Bolsonaro: a governança como perturbação da ordem. Por Ricardo Alcântara

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Ricardo Alcântara é publicitário e escritor.

Gente com limitações cognitivas semelhantes às minhas levarão algum tempo ainda para compreender como pessoas corretamente alfabetizadas chegaram a acreditar na possibilidade de que alguém que passou trinta anos no baixo clero do parlamento pudesse ser investido com êxito na tarefa de maior envergadura de presidir o país num momento de dificuldades diversas, como este em que nos encontramos desde a crise — política, ética e econômica — em que a presidente Dilma Rousseff foi forçada, mediante artifícios de legalidade, a entregar a faixa presidencial a seu vice, Michel Temer.

Há, inclusive, inclinações patológicas na dificuldade que Jair Bolsonaro demonstra ter em se identificar com o sofrimento das pessoas. Não me refiro a “compaixão” como valor moral, mas a Empatia mesmo — aspecto fundamental de uma mente equilibrada, de acordo com os modernos manuais de psiquiatria. O que antes já se manifestara latente em seu fascínio por armas e em suas ligações nebulosas com a força social das milícias cariocas, ficou evidente na maneira como, investido da responsabilidade máxima da Presidência da República, lidou com as severas circunstâncias de uma pandemia que já enlutou, somente no Brasil, algo próximo de 600 mil famílias.

O desprezo que ele manifesta pelo conhecimento científico é um fator de risco. Exemplo recente, quando se queixou da “tara” que temos por vacinas, nós outros que, acatando as razões alegadas por infectologistas, defendemos a vacinação em massa de crianças — de resto, algo já praticado em toda parte. Voltou-se, igualmente, contra a vacinação das tropas do Exército, um sistema de operação que envolve grandes contingentes humanos em favor da segurança territorial do país, uma medida básica, a salvo de dúvidas para gente sadia.

A carta pública que lhe dirigiu agora o Diretor-geral da Anvisa — cujas intenções em recomendar a vacinação infantil contra a Covid fora objeto de questionamento ético por parte do presidente — é uma reprimenda, sóbria e firme, que o humilha pelo contraste que desenha ao retratar a desproporção entre a dimensão do cargo que Bolsonaro ocupa e sua capacidade de simplesmente compreender a realidade. O fato de ser assinada por um Almirante, Antonio Barra Torres, de alta patente nas Forças Armadas, faz parecer ainda maior o estrago causado à sua imagem numa corporação onde muitos cidadãos são favoráveis ao seu governo.

Na prática, o governo Bolsonaro acabou. Desautorizado pelos órgãos independentes de Estado, refém de tudo que o Supremo Tribunal Federal sabe a respeito de sua família e atado a compromissos fisiológicos com grupos parlamentares, o que se tem nos dias de hoje é uma governança cujo eixo determinante passa mais pelo gabinete do presidente da Câmara Federal do que pelo outro lado da praça, onde Bolsonaro ainda finge acreditar que pode conquistar um novo mandato. Pode não. Já era.

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