Doce vingança; Por Angela Barros Leal

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Um pouco antes, um pouco depois das 23 horas, de segunda a sexta-feira, no silêncio das ruas, aguardo o inevitável: a poderosa descarga de uma motocicleta vinda dos lados do Mucuripe, ou dos moinhos, ou da região portuária de Fortaleza. Tão certa quanto o nascer do sol, a motocicleta irá chegar na minha janela um pouco antes, ou pouco depois das 23 horas, rasgando a tranquilidade da noite.

E ela vem, inevitável, em um crescendo impressionante, traçando no ar uma curva ascendente de ruído quase visível, que vai do mais silencioso ao ensurdecedor, em uma exibição desnecessária de poderio sonoro.

Uma vez me postei à janela para conferir se a fonte de todo o barulho seria de fato um veículo ou uma trovoada proveniente de invisíveis tempestades, ou um milhar de serras elétricas pondo abaixo meia Amazônia, ou uma revoada de pássaros com penas de aço, a sobrevoar os edifícios, ou quem sabe um avião acelerando as turbinas, prestes a decolar.

E o que vi, zunindo na passagem ou parado no sinal de trânsito da esquina, nada mais era do que a máquina metálica de duas rodas, montada por um dos Cavaleiros do Apocalipse, uma criatura de rosto encoberto por um capacete, um guerreiro armado com seu explosivo arsenal.

Na mudança do sinal, eu vi quando o pé que repousara por escassos minutos no acelerador era empurrado sobre o acelerador na direção do chão, revelando assim a fonte do som estrondoso, em espiral crescente, capaz de fazer tremer os vidros das janelas, os pingentes dos lustres dos apartamentos, as taças de bebida penduradas pelos pés nos bares da vizinhança.

Deve ser alguém que exerce seu ofício em um turno da noite, eu penso, talvez das 3 horas da tarde até às 11 da noite. Alguém que trabalha confinado por paredes, emparedado, incapaz de ver o sol dar lugar à lua, alguém ocupado em pressionar botões, em usar fones de ouvido para abafar o som de máquinas, alguém cujo instante de liberdade mereça ser comemorado com estrondo. O motor, o berro do dono.

A fidelidade ao horário, 23 horas, me faz pensar isso.

Por outro lado, o motorista pode também ser uma pessoa de hábitos noturnos, que escolha tal horário para percorrer as ruas devido ao menor movimento de veículos e à amenização do calor, que aproveite para circular pela cidade exercendo seu sagrado direito de ir e vir, ignorando com inteira inocência o direito ainda mais sagrado do descanso alheio.

De segunda a sexta-feira, meus ouvidos insones pressentem o barulho ainda incipiente, talvez emitido ainda na sua origem, um zumbido fraco que cresce de intensidade em questão de minutos, ou mesmo de segundos, a duração necessária para percorrer uns tantos quarteirões de um bairro a outro.

O silêncio se instala por curto momento, em louvável obediência ao sinal de trânsito. E no instante seguinte as trombetas do Apocalipse anunciam a partida do cavaleiro em duas rodas, em um grau de ressonância com certeza igual ao que fez caírem por terra as muralhas de Jericó.

Aperto os olhos, trinco os dentes, e sinto que o Mal desperta dentro de mim.

Andei folheando o Antigo Testamento, percebendo a crueldade dos castigos impostos pelos vencedores aos vencidos, pelas tribos contra outras tribos, um catálogo de sofridas e criativas punições. O som do motor da moto fez algo se mexer nas células da minha memória coletiva, no depósito de sentimentos condenáveis que tentamos abafar, no fundo do poço-profundo do sistema límbico onde hibernam todos os medos, e todos os males.

E assim viro juiz supremo, viro deusa, viro verdugo e carrasco (palavras sem a contrapartida feminina…), esqueço os bons princípios da cristandade e exerço a doce vingança da reciprocidade: sentencio aquele homem, o motorista, e seu capacete, e seus pés calçados em botas, e seu veículo demoníaco, à punição em um dos círculos do inferno, condenado para todo o sempre a ser trancado em um aposento no qual permanecerá acelerando sua moto, escutando por toda a eternidade, e com fiel plenitude, os sons desumanos produzidos por ela.

Só assim consigo adormecer.


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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