O monopartidarismo discreto IV (ou o suicídio das elites)

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho
rui.martinho@terra.com.br
A história, no sentido de fatos e atos sucedidos, é feita pelas elites (Gaetano Mosca, 1858 – 1941), que assim as distinguia: guerreira, sacerdotal, política, intelectual e econômica. Democracia, para G. Mosca, exige pluralidade de elites em relativo equilíbrio de forças e um mínimo de circulação dos seus integrantes (mobilidade social). O domínio de apenas uma delas resulta em ditaduras. O sistema de freios e contrapesos, com a divisão das funções do Estado entre Legislativo, Executivo e Judiciário, busca o equilíbrio pela contenção recíproca entre eles, como independentes e harmônicos, é uma barreira contra as tiranias. Os poderes de fato, exercidos pelas elites enumeradas por Mosca, também funcionam como um sistema de freios e contrapesos. O domínio de uma delas produz ditadura. O poder político dominou quase que sozinho sob Stalin, Hitler, Pol Pot.
Intelectuais são o segundo violino da orquestra. Serviçais dos poderosos, não chegam a ter poder. Têm apenas prestígio e, a longo prazo, influência. Sacerdotes, com o advento da modernidade, perderam poder e até influência, embora preservem algum prestígio. Apenas os muçulmanos, com os governos teocráticos, exercem poder ou grande influência. Guerreiros (militares), chegam a exercer poder, como no século XX. Hoje continuam integrando as forças de sustentação do poder, porém em lugar secundário. Políticos lideram convencendo e manipulando por todos os meios. Estão sempre no poder. Quando outra elite assume o comando se converte à política, embora com outras práticas.
Sacerdotes praticaram suicídio simbólico. Destruíram o próprio trunfo, uma suposta superioridade moral. Desmoralizam-se quando tornam evidentes as suas falhas humanas e trocaram o campo do sagrado por cogitações seculares. Guerreiros quando assumiram o poder, sem o treinamento dos que convencem e enganam, desgastam-se com o exercício do poder. Intelectuais nunca assumem o poder. Políticos, como Nereu, filho da Terra e do Mar, tornam-se mais fortes cada vez que levam um tombo. Dividem-se, culpando uma de suas facções pelos fracassos, permanecendo como dirigentes por meio de algumas das suas divisões, ou fantasiando-se de outra elite, como intelectuais ou de operários, mas sendo sempre políticos.
A elite econômica não tem tempo para cuidar da política. Apoia ou designa representantes. Não tem tempo de pensar nos problemas do poder. Não compreende que está sendo destruída, deixando-se iludir por sacerdotes, políticos e – principalmente – por intelectuais (em sentido amplo). Os pais dos alunos das escolas da “burguesia”, como dizem os camaradas, doutrinam os filhos da elite econômica contra ela mesma.
Os anunciantes e os donos das empresas de comunicação não se dão conta do aparelhamento delas, ou não compreendem o que isso significa a longo prazo, como efeito da catequese na política. A Globo, por exemplo, é um ninho de revolucionários, que agem nem sempre discretamente, semeando doutrina contrárias à elite econômica, isto é, contra os seus patrões, enquanto os seus companheiros acusam a emissora de persegui-los. Marcelo Freixo, do PSOL, candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, foi derrotado nos bairros populares, mas teve ampla vitória nos bairros “burgueses”. O outro Marcelo, o Crivela, foi hostilizado pela Globo e toda a imprensa havida como inimiga dos revolucionários, mas foi eleito pelo povo que os “esclarecidos” diziam ser manipulado pela “imprensa burguesa”. Assim os socialistas e assemelhados conquistaram a hegemonia ideológica, transformando suas ideias em senso comum.
Os revolucionários, em certa época, diziam: “a burguesia é suicida”. Estariam certos?
Leia também
+O monopartidarismo discreto 
+O monopartidarismo discreto II
+O monopartidarismo discreto III (ou A revanche do sagrado)

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