estudo do governo federal estima que a tarifa zero custaria R$ 90 bilhões por ano.
Outro estudo do IBGE indica que pelo menos 80% das pessoas com 14 anos ou mais ganham menos que o salário médio. Considerando que o Brasil tem 48,69 milhões de trabalhadores com carteira assinada e assumindo que todos receberiam VT, pode-se estimar que trabalhadores e empresas já gastam cerca de R$ 103,5 bilhões por ano com esse benefício. Ou seja, os recursos para a tarifa zero já existem — bastaria redirecioná-los para um fundo de mobilidade, em vez de repassá-los individualmente como VT.
Experiências internacionais mostram que isso é viável. Na França, por exemplo, existe o programa Versement Mobilité, que obriga empresas com mais de 10 funcionários a pagar uma taxa sobre a folha salarial para financiar o transporte público. Em Paris, essa taxa é de 3,2%. Usando dados da RAIS e do CEMPRE de 2023, ajustados para o crescimento salarial e a inflação de 2025, essa alíquota geraria cerca de R$ 91 bilhões por ano no Brasil — valor suficiente para bancar a tarifa zero.
Os efeitos da gratuidade já são visíveis em cidades que a adotaram. Segundo o site Caos Planejado, Maricá registrou um aumento de 144% no número de passageiros após implementar a tarifa zero. Em São Caetano, o crescimento foi ainda maior: 315%, segundo dados da Mobilidade Estado. Cada nova viagem representa uma nova circulação de pessoas, trabalho e consumo, impulsionando a economia local.
Embora a reorganização do VT seja um desafio político e administrativo, os dados mostram que os recursos já estão no sistema. A tarifa zero beneficiaria toda a população, estimularia o crescimento econômico e se tornaria um dos maiores instrumentos de distribuição de renda do Brasil.







