Noites com Pushkin. Por Angela Barros Leal

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Alexandr Sergueievitch Pushkin (1799-1837) é considerado o real fundador da novela russa moderna, tendo representado a vida russa como nenhum escritor o fizera antes dele. Foto: Divulgação

Em 2007 meu tio colocou ponto final na obra à qual vinha se dedicando por quase uma década. O desafio fora proposto por sua falecida esposa, e ele o assumira com a disposição de um jovem septuagenário. Já estabelecido na desconfortável casa dos 80 anos, debilitado por doenças, ainda prosseguia no esforço inclemente de finalizar a tradução para o português, até então inédita, do romance em versos Eugênio Oneguin, publicado por Alexandr Pushkin em 1833.

No ano anterior solicitara meu auxílio. Claro que eu nada sabia nem sei de russo, além das palavras pravda e vodka. Não precisava me preocupar. A tradução fora trabalhada por ele, que aprendera o idioma quando residira na Rússia. Para decifrar as sutilezas linguísticas contara com professores russos fluentes em ambas as línguas.

Traduções pré-existentes da obra em inglês, francês, italiano e espanhol contribuíram para a árdua missão, bem como a consulta a livros e dicionários especializados, nos quais buscara informações minuciosas sobre fauna, flora, geografia e etimologia das palavras – para usar de preferência as arcaicas, obsoletas, aquelas que hoje só encontram abrigo nos dicionários, usadas no século XIX – empenhado em ser fiel ao tempo da criação do texto original. Temia mortalmente incorrer em anacronismos. Não admitia deslizes.

Na época eu fazia um curso noturno. Depois da aula seguia para a casa dele, tentando contribuir como pudesse na conferência das rimas e no ritmo das estrofes, em sessões que se alongavam pela madrugada. Nunca vou esquecer de vê-lo sentado em uma cadeira desconfortável, bela como um pequeno trono, cercado dos objetos valiosos que acumulara ao longo da vida, contando pausadamente, nos dedos nodosos da mão esquerda, as oito sílabas dos versos da complexa narrativa – com ênfase na quarta sílaba, ao estilo do que aprendi ser a métrica iâmbica: um-dois-três-QUATRO, um-dois-três-QUATRO.

Na noite seguinte o texto anterior era relido e modificações me aguardavam. Com falsa seriedade ele dizia que duendes tinham visitado as páginas em nossos momentos de descanso e desarrumado as letras de seus lugares. O dicionário de rimas era reaberto. Substantivos, adjetivos e verbos eram reavaliados. O trabalho recomeçava.

Em pouco tempo não se fez difícil ver meu querido tio como uma Penélope estabelecida no Ceará: durante o dia ocupava-se ela em tecer o sudário para o sogro Laertes, reservando as noites para desfazê-lo, na expectativa do retorno de Ulisses, o amado esposo. De modo inverso, porém com igual propósito, retardava ele o insondável vazio à sua frente, após concluída a obra.

Não se termina um livro, enuncia a frase atribuída a tantos escritores. Abandona-se um livro. Um dia o livro foi abandonado, e enviado à Editora. O estado de saúde dele se agravara. Ainda assim, retomou o sonho de compor a Academia Brasileira de Letras, seguindo os passos da primeira esposa. Fez reunir a trilogia que publicara sobre Eça de Queiroz na qual analisara, página por página, os lugares, comidas e bebidas mencionadas nas obras do autor português; a história da pioneira aviadora brasileira, Anésia Pinheiro Machado; outro sobre os 500 anos do Descobrimento, revirando baús de dados históricos.

Coletou os milhares de artigos que publicara em jornais portugueses sobre a identidade entre o Brasil e a pátria mãe, imprimira um livreto com seu extenso currículo de Embaixador e enviara tudo aos que decidiriam a respeito de sua aceitação, muitos deles velhos conhecidos dos tempos em que as águas do mar se abriam ante seus conhecimentos e as nuvens do céu obedeciam a seu gentil comando.

O tempo parava, em duas intermináveis esperas. Três anos se passaram. Três anos em que ele encarou o vácuo dos dias e noites improdutivas, talvez rememorando as passagens do romance em versos: os conflitos de amor entre Tatiana e Oneguin; o sangue de Lensky derramado sobre a neve em duelo mortal (previsão inexplicável da maneira como Pushkin encontraria a própria morte); as cartas de amor e o discurso da rejeição entre os amantes; o troar das botas dos cossacos dançando em festas nas dachas rurais; os hábitos e costumes da Rússia profunda frente ao cosmopolitismo de São Petersburgo, de Moscou.

No domingo em que voltamos do sepultamento de meu tio, em 2010, a então mais lida revista de circulação nacional publicava uma crítica seca sobre a tradução de Eugênio Oneguin, enfim publicada. No mesmo período aprovaram-se as novas regras de transliteração da língua russa para a portuguesa. Anna Kariênina. Liev Tolstói. Púchkin. A grafia do livro nascera anacrônica.

Herdei todos os volumes com os quais havíamos trabalhado. Alguns com as marcas do excessivo uso, tantas vezes tinham sido abertos, anotados nas margens, sublinhados como os livros de Oneguin espiados por Tatiana. De um jeito ou de outro, a tradução de Dário Moreira de Castro Alves para o escritor considerado o pai da moderna literatura russa se mantém viva, em estantes e prateleiras do Brasil e do mundo. Pena que da luta dele junto à Academia Brasileira de Letras tenha restado somente o silêncio. E a sempre válida lição: Sic transit gloria mundi.

Angela Barros Leal é jornalista e escritora

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: dobradinha Cid-Luizianne soma 59,6% dos votos válidos para o Senado

Atlas/Focus: Elmano 49,9% x Ciro 49,6% dos votos válidos; Ceará chega à urna separado por um fio

Focus/Atlas: Aprovação de Elmano vira a favor; Avaliação do governo melhora, mas continua dividida

Atlas/Focus: Cid e Luizianne nas duas primeiras posições no Senado; dupla abre vantagem sobre Wagner e Alcides

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

MAIS LIDAS DO DIA

Michelle Bolsonaro é eleita senadora pelo Distrito Federal

Nikolas Ferreira é reeleito e se torna o deputado federal mais votado da história

Erika Hilton é reeleita e se torna a mulher mais votada da história do Brasil

Cid Gomes reeleito: o grande articulador de 2026

Flávio x Lula no 2º turno: 2026 repete 2022, mas com diferenças decisivas

Elmano: uma vida construída passo a passo

Luizianne senadora: a volta por cima de quem nunca saiu do jogo

Veja os governadores eleitos em todos os estados

Sarto repete o fim de Juraci: derrota eleitoral encerra ciclo político