Ser intelectual entre os ideólogos; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

COMPARTILHE A NOTÍCIA

El intelectual o Joven intelectual, 1937, 89 x 116 cm, de Marcelo Pogolotti

“N’est-ce pas un signe, tous ces intellectuels venus de tous les coins de l’horizont, qui se groupent sur une idée et que s’y tiennent innébranlables?” Georges Clemenceau

[O termo “intellectuel” foi empregado pela primeira no artigo”À la dérive“, no jornal “Autore”, do qual Georges Clemenceau era diretor, publicado em Paris, em 23 de janeiro de 1898]

Chamavam-se, outrora, “igrejinhas” esses nichos de mútua proteção ao qual se recolhiam com seus improváveis talentos, os intelectuais e os artistas. Os sindicados tinham outra serventia, na defesa de direitos sociais dos trabalhadores menos protegidos pela sorte.

Na politica, os partidos e certas facções militantes buscavam proteção e reconhecimento entre os da mesma grei. No campo das ideologias e pela motivação de pendores autoritários aliciadores, a solidariedade e as adesões eletivas cumpriam o seu papel agregador.

As oligarquias cumpriram este papel no passado, como centro de poder no qual o prestigio, a familia e os aderentes celebravam um pacto weberiano de proteção e dependência.

De todas as formas de “associação” a mais forte, além das relações de adesão e lealdade espiritual das seitas religiosas, foram os círculos intelectuais, na universidade e na “República das Letras”, isto é, nos domínios onde supostamente o saber era produzido, cultivado e compartilhado. Alguns desses centros notabilizaran-se pelo papel gerador desempenhado no berço e nas fontes de toda a civilização ocidental. Vocação e desejo contrapõem-se pela própria natureza.

Arte e militância não cabem no mesmo saco de trivialidades e ambições do poder. Talento e oportunismo não se confundem.

A dominação da Igreja sobre as fontes e matrizes da produção do conhecimento e dos dogmas da fé e da moral cederam lugar, não sem lutas ferozes de resistência, à “República das Letras”, nos albores do Renascimento [séculos XV e XVI, na Itália], anterior ao século das Luzes [Iluminismo, séculos XVII e XVIII, na França]. A este rótulo genérico atende toda a verberação intelectual, nas ciências, na literatura e nas artes, ocorrida após a fortuna cultivada do saber nos monastérios, nas bibliotecas, nos laboratórios, na tipografia, na universidade, com o advento dos sodalícios, das academias, na mídia… em pleno dominio do território da “República das Letras”.

A categoria “intelectual” que serve de abrigo até mesmo para escritores e poetas, filósofos e pensadores, é de data recente. Nasce na pia batismal graças à inspiração um tanto irônica, senão satírica, de Georges Clemenceau, jornalista, que menciona “intellectuel”, substantivo, ao referir-se aos escritores e artistas que defenderam e acusaram Alfred Dreyfuss, objeto da sórdida condenação que recebera do Exército francês. [“À la dérive”, artigo publicado no jornal “L’Aurore”, Paris. 23/01/1898].

127 anos decorridos, a palavra “intelectual” associou a classe gramatical de substantivo à de adjetivo. O uso conferiu-lhe poder para a sua designação e qualificação, em português e nas principais línguas modernas. Transformou o intelectual em militante, enquadrou-o como categoria guerreira, “influencer” na acepção gramsciana de quem tem poderes para influenciar o comportamento de terceiros.

O “Intelectual” passou a deter o “status” legítimo de uma forma acreditada de representação politica, ainda que não lhe tenha sido atribuído mandato ou lhe tenha valido eleição. O “intelectual” pronuncia-se, exala ideias e meias-verdades, exerce cargos, guardado pela proteção dos seus pares. Considera-se “trabalhador intelectual”, argui direitos próprios, inalienáveis. Interpelado na alfândega por um desses aborrecidos servidores do fisco sobre a profissão, responderá:

“Sou Intelectual!”

Não são todos, Deus sabe do que fala e do que faz. Muitas criaturas que conheço, dotadas de conhecimento, saberes e talento são intelectuais, sem que para tanto se anunciem ou pertençam a um círculo nomeado com os seus bens e saberes arrolados e convalidados por essa liturgia solidária… dos “intelectuais”…

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Brasília e Ceará entram em ebulição com articulação para Camilo na Justiça; Saiba causas e efeitos

Compromisso zero: a fala de Ivo que tensiona a base de Elmano

Governo puxa de volta 30% do Banco do Nordeste: ajuste técnico ou sinal de mudança maior?

Camilo fora do MEC muda o jogo no Ceará e trava, antes da largada, a estratégia de Ciro para 2026

Ari Neto representa o Brasil no EY World Entrepreneur of the Year™️

Hapvida sinaliza sucessão no comando e redesenha cúpula executiva

Movimentos de Rueda em PE e no CE revelam nova lógica do UPb e reconfiguram o jogo político no Ceará

AtlasIntel revela consenso nacional contra o dono do Banco Master e expõe crise de confiança no sistema financeiro

Obtuário: Frank Gehry e o fim de uma era em que a arquitetura acreditava poder mudar cidades

Drones, motos e cidades no limite: por que Fortaleza terá que se adaptar

A análise da reviravolta: PL suspende apoio a Ciro Gomes após ofensiva de Michelle

A aposta limpa do Governo com Spark na frota pública: baixo carbono, eficiência e maior economia

MAIS LIDAS DO DIA

Brasil registra 4.515 denúncias de trabalho escravo

Fortaleza inaugura primeira Paradinha para motoristas de apps

Nova lei da CNH: Ceará cobra acima do teto em exames, diz ministro

Donald Trump. Foto: Isac Nobrega/Agência Brasil

Trump publica montagem como “presidente interino da Venezuela” nas redes sociais

Emendas consomem até 78,9% do orçamento livre de ministérios do governo Lula em 2025

Ceará coloca veículos e bens em leilão com lances a partir de R$ 300

Fortaleza em mim; Por Acrísio Sena

Em dez pontos, Guimarães expõe o mapa de riscos do lulismo em ano pré-eleitoral

Ser intelectual entre os ideólogos; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto