O papel da Universidade Federal do Ceará, por Pedro Sisnando Leite

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Pedro Sisnando Leite é economista com pós-graduação em desenvolvimento econômico e planejamento regional em Israel. Membro do Instituto do Ceará e da Academia de Ciências Sociais do Ceará. É professor titular (aposentado) do programa de mestrado (CAEN) da UFC, onde foi também Pró-Reitor de Planejamento. No Banco do Nordeste, ocupou o cargo de economista e Chefe da Divisão de Estudos Agrícolas do Escritório Técnico de Estudos Econômicos. No período de 1995-2002, exerceu a função de Secretário de Estado de Desenvolvimento Rural do Ceará. Publicou cerca de 40 livros em sua área de especialização e escreveu muitos artigos para jornais e revistas.

O necessário é manter-se à frente dos acontecimentos,
procurando imprimir-lhes rumo e alternativa.
Nicolau Maquiavel

No momento em que foram definidos os objetivos, políticas e estratégias de ação da Universidade Federal do Ceará para o período 1991-95, o Reitor Antônio de Albuquerque Sousa Filho declarou: “A ênfase neste momento deve ser a de fazer da UFC uma nova Universidade, à frente de seu tempo, como devem ser as instituições de ensino universitário”. O nosso compromisso político, acrescenta no Plano de Ação, deve ser “por uma promoção do homem e do povo cearense e nordestino; pela ação do desenvolvimento científico, tecnológico e cultural.”
Como Pró-Reitor de Planejamento desse reitorado e a equipe de gestores compromissados com o futuro do ensino superior no Ceará estávamos cientes de que a história da universidade em nosso País estava marcada de crises. “E a UFC não poderia, de modo algum, constituir-se em uma exceção”, como bem advertia o magnífico Reitor.
Para conhecer a percepção da comunidade sobre as diretrizes e os rumos futuros da Universidade Federal do Ceará, além dos conhecimentos existentes, foi realizada uma pesquisa de opinião pública junto às diversas categorias profissionais de Fortaleza. A Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura (UFC), através de sua Central de Estudos e Opinião Pública, consultou, por amostragem, professores universitários, estudantes e funcionários da UFC, empresários, bancários, funcionários públicos e sindicalistas, num total de 420 pessoas.
A pesquisa procurou conhecer, entre outros temas, que objetivos a UFC deve cumprir para ajudar o desenvolvimento do Ceará e do País? Mais de 70% dos entrevistados, em média, apontaram, como fundamental, formar profissionais capacitados para a sua profissão, com sentido crítico sobre a realidade nacional. Na mesma percentagem, segue- se a indicação da necessidade de agilizar a estrutura organizacional da instituição visando a sua modernização acadêmica e administrativa para a garantia e acompanhamento do desenvolvimento social, científico e tecnológico.
O segundo assunto investigado foi: Como a UFC poderia realizar a aproximação entre o que ensina e as necessidade profissionais e sociais de interesse da nação? As opiniões predominantes foram quanto à necessidade de promover a integração entre a teoria e a prática, mediante o relacionamento com a empresa, o governo e a sociedade civil. Em segundo lugar, com mais de 70% da opinião dos professores, consideram que é indispensável adequar o ensino às exigências do mercado. A troca de conhecimentos científicos e tecnológicos com as empresas e associações não-governamentais também recebeu destacada referência.
Recursos humanos mais capacitados para o desempenho de uma profissão, melhoria da qualidade do ensino e aumento da credibilidade social, técnica e científica foram os pontos principais e mencionados como resposta à indagação de: “Quais fatores poderão advir da integração da UFC com a sociedade?”
Em contrapartida, a pesquisa procurou saber o que poderia ser levado das empresas públicas e privadas e da experiência do mundo real para a universidade. Os professores, alunos, funcionários da UFC, funcionários públicos, bancários e sindicalistas estão de acordo que a referida cooperação poderia ser na forma de recursos econômicos e materiais, bolsas de estudo, fundo para equipamento, pesquisa e difusão cultural. Outra alternativa apontada foi o intercâmbio de profissionais altamente qualificados no uso da tecnologia para ministrar cursos na Universidade, assim como o oferecimento de cursos explicativos do que são as empresas, suas tecnologias, seus produtos e processos.
