
Por Francisco de Queiróz Maia Júnior
O Brasil é mesmo caso raro. A começar pela sua formação.
Como uma nação pequena (Portugal) conseguiu consolidar um dos maiores países do mundo (Brasil)?
E como o império português resistiu ao assédio de nações colonizadoras importantes como Inglaterra, França e Holanda pelo território e riquezas brasileiras?
A história ainda está se reescrevendo a respeito.
Talvez o fato de ter sido a única nação imperial das Américas explique essa capacidade de manter o País integrado – com vizinhos, de um lado, que falam outro idioma e, de outro, estrangeiros querendo abarcar o território a partir de um vasto e cobiçado litoral.
Mas o Brasil que sobreviveu a tantas ameaças para se manter íntegro do ponto de vista territorial precisa agora enfrentar adversidades que colocam em questão sua unidade do ponto de vista social, político e econômico.
Há uma tensão no ar que leva a pensar em como o Brasil vai se manter coeso. E não há à vista um pacto social possível em curto prazo. Principalmente porque o País carece de perseverança para perseguir um projeto de nação, com estratégias claras em relação a temas sensíveis como Segurança, Saúde e Educação.
A história republicana brasileira tem sido feita de sobressaltos, fatalidades, alternâncias presidenciais forçadas…. E com replicações em estados e municípios por todo o País.
Isso impede a continuidade de projetos, da busca de identidade e de unidade social. Neste momento, o cenário aponta mais para conflitos do que para soluções.
Há dilemas na economia que parecem longe de evoluir para o consenso. A recém aprovada reforma trabalhista já está sendo questionada; e a do sistema previdenciário, parece que entrou em coma.
E a política, que poderia tentar mediar uma solução, está em frangalhos. Os 35 partidos oficiais no País lembram a estória da Torre de Babel. Todos prometem levar aos céus, mas falam uma linguagem inteligível e desprovida de alguma estratégia lógica ou viável.
O retrato mais evidente dessa crise se expressa pela explosão da violência no País. Um problema para o qual os cientistas sociais não têm explicação convincente diante da seguinte questão: se vários milhões de pessoas supostamente saíram da miséria em menos de quinze anos, por que justamente nesse período a violência aumentou nas regiões onde os mais pobres passaram a ter melhor acesso a renda e serviços?
Relacionar a violência à pobreza ou desigualdade social já não faz sentido absoluto. Nações mais pobres e mais desiguais que o Brasil, em continentes diversos, são menos violentas.
E essa questão da violência – embora seja resultado de um País sem rumo do ponto de vista social, econômico ou político -, ao mesmo tempo, realimenta essa sensação de crise iminente.
Nesse ambiente, o crime encontra solo fértil para avançar sobres as instituições que deveriam resguardar a sociedade brasileira. De dentro das penitenciárias partem tentativas de intimidações às autoridades – de norte a sul do Brasil.
E esse clima de tensão permanente, se não devidamente enfrentado, vai trazer um elevado grau de incerteza sobre o futuro e a integridade do Brasil enquanto nação.
A sensação de insegurança tem uma repercussão que perpassa a esfera individual; corrompe as instituições e valores; atenta contra a economia e pode, sim, chegar ao ponto de comprometer o futuro de um País.
Por causa da violência as pessoas mudam hábitos, deixam de sair a ruas, escolhem os horários para circular pela cidade. Também adiam projetos e investimentos. E, pela mesma sensação, grandes empresas deixam de realizar projetos importantes.
Estudo atribuído ao Ipea constatava, há cinco anos, que o Brasil já gastava 5% de toda a sua riqueza (PIB) para combater a criminalidade. Gastos que estão evoluindo, mas ainda sem repostas concretas para conter a onda crescente de violência .
É, portanto, grave, amplo e complexo o problema. Porque a violência corrompe o tecido de qualquer sociedade – historicamente tem sido causa de êxodos, implica na repatriação de famílias, em traumas pessoais irreparáveis.
E o Brasil está trilhando esse caminho perigoso há muito tempo. Pode convulsionar em algum momento. E não se percebe nas lideranças nacionais capacidade para unificar um discurso e planejar ações que assegurem a unidade da nação. Nesse sentido, ao menos, parece que os portugueses foram mais eficientes.







