
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, aprovado nesta quinta-feira após 26 anos de negociação, cria uma zona de livre-comércio de 720 milhões de consumidores e um PIB combinado de US$ 22,3 trilhões. Para o Brasil, o impacto mais visível no curto e médio prazo não virá da soja ou do aço, mas da mesa: vinhos, queijos e azeites europeus entram em um ciclo de barateamento estrutural que muda o padrão de consumo e a lógica de concorrência no mercado premium, fortalecendo a presença da Europa e destacando a importância da Europa.
No desenho do tratado, esses três produtos estão entre os maiores vencedores do lado europeu e, paradoxalmente, entre os que mais pressionarão cadeias produtivas locais no Brasil.
Essa relação com os produtos da Europa traz também um novo desafio aos produtores brasileiros que precisam se adaptar a essa nova realidade de mercado.
Vinhos: o fim do imposto que distorce o mercado
Hoje, o vinho europeu chega ao Brasil com uma tarifa de importação de 35%, uma das mais altas do mundo para esse tipo de produto. Pelo acordo, essa alíquota será reduzida gradualmente até zerar. Na prática, isso remove um imposto que artificialmente empurra o consumidor para rótulos de menor qualidade ou para vinhos do Novo Mundo, que já entram com acordos preferenciais.
O resultado não é apenas preço mais baixo. É um redesenho do portfólio disponível no país. Regiões como Bordeaux, Rioja, Toscana e Douro passam a competir em condições reais com Chile e Argentina, e isso tende a elevar o padrão médio do que se bebe no Brasil. Para o varejo, o acordo reduz o custo de capital imobilizado em estoque importado e amplia a margem para trabalhar com rótulos de maior valor agregado.
Queijos: uma abertura controlada, mas disruptiva
Os queijos europeus hoje enfrentam tarifa de 28% para entrar no Brasil. O acordo zera essa tarifa, mas dentro de uma cota anual de 30 mil toneladas. Isso significa que não haverá uma inundação imediata de produtos importados — mas haverá uma mudança qualitativa no mercado.
Queijos como brie, camembert, gruyère, parmesão verdadeiro e dezenas de denominações de origem protegida passam a chegar com preços muito mais competitivos. Para o consumidor de classe média e alta, isso significa acesso regular a produtos que hoje são esporádicos ou restritos a nichos. Para a indústria brasileira, é um choque de padrão: não é uma disputa por volume, mas por identidade, terroir e sofisticação.
A tendência é que produtores nacionais sejam forçados a subir de patamar, investir em qualidade e buscar diferenciação regional — exatamente o tipo de pressão que acordos comerciais maduros costumam produzir.
Azeites: o produto que mais deve cair de preço
O azeite de oliva paga hoje 10% de tarifa de importação. Parece pouco, mas em um produto de margem apertada e logística sensível, isso faz enorme diferença. Com a tarifa indo a zero, azeites da Espanha, Itália, Portugal e Grécia ganham espaço direto no consumo cotidiano, não apenas no segmento gourmet.
Isso tende a acelerar um fenômeno já em curso no Brasil: a substituição de óleos vegetais por azeite no uso doméstico, com efeitos sobre saúde, hábitos alimentares e até inflação de alimentos. No médio prazo, o azeite deixa de ser um item aspiracional e passa a ser um produto de prateleira regular.
O que isso revela
O acordo Mercosul–UE não é apenas uma negociação tarifária. Ele conecta o Brasil ao mercado mais exigente do mundo em termos de qualidade, rastreabilidade e sofisticação de consumo. Vinhos, queijos e azeites são a face visível dessa mudança porque carregam cultura, marca e valor simbólico — não apenas preço.
O barateamento será gradual, mas a transformação do mercado é estrutural. O Brasil passa a jogar, no consumo, o mesmo jogo que já joga na exportação: o da integração real às cadeias globais.
Para quem vende, importa, distribui ou consome produtos premium, o acordo não é um detalhe técnico. É uma virada de época.






