Paul Krugman: Delírios de grandeza (de Trump) vão por água abaixo

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O economista e prêmio Nobel Paul Krugman afirmou nesta sexta-feira (1) que a lista de exceções às tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Brasil acabou comprovando que o republicano não tem a força que pensa para usar a taxação como instrumento de pressão política. Para o economista, o caso do Brasil “ilustra a diferença entre a quantidade de poder que Trump aparentemente pensa ter e a realidade”.

Veja o artigo de Krugman

Nota: Trump anunciou mais uma leva de tarifas ontem à noite — algumas muito altas. Tudo indica que isso virou o novo normal, a menos que os tribunais decidam (como deveriam) que tudo é ilegal. Farei uma análise completa sobre a economia do “Smoot-Hawley 2.0” no artigo de domingo.

Como disse ontem, Donald Trump não está “vencendo sua guerra comercial”. Ele está impondo muitas tarifas e, até agora, ninguém o impediu — mesmo sendo ações claramente ilegais. Mas “vencer” uma guerra comercial, se é que isso significa algo, envolveria usar tarifas para arrancar concessões reais de outros países. E embora alguns parceiros comerciais importantes — notadamente a União Europeia — estejam fingindo que estão cedendo, na prática é tudo fumaça e espelhos.

Será que Trump é um negociador incompetente, facilmente enganado? Talvez. Mas, mais fundamentalmente, ele não tem esse poder todo. O mercado americano é grande e negar acesso a ele causa prejuízo a outros países. Mas não tanto assim. Quem acredita que os EUA podem, com a ameaça de tarifas, forçar mudanças significativas em políticas externas está sofrendo de delírios de grandeza.

Veja o caso do Brasil.

Em certos aspectos, a relação de Trump com o Brasil é excepcional, mesmo dentro do seu rompimento sem precedentes com 90 anos de política tarifária americana. Para começar, o Brasil está enfrentando tarifas de 50% — consideravelmente maiores do que as aplicadas a qualquer outro país.

Além disso, as exigências de Trump ao Brasil são diferentes em natureza das que ele faz a outros. A União Europeia e o Japão foram alvos por supostas práticas comerciais desleais (embora nunca tenham deixado claro quais). O Canadá foi atacado sob a falsa acusação de ser fonte de fentanil — o que é mentira, mas ao menos seria um motivo legítimo se fosse verdade.

Mas no caso do Brasil, Trump ligou explicitamente as tarifas à audácia do país em julgar Jair Bolsonaro, o ex-presidente, por tentar reverter uma eleição que perdeu.

Ou seja: Trump se coloca como inimigo da democracia e da responsabilização de autocratas, o que não é surpresa. O que é mais grave: é completamente ilegal um presidente dos EUA usar tarifas para tentar influenciar a política interna de outro país. Presidentes têm alguma margem para definir tarifas, mas só por certos motivos permitidos:

  • Proteger uma indústria americana diante de um surto de importações (Seção 201);
  • Preservar uma indústria essencial para a segurança nacional (Seção 232);
  • Reagir a práticas desleais (Seção 301 e medidas anti-dumping);
  • Situações de emergência econômica — o que não se aplica aqui, já que o próprio Trump vive dizendo que a economia dos EUA vai muito bem.

Quase tudo que Trump vem fazendo na área comercial é ilegal, mas no caso do Brasil, é flagrantemente ilegal. Nem mesmo o advogado mais inescrupuloso conseguiria encontrar algo nas leis americanas que autorize um presidente a impor tarifas por não gostar das decisões do Judiciário de outro país. (Ou será que estou zicando a coisa?)

O confronto com o Brasil é um exemplo escancarado da ilegalidade na política tarifária de Trump. Mas também revela a distância entre o poder que Trump acredita ter e a realidade.

Vejo muitos artigos dizendo que os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Isso nem é verdade, a menos que se ignore que a União Europeia age como um bloco único nas negociações comerciais. De todo modo, os EUA não têm o peso que acham que têm nas exportações brasileiras. Veja o gráfico abaixo:

Será que Trump e seus assessores acreditam mesmo que podem intimidar um país de mais de 200 milhões de habitantes a abandonar a defesa da democracia, quando 88% das exportações brasileiras vão para outros mercados?

E tem mais: a administração Trump isenta o suco de laranja brasileiro das tarifas — 90% do suco consumido nos EUA vem do Brasil. Ou seja, precisam do que o Brasil vende. E isso é uma admissão implícita de que, ao contrário do que Trump vive repetindo, quem paga as tarifas são os consumidores americanos, não os exportadores estrangeiros.

Aliás, alguns de nós queremos saber: por que o suco de laranja — algo que dá para viver sem — foi poupado, enquanto o café — um nutriente essencial — não foi?

No campo político, as tarifas parecem estar produzindo o efeito contrário ao esperado. Assim como ocorreu no Canadá, onde as ameaças de Trump ajudaram a salvar o governo Liberal, as agressões contra o Brasil impulsionaram a popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva, atual presidente.

Como disse: Trump pode achar que pode mandar no mundo, mas não tem o suco — nem o poder. Na verdade, está oferecendo ao mundo uma aula sobre os limites do poder dos EUA.

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