
Efigênia tinha 28 anos e acalentava o sonho de ser profissional e mãe. Acalentava também o sonho de ser amada. Acalentava e protegia, como podia, outra vida dentro de si. Acabou sendo morta por isso. Na semana passada (13.01), essa moça, estudante de fisioterapia, estagiária, moradora do bairro Prefeito José Walter, saiu da casa de sua família pela última vez para ir ao supermercado. O assassino era o próprio namorado que não aceitava a gravidez e a matou e depois carbonizou seu corpo por causa disso.
Neste mesmo janeiro de 2021, uma moça de 19 anos estava sendo levada para a morte, transportada no porta-malas de um carro, quando a porta da traseira do veículo abriu e ela conseguiu colocar uma mãe para fora. O defeito a salvou. Antes, havia sido torturada e agredida com chutes. A razão: tinha um envolvimento com um suspeito de integrar facção criminosa e membros de facções rivais, ao não encontrarem o namorado, decidiram levá-la.
Em 2020, Itaitinga, Região Metropolitana de Fortaleza, Ana Glaucya Ferreira Braz foi morta e o marido, baleado, porque haviam denunciado o assédio a ela de um ex-segurança do supermercado no qual trabalhavam. O homem foi demitido e matou aquela que havia recusado seus avanços.
No mesmo ano, Cícera Samires foi morta em Milagres, Região Sul do Ceará, pelo ex-companheiro que não aceitava o fim do relacionamento. Um dia antes, ela havia denunciado na Polícia que ele rasgara as suas roupas. A medida protetiva solicitada por ela não foi expedida a tempo.
Quatro casos, quatro trajetórias distintas, um ponto em comum: a violência contra a mulher avança alicerçada em causas culturais, sociais e econômicas. Aqui, o público e o privado se misturam para contribuir com um dado que nos envergonha: nos seis primeiros meses de 2020, o Brasil assistiu à morte de 1.890 mulheres de forma violenta. Desse total, 631 crimes foram em função da condição de gênero, ou seja, feminicídios. Dados compilados pela Universidade de São Paulo e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que a maior parte delas é negra, o que expõe uma faceta cruel do desenvolvimento do País e sua história de lutas e conquistas por direitos femininos. As mulheres negras são mais expostas à violência que as brancas por condições sociais desiguais e desfavoráveis às primeiras.
E fica a questão: como combater a violência contra a mulher, em especial a mulher negra? Advogamos que, em fatos sociais de causas múltiplas, a abordagem da solução deve ser igualmente múltipla, com foco na geração de emprego e renda, educação, qualificação profissional, ampliação dos canais e formas de denúncias, construção de uma rede de apoio que ampare a vítima de violência e conscientização dos direitos femininos por parte das mulheres, das famílias e dos homens.
E aí: vem fazer parte dessa luta com a gente?







