
Como perdemos coisas, reflito eu, batendo nos bolsos da blusa, da calça, buscando na bolsa algo que não consigo encontrar. Chaves, óculos, documentos, objetos de várias formas, modelos e tamanhos, sumidos em frestas, tragados por gavetas, devorados ao que parece pelo próprio chão doméstico, esquecidos em cadeiras e balcões, caídos em calçadas e passeios – igualzinho ao que acontecia a nossos antepassados. Ou quase igual.
Ao que parece, eram eles mais providos de bens, mais seguros e mais inocentes. “Perdeu-se entre o passeio público e a casa do Major Pereira um alfinete para corrente com pedras de rubi encarnadas”, anunciava um cidadão aflito no Libertador, em 1884, após sentir falta do valioso enfeite.
“Gratifica-se quem tiver achado e quiser restituir uns óculos com armação de ouro e vidros de cristal, perdido na rua Amélia, em frente mais ou menos da casa onde reside o Sr. Antônio Gonçalves Teixeira, na vizinhança do Tribunal”, rogava outro, em 1874, aguardando com olhos míopes o herói que levaria o objeto à rua do Conde D’Eu, 91.
O ilustre magistrado Paulino Nogueira, ex-Presidente do estado, anunciava tenso, em 1886: “Perdi hoje de manhã um anel de ouro com um rubi, de tamanho regular, cercado de brilhantes. Quem o achar e me entregar será bem recompensado”. Qual seria o tamanho regular de um rubi, deve ter-se perguntado boa parte dos leitores.
Em 1895, um leque preto de plumas, com varetas de tartaruga e frisos dourados havia sido perdido no bonde da Estrada de Ferro, ou talvez à porta do Teatro São Luiz, após apresentação da peça O Conde de Monte Cristo. O Dr. Antônio Augusto, médico dos indigentes no Quixadá, que retirara do dedo seu anel de esmeralda e ouro para atender a um paciente, não o encontrara finda a operação. A fina dúvida entre a perda e o furto.
Mais explícito nesse sentido era o anúncio do Major José Paulino Von Hoonholtz, que recebera em sua residência, em 1865, o pianista Hermenegildo Liguori, e clamara com urgência no Cearense à pessoa que levara álbum fotográfico pertencente ao visitante, a caminho da Europa, “que o restitua, sob pena de ser publicado o seu nome.”
Saber do sumiço de um chapéu de sol de seda preta, de uma carteira de couro da Rússia, de um broche de ouro guardando um retrato, de um lenço de labirinto – mais labyrinthico ainda na grafia antiga, de uma bengala de junco com cabeça de metal, de um botão de rosas em cravações de brilhante, de uma pulseira de ouro esmaltada de azul, de uma carta talvez entregue, talvez lida no Passeio Público, saber de tudo isso me serve de escasso consolo enquanto busco.
Angela Barros Leal é jornalista e escritora.







