
Tomo aqui um fato bem recente para exemplificar, apenas porque a oportunidade é emblemática, como é grande o desafio das sociedades em sua necessidade de desenvolver capacidade crítica diante do fenômeno contemporâneo das redes sociais, um amplificador potente do que a civilização tem de melhor e pior.
A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, tem sua origem social na baixa classe média das comunidades periféricas de Brasília, onde as famílias têm meios de contenção mais frágeis diante da realidade potencialmente desagregadora.
Daí que sua família é um manual de maus costumes: a avó é traficante e a mãe estelionatária. Um tio é pedófilo e outro, Miliciano. Tudo devidamente apurado em inquéritos policiais. Um ambiente tóxico.
Diante de tudo isso, cedo ela tomou a decisão que lhe pareceu mais certa ou, talvez, a única que lhe restava: resolveu sobreviver. Fugiu da tempestade. Foi cuidar da própria vida.
Agora, a avó, com quem houvera rompido relações há uns vinte anos, quando era ainda assalariada e solteira, morreu de covid em condições miseráveis e Michelle – é assim que a coisa funciona por lá – tem sido justiçada nas redes sociais por não ter prestado ajuda especial à avó (uma mendiga, lamentavelmente).
É interessante observar: quando alguém com poder trata seus parentes com privilégios, oferecendo a eles os favores dos hospitais privados, é tratado como desonesto. Por outro lado, se permite que seus familiares usem os mesmos serviços públicos de saúde oferecidos a 92% da população, é visto como cruel, ingrato, desalmado!
Nenhum de nós conhece os meandros da intimidade familiar da mulher do presidente para fazer julgamentos implacáveis. E juízes de sofá costumam julgar queridinhos com mais condescendência do que aos odiados, a quem reservam critérios de um rigor que provocaria náuseas a um Talibã.
Ao fim, os que se dedicam a justiçamentos públicos e agora trucidam a mulher do presidente estão falando muito mais de quem realmente são do que propriamente dela, cuja vida privada nenhum de nós conhece coisa alguma. Ninguém é obrigado a aceitar sua família como uma sentença quando a conduta de seus membros o coloca em situações de risco.
Ao casar com o deputado federal de cujo gabinete era funcionária, Michelle Bolsonaro se tornou receptora contumaz de benefícios decorrentes de crimes de peculato associados a lavagem de dinheiro com fortes indícios de conluio com matadores de aluguel das milícias. Em qualquer país sério do mundo – o que, definitivamente, não somos – essa gente já estaria no banco dos réus.
Isso é vida pública! Isso é da minha conta. Porque isso é dinheiro meu, pago com um terço dos meus dias trabalhados. É assunto meu porque afeta as normas que me determinam um padrão de conduta. Se eu, como cidadão, compreendo que a regularidade de seu cumprimento é fundamental para minha segurança, devo exigir providências.
Família? Já tenho a minha para cuidar. E se tivesse que me ocupar com outra, optaria por uma mais fácil porque a da Michelle nem ela conseguiu dar conta. O sapato que me aperta os calos é outro.







