Uma crônica sobre sapos; Por Angela Barros Leal

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O sapo se adapta ao calor – é o que me diz a vizinha, enquanto nossos netos jogam futebol no campinho do prédio. O sapo não morre nem se jogarem água fervente nele, justamente porque se adapta – ela complementa.

O céu sem nuvens reluz acima das nossas cabeças, à sombra de um prédio em região densamente ocupada por pessoas e animais domésticos – nenhum deles da família do dito anfíbio. O assunto foi trazido por minha culpa, na hora que decidi oferecer como argumento, em uma discussão desimportante com a vizinha, a velha comparação com a morte do sapo na panela de água fria, posta sobre o fogo aceso. 

Todos temos nossos medos particulares. E não me refiro aos temores comuns, relacionados a pestes e epidemias, a ações violentas, humanas ou naturais, a desastres catástrofes de qualquer ordem, mas sim àquelas fobias, privadas ou não, àqueles inexplicáveis sentimentos de nojo ou de terror explícito, em relação a determinados animais ou insetos.

O sapo não se enquadra na minha lista de repugnâncias, da qual constam outras categorias horripilantes. Mas, como o dito cujo pode ser causador de arrepios em algumas pessoas, de acionar o botão de pânico em quem está lendo essa história, deixo logo a advertência para que não prossiga até o próximo parágrafo, no qual a vizinha faz questão de me esclarecer os fatos da vida, a partir da experiência dela sobre a adaptabilidade do sapo.

Crescera, a vizinha, no interior de um distrito do município de Capistrano, distante de Fortaleza não mais que cem quilômetros, porém economicamente bem mais longe na década de 1960. Crescera em família de poucos recursos, e vira como tudo era obtido e colhido de modo artesanal, desde os tijolos para erguer as casinhas simples à produção dos utensílios caseiros, tudo feito com o barro do entorno das lagoas da região.

Por ter eu nascido e crescido em cidade grande, os assuntos do interior não deixam de despertar minha curiosidade, sem abrir exceção sequer para o que se refere à espécie Rhinella icterica, designada pela antiga nomenclatura como Bufo ictericus.

Na casa da infância da vizinha, potes e panelas de barro feitos a mão eram usados, lavados e postos para secar no girau improvisado pelo lado externo da casa, ao pé da janela da cozinha. Muitas vezes, uma das refeições – às vezes as três – consistia em cuscuz. Para ralar o milho, devido à inexistência de um ralador a mãe improvisava: usava a lateral de uma lata de óleo, ou de querosene, perfurada simetricamente por pregos que faziam virar, para fora da lata, dezenas de pontas agudas, irregulares. Era desse jeito – ela me assegura.

Depois de ralado, o milho era recolhido da bacia e envolvido em um pano de prato, a ser posto sobre a boca de uma panela de barro acinturada, própria para cozinhar o cuscuz no vapor da água fervente. Naquele dia a mãe fez tudo como sempre fazia. De diferente, só mesmo um ruído que ela ouvia de quando em vez, sem muita atenção, como se as unhas de um cachorro estivessem escavando o piso de cimento da cozinha.

Na hora de servir o jantar, todos sentados em volta da mesa, no instante em que a mãe removeu o pano da boca da panela, saltou de dentro dela um animal nunca visto.

Tratava-se de um sapo cururu enorme, inteiramente vermelho, vermelhíssimo, da cor das brasas da lenha que ardia no forno, bufando seu papo gigantesco – inflando e desinflando, para dentro, para fora –, aparentemente tão assustado quanto a família à sua volta.

Em três pulos trêmulos o sapo vermelho despencou para o chão. De salto em salto, saiu porta afora para buscar refúgio embaixo do girau, aproveitando a umidade da terra. Minha vizinha, que também não se apavora com sapos, foi a única a se interessar em seguir o percurso do anfíbio. Debruçou-se na janela e, apesar da escuridão da noite que chegava conseguiu observar a vermelhidão do sapo ir arrefecendo aos poucos, e viu quando ele saltou para umas moitas mais distanciadas da casa, de onde desapareceu.

Mas o sapo morreu? – perguntei a ela, ansiosa pelo desfecho da história. Aparentemente não – acreditava ela, por ter percebido os saltos seguintes mais firmes do que os que ele dera antes, da mesa para o chão.

O apito de final do jogo no campinho de futebol fez os netos correrem até nós, afogueados, sedentos, cortando a possibilidade de prosseguir a conversa. Depois, repensando no que ouvira da vizinha, elaborei minha própria moral da história: assim como acontece com os sapos, aquelas criaturas que aprenderem a ser adaptáveis é que herdarão a Terra.

 


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

 

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