
A vice-governadora do Ceará, Jade Romero, deu mais um passo na consolidação de sua identidade política ao comandar, em Fortaleza, o encontro que marcou o início oficial da transição do Programa Primeira Infância para o novo modelo integrado ao Sistema Único de Assistência Social. O evento reuniu gestores de 184 municípios e técnicos da assistência social, sob a justificativa institucional de orientar sobre as resoluções do Conselho Nacional de Assistência Social publicadas em novembro de 2025, que reorganizam a tipificação do serviço e institucionalizam o atendimento domiciliar a gestantes e crianças de 0 a 6 anos.
No discurso, Jade reforçou a narrativa de consolidação da primeira infância como política pública permanente. Ao transferir a execução para os Centros de Referência de Assistência Social, o governo estadual fortalece a rede de proteção social básica e garante capilaridade municipal. A mensagem central é clara: não se trata de programa de governo, mas de política estruturante integrada ao SUAS, com previsibilidade administrativa e continuidade institucional.
Do ponto de vista técnico, a medida organiza fluxos, padroniza atendimento e amplia a segurança jurídica da política. Do ponto de vista político, o movimento é ainda mais significativo. Ao reunir 184 municípios em um único ato, a vice-governadora consolida relação direta com prefeitos e secretarias de assistência social — uma base estratégica para qualquer composição eleitoral. A assistência social, diferentemente de áreas mais técnicas como infraestrutura pesada ou finanças, dialoga com o cotidiano das famílias e com públicos sensíveis, especialmente mulheres e mães.
Nos bastidores, a leitura predominante é que Jade constrói capital político silencioso. Ao ocupar o campo da primeira infância, ela associa sua imagem a uma agenda de alto valor simbólico: cuidado, proteção e futuro. Trata-se de uma pauta de baixíssima rejeição pública e alto potencial de identificação emocional. Em um cenário pré-eleitoral, esse ativo não é trivial.
A estratégia também reforça o equilíbrio interno do grupo liderado pelo governador Elmano de Freitas, com influência política decisiva do ministro Camilo Santana. Jade não disputa protagonismo frontal; ao contrário, atua em complementaridade. Enquanto Elmano concentra agenda administrativa mais ampla e Camilo preserva o capital político nacional, ela consolida o eixo social, ampliando a presença no interior e reforçando o diálogo municipal.
Essa construção fortalece sua posição para continuar na chapa majoritária deste ano. Em contextos eleitorais, vice-governadores que acumulam agenda concreta e visibilidade tendem a se tornar peças estratégicas para manter coesão da base. Jade se credencia não apenas pela lealdade política, mas por entregar uma pauta que gera resultado institucional e dividendos eleitorais.
Há, evidentemente, variáveis. O ambiente político exige que a política saia do discurso e produza indicadores claros de atendimento e impacto. A oposição poderá questionar execução, cobertura ou eventual uso eleitoral da agenda social. Contudo, a institucionalização no SUAS reduz margem para críticas de improviso ou descontinuidade.
Além disso, ao estruturar a primeira infância dentro da rede básica, o governo cria uma engrenagem permanente nos municípios. Prefeitos passam a ter responsabilidade compartilhada na execução, fortalecendo vínculos federativos. Esse detalhe é politicamente relevante: políticas que dependem da cooperação municipal tendem a gerar alianças duradouras.
Em síntese, Jade Romero atua de forma estratégica. Ao investir na consolidação de uma política estruturante, amplia sua legitimidade administrativa e sua densidade política. Se o objetivo é permanecer na chapa e fortalecer o projeto governista, o movimento é coerente. Mais do que visibilidade pontual, ela acumula presença territorial e identidade própria — ativos que, em ano eleitoral, fazem diferença.






