Incertezas econômicas que o Brasil atravessa. Por Renato Aguiar

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Renato Aguiar.
Diretor de Crédito e Operações da CDP Capital. Foto: Divulgação

O momento de turbulência política, econômica e social que o Brasil atravessa atualmente, decorrente da polarização política e instabilidade na relação entre os três Poderes da República, da pandemia da COVID-19 e seus impactos sobre a redução da atividade econômica e da queda na renda real da população e aumento da desigualdade social, acarretaram uma “tempestade perfeita” sobre o mercado financeiro brasileiro.

Esse cenário turbulento tornou o mercado cada vez mais desafiador para os investidores e não aconselhável para amadores, pois exige bastante dos especialistas, gestores, administradores, instituições financeiras e demais players que atuam nesse mercado.

Traz  incertezas que provocam natural aversão a riscos e, com isso, maior demanda por ativos reais, ambiente propício para a valorização do dólar, do euro, do ouro e dos bens móveis e imóveis etc., em detrimento dos ativos financeiros, a exemplo das ações, demais ativos de renda variável e até os de renda fixa, os quais acabam sendo prejudicados pelas constantes e elevadas variações na taxa Selic. Isso porque há necessidade da aplicação da regra de marcação a mercado.

Essa metodologia, em síntese, corresponde à apropriação das perdas dos ativos de longo prazo, adquiridos com taxas inferiores às praticadas nas datas de apuração das quotas, sem falar nos casos em que a rentabilidade auferida acaba por não gerar ganho real, ou ainda, um rendimento superior à inflação, frustrando o investidor e o incentivando a procurar ativos mais rentáveis.

Paralelamente, seja pela desvalorização do câmbio, encarecendo os insumos importados e, consequentemente os produtos que os utilizam no processo de manufatura, e também pelo incentivo às exportações, equiparando os preços em reais aos praticados no mercado externo, a exemplo do petróleo e seus derivados ou por aumento no consumo, evidencia-se pressões inflacionárias sobre os preços internos. E é isso que o país vem observando ao longo dos últimos meses, trazendo de volta o “fantasma” da hiperinflação, castigando a maioria da população brasileira, sobretudo a mais pobre e vulnerável, alimentando a violência, a miséria e demais mazelas sociais.

Essas pressões inflacionárias, por sua vez, levam o Conselho de Política Monetária e o Banco Central, como guardiões da moeda brasileira, a adotarem políticas que garantam o cumprimento da meta de inflação anual. Por essa razão, essas instituições aumentam os juros através da taxa SELIC, encarecendo o crédito, arrefecendo o financiamento e o consumo e incentivando os investimentos, principalmente em ativos de renda fixa.

Importante destacar que esse contexto, apesar dos inúmeros malefícios, favorece os exportadores, a arrecadação de impostos e aos rentistas, mas de forma não equilibrada e pouco sustentável numa visão de longo prazo.

Por isso a importância e urgência da adoção de medidas que combatam a inflação, equilibrem a taxa de câmbio, reduzam a desigualdade social, estimulem a geração de emprego e renda e reduzam os níveis de desemprego, atualmente muito elevados no país. Esta situação é totalmente injustificada, levando-se em conta a nossa imensa riqueza natural, reforçando a percepção de que o nosso problema não é a falta de recursos, mas de gestão, traduzida pelo nosso atual arcabouço político, tributário, administrativo e jurídico. Tais setores são carentes de importantes e profundas mudanças, passíveis de implementação, apesar dos interesses e lobbys contrários e do cuidado necessário com a avaliação e proteção dos direitos adquiridos.

Os efeitos da pandemia parecem, finalmente, darem sinais de arrefecimento, possibilitando a retomada das atividades econômicas, tanto pelo lado da oferta, quanto do consumo, mas ainda demandando certo tempo para a recomposição das cadeias de suprimento, do emprego, da renda e da confiança do consumidor. Contudo, os efeitos benéficos dessa recuperação vêm sendo infelizmente atenuados pela instabilidade política, jurídica e institucional. Mantido esse ambiente de instabilidade e incertezas, continuaremos sofrendo pressões inflacionárias, cambiais e sobre as taxas de juros, contexto que seguirá favorecendo os ativos reais e de renda fixa, preponderantemente aqueles atrelados ao CDI.

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