
Por Ricardo Alcântara
Post convidado
Uns protestam e outros festejam, mas o momento é de grave pesar: foi preso não apenas um ex-presidente, mas, também, a maior liderança popular do país – O nordestino que fugiu da penúria e, nos estertores de uma ditadura, criou o maior partido de esquerda da história latino-americana para, por fim, realizou o mais próspero e justo governo desde a volta do poder civil. Prisão igualmente desconcertante para a opinião pública estrangeira, que via no êxito dele sinais de mudança nas frágeis democracias do hemisfério sul: a esquerda ganhou, tomou posse e ninguém conspirava mais.
Como desfecho, sua prisão é como se o país tivesse criado um engenho para logo destruí-lo ao peso de nossa notável vocação para o fracasso. Enquanto mandou – e mandou pouco no governo Dilma – Lula “mandou bem”: preservou a estabilidade econômica, surfou na tendência internacional de crescimento, reduziu a taxa de desemprego a inacreditáveis 6% e fez emergir da pobreza milhões de pessoas.
Em seu pragmatismo de sindicalista, Lula sabia que somente uma coisa não poderia deixar de fazer, sob pena de dar a viagem perdida: combater a pobreza, porque era o que justificava a existência de seu partido. No entanto, para fazê-lo, vendeu a alma a dois diabos: o aumento dos gastos públicos e os concertos tenebrosos com o flagelo fisiológico, a tal “governabilidade”.
O que vemos aí agora é a fatura que a História não tarda a cobrar. Dois fatores precipitram sua derrocada: a ilusão de intocabilidade que de seu ego se apossou no auge da popularidade e não o fez recuar diante do sinal amarelo aceso pelo Mensalão. E, dois: a desastrosa tentativa de sua sucessora em curvar o mercado ao seu determinismo, a tal da “nova matriz econômica” (nada mais do que a crise absurda que o país conseguiu criar para si mesmo enquanto o mundo todo vai muito bem, obrigado).
Com a prisão de Lula decretada, a esquerda está liberada da incômoda missão de defender com unhas e dentes a impunidade e logo se voltará contra ela – oportunismo não lhe falta – para arrastar no caudal de seu fracasso os agentes liberais igualmente comprometidos com o desmantelo ético da república. Enfim, o horizonte se move.