Quais as mudanças necessárias para incentivar a participação e compromisso dos segmentos da sociedade na execução dos objetivos da UFC? Muitas sugestões foram assinaladas sobre o assunto, tais como: 1) oferecimento de cursos de capacitação e formação de profissionais que tenham a flexibilidade para adaptar-se às mudanças tecnológicas e administrativas que enfrentam as empresas; 2) reuniões com empresários e professores para a troca de experiência, pontos de vista e necessidades comuns; 3) melhoria no sistema de comunicação das ações realizadas pela instituição para a sociedade.
Finalmente, a pesquisa procurou conhecer dos entrevistados: “Como reestruturar a UFC para torná-la uma universidade nova, com padrões futuristas?” A principal sugestão apontada foi promover o entrosamento da instituição com os centros de pesquisa do Brasil e do exterior, com destaque particular das respostas dos bancários, professores e alunos da UFC. Segue-se, em ordem de importância, a sugestão de participação mais efetiva da UFC na solução dos problemas econômicos, sociais, científicos e tecnológicos do País, assim como a informatização do ensino, pesquisa, extensão e dos setores administrativos. Por último, mais de 50% dos entrevistados recomendam manter o programa de integração universidade/empresa/ comunidade, com predominância desta opinião entre os funcionários públicos, alunos e funcionários da UFC.
Da análise dos resultados dessa pesquisa, muito mais ampla e sugestiva do que o resumo dessas notas oferece, pode-se concluir que o Reitor Antônio de Albuquerque Sousa Filho , e a participação de todos os  colaboradores de sua gestão na  UFC, procurou cumprir  e seguir o caminho certo para o progresso da Universidade Federal, como é do conhecimento da comunidade. Na verdade, posso dizer, como testemunho participativo de todos os momentos dessa história, que o propósito e a determinação da  administração da UFC foi cumprir, além disso, com o seu maior compromisso político, que era: “Por uma nova Universidade mais participativa para a  solução dos problemas econômicos, sociais e políticos do final do século XX e do início do novo milênio,” segundo a vocação preconizado pelo Reitor Emérito  Prof. Antônio Martins Filho de realizar “O Universal pelo Regional”.
Os desafios para os novos gestores da UFC do presente são muitos, mas, para mim como decano, a grande meta deve ser recuperar a identidade e o prestígio da terceira mais importante universidade do País, como era a UFC em 1995. No entanto, para alcançar isso não foi fácil. Trabalho duro, persistência, disciplina e liderança de um Reitor que não temia dificuldades e nos animava a avançar na convicção de que uma boa educação universitária era o motor do desenvolvimento econômico da Região Nordeste e do nosso País.
Como historiador não posso deixar de registrar alguns dos principais professores que faziam parte dessa equipe institucional: Professores  José Valdez Botelho ( vice-reitor- in memoriam); Prof. Gil de Aquino Farias ( pró-reitor de graduação) ;  Prof.a Glauce Socorro Barros Viana (pró-reitora de  Pós-graduação);  Marcondes Rosa  de Sousa (pró-reitor de  Extensão -in memoriam); Ricardo Silva Thé Pontes ( pró-reitor de  administração); Vera Lúcia Mota Kleim ( pró-reitora de assuntos estudantis); e Pedro Sisnando Leite (pró-reitor de planejamento).
Não poderia deixar de registrar o apoio do grande corpo de professores de todas as áreas, funcionários e, especialmente, os estudantes que durante os quatro anos da administração do Prof. Albuquerque nunca adentraram a Reitoria ou qualquer dependência do campus universitário. Há de lembrar que, no dia da posse do Reitor, pessoas mobilizadas por movimentos sociais da periferia de Fortaleza e do MST ocuparam a Concha Acústica do Benfica para prejudicarem a posse do novo Reitor.
Como é da história da UFC, muito foram os conflitos acadêmicos e administrativos ocorridos ao passar do tempo, mas com a tolerância das partes esses ocorridos sempre foram superadas com negociações e renuncias recíprocas. De minha parte, foi muita honrosa e gratificante a homenagem que me foi outorgada, recentemente, pelo Reitor Prof. Henry de Holanda Campos, e o Pró-Reitor de Planejamento, Prof. Almir Bittencourt da Silva, pelos meus serviços prestados a Pró-Reitoria de Planejamento da UFC nos períodos de 1984-1987 e 1991-1995.

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