
Há pouco de novidade e muito de cálculo no artigo de Luiz Eduardo Girão, publicado no jornal O Povo. O ataque ao PT e ao governismo cumpre o roteiro básico de qualquer senador de oposição: elevar o tom, nacionalizar o debate e associar o adversário à crise moral e institucional. Até aí, manual.
O ponto fora da curva está em outro lugar. E é exatamente onde a política de verdade começa.
Ao chamar antigos aliados de “direita fisiológica”, Girão não está apenas criticando práticas. Está tentando redesenhar o campo. Estabelecer diferenças. Em bom português: delimita território e tenta ocupar o espaço simbólico de “direita verdadeira”, moralmente superior e politicamente pura.
Isso tem nome: movimento de diferenciação pré-eleitoral.
Girão não escreve apenas como senador. Escreve como pré-candidato ao Governo do Ceará. E, nesse papel, precisa resolver um problema clássico: como crescer sem se diluir entre nomes que disputam o mesmo eleitorado? A resposta está no texto: criando um adversário, digamos, interno.
A equação é simples:
• PT = inimigo histórico
• Governismo = continuidade rejeitada
• “Direita fisiológica” = adversário a ser deslegitimado dentro de casa
O risco? Altíssimo.
Ao bater na própria direita, Girão assume uma estratégia de purificação ideológica que pode energizar nichos, mas fragmenta o campo que, historicamente, só é competitivo quando atua unido. No Ceará, isso não é detalhe, mas sim condição de sobrevivência eleitoral.
Há também um traço de narrativa pessoal. Girão se apresenta como exceção: o político que economiza, que não negocia, que enfrenta o sistema. É uma construção clássica de outsider, ainda que ele esteja há quase oito anos no coração de Brasília.
Mas política não é apenas identidade. É soma.
E aqui mora o paradoxo: ao tentar monopolizar o selo de “direita legítima”, Girão pode reduzir o tamanho do próprio campo que precisa para vencer. Em outras palavras, quanto mais puro, mais isolado.
No fim, o artigo revela menos sobre o PT e mais sobre 2026.
Girão já entrou na disputa. E escolheu um caminho arriscado: bater no adversário externo… e, ao mesmo tempo, apontar o dedo para o que considera ser uma degenerescência de seus velhos amigos.
Na política, isso pode ser coragem.
Ou pode ser cálculo que cobra caro lá na frente.






