O DNA cearense que veio de longe, por Edmilson Caminha

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Edmilson Sobreira Caminha, professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Autor de Palavra de escritor (1995); Inventário de crônicas (1997); Villaça, um noviço na solidão do mosteiro (1998); Drummond, a lição do poeta (2002); Pedro Nava: em busca do tempo vivido (2003); Machado de Assis: conto de escola e outras histórias curtas — (org.) (2004).

Nos últimos 70 anos, o desenvolvimento científico e tecnológico da genética, que se compara aos progressos da informática e da engenharia espacial, possibilitou feitos só imaginados antes nas histórias de ficção científica.

Mapeados os genes da espécie humana, tomou-se comum dirimir dúvidas quanto a paternidade duvidosa e a investigação policial de crimes que antes se arquivavam como insolúveis. Pode-se, também, rastrear o patrimônio genético de grupos sociais que há milênios se identificavam por caracteres físicos, como a cor da pele, ou por valores culturais e religiosos, a exemplo dos ciganos e dos judeus. Avanço da ciência que desmistificou pressupostos como o da “pureza étnica” e o dos malefícios resultantes dos chamados “cruzamentos raciais”.

À substanciosa bibliografia sobre esses estudos, soma-se, agora, o livro O cearense revelado (Fortaleza: Instituto Myra Eliane, 2020), do jornalista e professor Luís Sergio Santos, cuja repercussão nos meios científicos e acadêmicos expressa o interesse com que foi recebido por pesquisadores, estudantes e leitores de obras do gênero.

O subtítulo – ”uma jornada via DNA desvenda nossa ancestralidade” – já desperta a curiosidade do público, mais ainda se for cearense, orgulhosos que somos do pedaço do Brasil em que tivemos a fortuna de nascer. Desde sempre, quisemos saber das nossas origens, das terras de onde vêm nossas raízes, dos antepassados a quem devemos o destino de correr mundo, a vocação para o comércio, o talento de rir e de fazer rir da própria desgraça…

Já em 1969, o professor, escritor e homem público Parsifal Barroso publicara O Cearense, em que, com a grande cultura e o refinamento intelectual que lhe eram próprios, faz da antropologia, da história e da sociologia matérias de um ensaio primoroso, que se distingue pela riqueza das ideias, pelo apuro do estilo e pela fluidez da linguagem. Não poderia o autor imaginar que, meio século depois, as pesquisas que empreendera em busca da “cearensidade” contariam com o aporte revolucionário da investigação genética e do processamento de dados, como nota o prefaciador Igor Queiroz Barroso: “Acho que realizamos, até aqui, a utopia do meu avô paterno José Parsifal Barroso. Revelamos todo o caldeirão genético, a mistura ancestral e as mutações que formam o cearense”.

A sofisticada pesquisa “GPS-DNA Origins Ceará” foi realizada no laboratório DNA Diagnostics Center (DDC), em Ohio (EUA), com amostras de saliva coletadas no território cearense. Registrada na Anvisa, teve a supervisão técnica do médico brasileiro Evangelista Torquato e do biogeneticista britânico Eran Elhaik, da Universidade de Sheffield (Reino Unido). O resultado surpreendeu: a par dos genes que nos comprovam a ancestralidade indígena e africana, temos, em maior proporção, material genético a que se dá o nome de “Fennoscandia”, característico da… Escandinávia, por incrível que pareça!

Descendemos, pois, os cearenses, dos conquistadores vikings, navegantes lendários, o que talvez explique nossa fascinação pelos “verdes mares bravios” cantados em prosa poética por José de Alencar. Amor pelas ondas que nos fez, também, mestres da construção naval, como inventores da jangada, esse prodígio da engenharia náutica, segundo o navegador Amyr Klink.

Com dezenas de tabelas, mapas e gráficos, a pesquisa que se mostra em O cearense revelado não se quer conclusiva nem mensageira da última palavra na matéria, fonte de discussões e polêmicas. Sobre vários modos de ver e maneiras de sentir, importa saber que somos fruto do sentimento que destina homens e mulheres ao encontro, à confraternização, ao amor, força que se sobrepõe à distância entre os povos, a diferença das línguas, as fronteiras entre os países. Essa, a proposta do livro que deixa abertas as portas da investigação e do conhecimento, como deseja o autor Luís Sérgio Santos: “É certo que novas tecnologias surgirão aplicadas à pesquisa genômica. Essa nova engenharia genética nos trará surpresas inimagináveis e ajudará a reescrever parte relevante de nossa história. A pesquisa genômica não cabe em si. Ela é um infinito contínuo. O livro termina, mas a pesquisa continua.”

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Horas antes da prisão, Vorcaro enviou mensagem a Moraes, que respondeu no modo visualização única

Vorcaro teve prisão decretada em 2020, mas instituições falharam e a porta se abriu para os crimes em série

Apostas bilionárias e suspeitas antecipam ataque dos EUA ao Irã

Café da Serra de Baturité recebe selo nacional de Indicação de Procedência

Freio de arrumação no governismo do Ceará: ambições e a difícil engenharia da chapa de 2026

MP dos datacenters caduca e ameaça planos no Ceará, incluindo planos do projeto de R$ 200 bi no Pecém

Camilo, a missão, o ruído e o desconforto de Elmano

TikTok e Omnia contestam laudo do MPF sobre Datacenter de R$ 200 no Pecém

Do jeito que vai, eleição presidencial vai ser decidida pelo eleitor “nem-nem”

A política de segurança, a lógica do crime e os gigolôs da violência

PPP do Esgoto no Ceará: R$ 7 bilhões para universalizar saneamento em 127 cidades

Genial/Quaest: Lula segue com desaprovação maior que aprovação e perde fôlego entre independentes

MAIS LIDAS DO DIA

TEA e planos de saúde: quando a judicialização revela falhas no modelo assistencial. Por Camilla Góes

STJ autoriza juiz a consultar de ofício dados fiscais para negar gratuidade da justiça

Indústria do Ceará recua 2,5% em janeiro e tem desempenho abaixo da média nacional

Uber lança categoria Elite com carros de luxo e serviço personalizado

Governo revisa projeção de inflação para 3,7% em 2026 após alta do petróleo

PF abre prazo de 15 dias para Eduardo Bolsonaro se defender em processo por abandono de cargo

Imposto de Renda 2026 exigirá declaração de ganhos com bets

Lula discute possibilidade de recolocar Petrobras na distribuição de combustíveis

Estacionamento do Aeroporto de Fortaleza foi assumido pela Estapar, de André Esteves