
No último dia 17 de março faleceu em Belém, aos 75 anos, de complicações cardíacas, o arquiteto paraense Paulo Chaves. Apesar de conterrâneo e colega de profissão, jamais nos encontramos pessoalmente, mesmo sabendo por amigos que acompanhávamos os nossos trabalhos com admiração mútua – especialmente de minha parte.
Como jamais escrevi um texto em homenagem póstuma, ainda mais acerca de alguém com quem jamais tive contato pessoal, explico: sinto-me na obrigação de comentar sobre a diferença que a obra de um grande arquiteto respaldado pela administração pública pode fazer para uma cidade, e, talvez, tentar uma explicação sobre a razão da excelência do trabalho de Paulo Chaves na minha cidade natal, Belém.
Paulo foi secretário de Obras da Prefeitura de Belém durante a gestão de Almir Gabriel, de quem era grande amigo pessoal, e, depois, talvez o único secretário estadual de Cultura a permanecer no cargo por 20 anos, 12 dos quais ininterruptos.
Durante esse período, liderando uma equipe de arquitetos do município, Paulo simplesmente revolucionou Belém com uma obra que destacou o valioso patrimônio histórico da cidade, boa parte do qual oriundo do período de prodigiosa riqueza decorrente do ciclo da borracha.
Obras como o Parque da Residência, as intervenções no Theatro da Paz, o Forte do Presépio, a Estação das Docas, o Museu do Estado, o Museu de Arte Sacra, o complexo Feliz Lusitânia, o Polo Joalheiro São José Liberto, o Mangal das Garças, e muitas outras constituem, de longe, o melhor conjunto arquitetônico de obras públicas desse país. E mais: amante da ópera, Paulo criou a Orquestra Sinfônica e o já tradicional Festival de Ópera do Theatro da Paz, entre outras realizações.
Quantas vezes não me admirei, com meu olhar profissional, com o refinamento e a competência do trabalho de Paulo Chaves e sua equipe! Cito apenas um exemplo: ao visitar pela primeira vez o Polo Joalheiro São José Liberto, construído numa intervenção brilhante sobre um antigo presídio, ao entrar na capela, olho para o teto e reconheço a sequencia de estrelas, na mesma forma, no mesmo dourado e com a mesma cor azul anil de fundo que o genial pintor e arquiteto italiano Giotto usou no teto da Cappella degli Scrovegni, no século XIV, em Pádua, na região do Vêneto, onde está o maior conjunto de afrescos de sua autoria. E mais: descendo os olhos, vejo as poltronas da capela, revestidas em couro na cor de… açaí! Por aí se tem uma ideia do nível do trabalho de Paulo Chaves – e esse trabalho simplesmente mudou a face de Belém e renovou a autoestima de seu cidadão, devolvendo à cidade parte de sua herança perdida e, muitas vezes, enterrada…
Ao constatar o nível da arquitetura pública em Fortaleza, com exemplos recentes como a Nova Beira Mar, o calçadão da Desembargador Moreira, a intervenção na Varjota, o entorno do Dragão, o Aquário e outras mais, é forçoso reconhecer que estamos muito mal na foto.
Não quero aqui comparar as referências culturais ou o patrimônio histórico de Fortaleza com o de Belém, o que seria injusto. Somos uma cidade nova, de origem muito pobre, que conseguiu se impor ao longo do último século pela força do trabalho e pelo engenho mercantil do povo cearense. Porém, isso não justifica o nível cada vez mais baixo dessas intervenções.
O que aconteceu em Belém é o mesmo que ocorreu em Curitiba: um arquiteto de relevância foi elevado a uma posição no organograma decisório de poder. O resto é história. Não se pode pedir que um prefeito seja versado em arquitetura e urbanismo, mas parece claro como água que não há salvação para as cidades que não tenham um órgão de planejamento com arquitetos concursados e qualificados, e sobretudo que permaneçam em sua atividade ao longo dos sucessivos mandatos, mantendo uma linha da intervenção urbana pública através das diversas administrações. Quem sabe essa ideia não ilumine a nova administração de Fortaleza!
E cabe aqui fazer um comentário mais amplo e sem medo sobre a arquitetura, este ofício que se encontra no limite nebuloso entre arte e técnica: a boa arquitetura deve ser memorável, deve ser uma legítima contribuição espacial e cultural para a cidade, sobrevivendo ao tempo e à moda passageira. Assim, não vejo como um grande arquiteto não possa ser senão uma pessoa com sólidas referências culturais, pois o seu trabalho, se qualificado for, deverá superar a marca do tempo e se tornar uma referência a ser preservada pela comunidade.
Tenho dito isso em todas as ocasiões em que fui convidado a falar a estudantes de arquitetura: leiam boa literatura, ouçam boa música, vejam bons filmes, observem, ilustrem-se. Ou isso, ou resta embarcar na marola de obras “ao estilo de Miami” (seja lá o que isso for), ou imitar os pastiches erguidos nos duvidosos parques temáticos de Dubai. Nada tão distante da grande arquitetura.
Por Jaime Leitão, arquiteto.
Veja alguns dos trabalhos mais importantes de Paulo Chaves, em Belém.



















