O foco inusitado no Senado; Por Ricardo Alcântara

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A figura do Senador da República é uma fotografia fora de foco. Os eleitores em geral não compreendem a moldura de sua institucionalidade e sua instância como ente federativo. Pesquisas sobre o assunto, poucas. Mas todas levam à revelação de que a sociedade percebe o senador como uma espécie de “deputado prime”, que se distingue mais pela duração privilegiada de seu mandato do que por suas atribuições próprias, que a sociedade francamente ignora.

Daí, serem frias as disputas para o cargo, desprovidas de qualquer debate mais concentrado em programas de atuação parlamentar. É um tipo híbrido de candidatura: a escolha se dá por critério majoritário, não sujeito a médias ponderadas de legenda, mas sua função, legislativa, não se difere no seu aspecto substancial daquela exercida por um deputado federal, cargo de escolha decidida por critérios de proporcionalidade.

Apesar disso, e de maneira um pouco exótica, que derrapa para o território fácil do anedotário nas redes sociais, no Ceará a eleição para o senado de 2026 já se prenuncia inusitadamente concorrida: são duas, as vagas em disputa, e uma fila com mais de dez nomes mencionados – considerados apenas os sugeridos na base de apoio do governo do estado – como prováveis pretendentes àquele espaço de Brasília que um dos membros mais brilhantes de sua história, o escritor e professor Darcy Ribeiro, definia, em sua fina ironia, como “um meio de chegar ao céu sem precisar morrer”.

Olhado a partir das vidraças bem polidas do gabinete de Elmano de Freitas no Palácio da Abolição, o fenômeno tem lado A e lado B. Por um lado, impõe ao seu grupo o fardo de um processo de escolhas com potencial de risco, pois serão dois indicados à disputa e dez contrariados numa base partidária de apoio ampla o suficiente para lhe assegurar votações tranquilas no plenário da Assembleia Legislativa, mas que depende de um paciente trabalho de acomodação de interesses que frequentemente importa em acolher contradições e esfrangalhar a integridade dos critérios de gestão.

Por outro lado, há nesse animado desfile de ilustres pré-candidatos ao paraíso descrito por Darcy Ribeiro um indicativo vantajoso para a reeleição do atual governador: a disputa precoce para as duas vagas ao senado ocupa os espaços do noticiário e esquece sintomaticamente no freezer a sucessão ao executivo estadual, o que sugere haver, no caso, a compreensão comum de que o caminho para a reeleição de Elmano está relativamente pavimentado, considerando apenas as condições colocadas, ainda muito prematuras.

Sim, porque, até aqui, os ventos que sopram da oposição não erguem ondas boas para surfar com otimismo numa perspectiva de alternância, nem outros balões de ensaios subiram até o momento a ponto de merecer definição como muito prováveis. Enquanto a caravana de pré-candidatos ao senado passa, o governo estadual melhora seus índices de aprovação gradualmente por meses seguidos. Mas essa calmaria tem prazo de validade.

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