Folhetim de Santa Ozita – A curandeira que desafiou o governo do Ceará. Capítulo 7/7. Por Angela Barros Leal

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“Quando se conclui o drama”

Interessante observar que atitude semelhante de confrontar o Governo se dera no Recife, em versão bem-sucedida, com Madame Jael, a mãe da curandeira Ozita. Jael pertencia ao PSD – Partido Social Democrático, fundado em 1945, “desde que morava no Pina”, como esclarece o Jornal Pequeno. Quando se transferiu para a rua da Concórdia, de passagem pela rua Imperial, “onde foi cartomante”, se mantivera no PSD.

Para sorte dela (ou, quem sabe, devido a ela…) em 1947 Otávio Correia, do dito Partido, ascendera à chefia do Governo pernambucano. A estreita ligação entre a ex-cartomante, com suas influências mediúnicas, e a organização partidária de interesses políticos, criou um impasse entre os que desejavam impedir o trabalho de Jael e os que não podiam negar sua continuidade.

Vinha da administração anterior a proibição a seu ofício. Ao se fundirem, o mundo dos homens e o mundo espiritual, a proibição foi revogada com o apoio de deputados que discursaram em defesa dela na Assembleia Legislativa de Pernambuco, alegando “perseguição religiosa e, portanto, desrespeito à liberdade de crença assegurada pela Constituição.” Madame Jael conseguira no Recife, ainda que por pouco tempo, o milagre que as três jamais voltariam a conseguir, em lugar nenhum. Embora pertencesse ao mesmo PSD o governador cearense Faustino de Albuquerque nada devia a Ozita.

Em 1950 Ozita de Carvalho Paiva transitava entre Salvador e Belo Horizonte, a essa altura casada com Idalgo Correia Lima, dois anos mais jovem que ela, e a quem conhecera em Fortaleza. Ao se ver mais uma vez cerceada em seu mister, Ozita impetrou habeas corpus preventivo para assegurar o livre exercício dos milagres e evitar a experiência prisional vivenciada mais de uma vez pela mãe e pela irmã.

Apesar de circunstanciado relatório do Delegado de Salvador, que não poupara palavras e chamara o casal de “dupla de embusteiros”, a ação judicial de Ozita foi acolhida pelo juiz Mário Lins, fundamentado no princípio de que “era permitido a qualquer pessoa curar os outros por sugestão”.

Devido à originalidade do pedido formal, iniciado com a invectiva bíblica “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, guias cegos que coais um mosquito e engolis um camelo (Mateus 23:24-26)”, o fato repercutiu na Capital Federal, na coluna Fôro, do Diário Carioca, escrita por Othon Ribas: “Acreditamos que ninguém antes pensara em requerer um habeas corpus para ser santa ou exercer os direitos da santidade”, espantara-se ele, claramente desconhecedor dos poderes de Ozita e família.

A praga de Ozita sobre o Governador do Ceará se mostrou de pouca valia. Luciano Carneiro encontraria seu fim em um acidente aviatório no dia 22 de dezembro de 1959, mais de uma década depois. Faustino de Albuquerque iria falecer somente em 1961, um ano antes do falecimento do pai de Ozita, o químico Manoel de Carvalho Paiva Filho. A vida terrena da mãe, Madame Jael, terminaria em 1982, aos 88 anos, no Rio de Janeiro, onde se fizera conhecida como a Santa de Bonsucesso.

O convite para o sepultamento, publicado no Diário de Pernambuco, lista os nomes dos filhos Osmar, Messias, Ariete e Rosete. Ozita, a Santa, não é mencionada.

 

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