
Reflexões sobre clusters marítimos, poder marítimo e as competências necessárias para a economia do mar no século XXI.
Esta semana tive a oportunidade de receber em meu escritório o Almirante de Esquadra Elis Öberg e Jamiro Dias, presidente da Sociedade Amigos da Marinha do Ceará (SOAMAR), para conversar sobre um tema que ainda aparece pouco no debate público brasileiro: os chamados clusters navais ou marítimos.
À primeira vista, a conversa sobre clusters navais pode parecer uma discussão restrita à indústria naval. Mas, na verdade, trata-se de algo bem mais amplo: a forma como países e regiões organizam suas economias em torno do mar.
A ideia de um cluster é relativamente simples. Trata-se de um arranjo institucional que aproxima empresas, universidades, instituições públicas e centros de inovação que atuam em uma mesma cadeia produtiva. Ao compartilhar informações, desafios e oportunidades, esses atores passam a operar de maneira mais coordenada, criando ambientes favoráveis à inovação, ao investimento e ao desenvolvimento de novas competências.
O Almirante Öberg, que teve a oportunidade de participar da criação de dois clusters navais — no Estado do Rio de Janeiro e no Rio Grande do Norte — explicou-me que, quando aplicado ao universo marítimo, esse conceito abrange um conjunto bastante diversificado de atividades. Portos, transporte marítimo, serviços técnicos especializados, indústria naval, pesca, logística internacional, formação profissional e pesquisa científica são apenas algumas das peças que compõem esse mosaico.
Há poucos dias, em Brasília, um novo cluster naval foi criado, desta vez voltado às águas interiores. Conforme noticiado pela imprensa, a iniciativa pretende atuar para destravar a navegação fluvial e modernizar as hidrovias brasileiras.
Durante a conversa, também foi lembrado por ele um conceito clássico do pensamento estratégico marítimo: o chamado poder marítimo, formulado no século XIX pelo historiador e oficial da marinha norte-americana Alfred Thayer Mahan. Para ele, a prosperidade das nações estava fortemente associada à sua capacidade de utilizar os oceanos para promover seus interesses econômicos e estratégicos.
O ponto central de sua análise permanece atual. O poder marítimo não depende apenas de navios ou de portos. Ele resulta de um sistema complexo que envolve infraestrutura, indústria, conhecimento, capital humano e visão estratégica.
Nas últimas décadas, diversos países passaram a estruturar esses sistemas por meio de clusters marítimos, criando ambientes de cooperação entre empresas e instituições que atuam na economia do mar. Mais recentemente, algumas experiências desse tipo também começaram a surgir no Brasil — e o próprio Öberg participou de algumas dessas iniciativas.
Mais do que a criação de uma nova instituição, o que esses movimentos revelam é algo mais profundo: o reconhecimento de que o mar deixou de ser apenas um espaço de circulação e passou a ser um território econômico multifacetado.
Energia offshore, cadeias globais de logística, exploração de recursos marinhos, cabos submarinos que transportam dados digitais e novas fronteiras da biotecnologia oceânica são exemplos de atividades que vêm ampliando o peso econômico do oceano no mundo contemporâneo.
Nesse contexto, iniciativas que aproximam atores de um mesmo ecossistema marítimo acabam tendo um papel importante: ajudam a tornar visível um sistema econômico que muitas vezes existe, mas permanece disperso.
Talvez a principal contribuição de conversas como a que tive com Öberg e Jamiro seja justamente essa: estimular uma nova forma de olhar para o mar — não apenas como paisagem, fronteira ou rota de transporte, mas como um espaço onde diferentes atividades econômicas se encontram e se conectam.
Quando essa percepção surge, novas perguntas passam a fazer sentido: que competências precisamos desenvolver? Que cadeias produtivas podem ganhar escala? Como integrar infraestrutura, conhecimento e inovação?
Essas perguntas dialogam diretamente com o calendário temático que a Câmara Setorial de Economia Azul vem desenvolvendo ao longo de 2026. Se em janeiro nos dedicamos a compreender a taxonomia da economia do mar e em fevereiro discutimos seus setores produtivos, março foi reservado para refletir sobre as chamadas “profissões azuis” — as competências humanas que sustentam esse ecossistema.
Do pescador ao engenheiro naval, do operador portuário ao pesquisador oceanográfico, do profissional de logística marítima ao especialista em energia offshore, a economia do mar é, antes de tudo, uma economia de pessoas e de conhecimento.
Responder a essas perguntas é, em última instância, o que define a capacidade da sociedade cearense de transformar o mar em oportunidade de desenvolvimento.

Romulo Alexandre Soares
Advogado, mestre em negócios internacionais, especialista em direito internacional e do mar e Presidente da Câmara Setorial de Economia Azul – ADECE







