Sucessão sem fantasias; Por Ricardo Alcântara

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Foi por muito pouco que não se viu a primeira dama do país compartilhando a passarela do Sambódromo com o balancê sensual de mulheres quase seminuas e alegorias de escárnio ao modelo familiar “papai e mamãe” – um tiro no pé de um governo que vinha se esforçando muito para conquistar os conservadores corações e mentes evangélicos.

Nas cinzas de um carnaval polêmico, o início do ano real brasileiro trouxe preocupações para o comando lulista em Brasília com novas pesquisas de opinião que confirmam o crescimento das chances eleitorais do seu adversário posto, Flávio Bolsonaro. Por enquanto, somente ele.

Se o bom desempenho inicial do filho do ex-presidente surpreendeu a quem não desce dos saltos nem para tomar banho, tinha explicação fácil para quem cuida sempre de manter os pés no chão: Flávio, com um sobrenome de larga popularidade, ocupou o espaço substanciado por um forte sentimento anti Lula. Foi, até aqui, um movimento inercial. É a tal polarização.

Sim, as pesquisas. Em janeiro, Lula era o candidato preferido de 61,2% dos brasileiros com nível Fundamental de educação. Já agora, no final de fevereiro, o índice caiu para 37,3% – uma diferença de quase 24 pontos no levantamento recente do instituto Atlas/Intel, agora sim, um movimento surpreendente. Consequentemente, são maiores as perdas nas regiões mais deprimidas socialmente, sobretudo no Nordeste, o que, para o presidente, significa tomar gol jogando em casa.

Lula voltou a Brasília, estava claro desde sempre, para normalizar as relações no conjunto das instituições democráticas. Em 2022, o candidato, inocentado dos crimes de que fora acusado, julgado e preso, voltou com o objetivo modesto, embora desafiador para as circunstâncias, de colocar a casa em ordem. E o fez, avançando, inclusive, na recuperação de alguns importantes indicadores socioeconômicos.

Agora, ao se iniciar o ciclo pré eleitoral e tendo o presidente que manter seu eleitorado cativo – os setores de baixa renda, mais dependentes da rede de proteção do Estado – mas, por outro lado, precisando diminuir sua rejeição nos segmentos de classe média para construir a maioria simples de sua almejada vitória, Lula se vê diante de necessidades com potencial conflitante.

Se, por um lado, precisa radicalizar seu discurso contra privilégios da elite – a “satânica” Faria Lima – e em favor da ampliação de boas oportunidades para os mais pobres, por outro, há de manter a moderação igualmente necessária à conquista dos votos entre eleitores de centro que possam desempatar a seu favor o jogo da polarização na prorrogação de um segundo turno.

Assim, é razoável perceber que Lula errou o tom quando, discursando para um público cativo no aniversário do PT, disse que abandonaria de vez na campanha próxima a persona do “Lulinha paz e amor” – e finalizou incendiando seu batalhão: “Agora, é guerra!”

Sim, tudo indica que a disputa será encarniçada como uma cruzada medieval, mas o presidente vai precisar de habilidade para falar grosso sem assustar os mais refratários à sua mensagem marcadamente classista.

Porém, calma. Daqui às urnas propriamente ditas, 28 luas passarão no céu azul anil desse Brasil varonil. Até lá, marolas e, talvez, tsunamis ainda virão de esferas diversas de poder para tirar ou preservar máscaras e fantasias nada republicanas de togados e engravatados de Brasília, a cidade dos homens que dormem em pé.

Foi-se o carnaval. Agora, é encarar o jogo bruto daquilo que costumamos chamar de Realidade.

    Ricardo Alcântara é escritor, publicitário, profissional do marketing político e articulista do Focus.

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