Entre o discurso do colapso e alianças instáveis, Ciro tenta reconstruir seu poder no Ceará

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A política cearense voltou a girar em torno de um velho conhecido. E talvez este seja o principal fato do lançamento da pré-candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao Governo do Ceará: depois de anos tentando se manter como personagem nacional, Ciro retorna ao território onde sempre exerceu sua força mais orgânica: o Ceará profundo, emocional, simbólico e político.

O evento no Conjunto Ceará teve exatamente esse sentido. Não foi apenas um ato partidário. Foi uma tentativa de reconstrução de narrativa. E a narrativa escolhida por Ciro é clara: a do “estado em colapso”. Mesmo que as pesquisas indiquem que o ataque é a um governador bem avaliado e que os dados econômicos, principalmente os que se relacionam à atração de investimentos, sejam tão signficativos que não há referência no passado.

Ao afirmar que há um colapso na segurança pública, na saúde, no desenvolvimento e na corrupção, Ciro tenta erguer uma candidatura baseada menos na ideologia e mais na ideia de emergência administrativa. É um discurso típico de quem deseja ocupar o espaço do gestor experiente diante de um governo que considera desgastado.

O ponto mais sensível dessa estratégia, porém, está justamente na segurança pública. Porque os números recentes apontam redução consistente de indicadores de criminalidade no Ceará. Isso não significa ausência de problemas — e eles são muitos —, mas cria uma dificuldade narrativa para a oposição. Ciro aposta que a percepção social da insegurança ainda supera os dados estatísticos. E, convenhamos, política raramente é apenas estatística. É sensação, medo cotidiano, experiência urbana e fadiga emocional da população.

Na saúde, entretanto, a crítica parece encontrar terreno mais fértil. O desgaste do sistema hospitalar, filas, pressão sobre unidades e sensação de esgotamento administrativo, que não é um problema meramente cearnse, oferecem à oposição um campo mais palpável de ataque. Atentem: Ciro chegou a ocupar por cerca de um ano a Secretaria de Saúde no último ano de gestão de Cid Gomes.

O mesmo ocorre com o tema da corrupção, ainda que sem um fato explosivo específico e claro neste momento. Ciro bate na tecla tentando construir um ambiente de saturação moral do ciclo governista liderado pelo grupo Ferreira Gomes-PT-Camilo-Elmano, mesmo que ele próprio tenha sido um dos arquitetos históricos desse modelo político.

E talvez aí esteja uma das grandes complexidades desta eleição: Ciro terá de fazer oposição a um sistema político que ele ajudou decisivamente a construir.

A chapa anunciada também produz fortes sinais políticos. A presença de Roberto Cláudio (União) como vice consolida a reunificação do antigo núcleo cirista. Já Capitão Wagner (União) e Alcides Fernandes (PL) para o Senado aproximam definitivamente setores conservadores e bolsonaristas do projeto de Ciro.

Mas houve um detalhe altamente simbólico: pela primeira vez em muito tempo, uma chapa majoritária sem presença feminina direta. Isso chama atenção num ambiente político cada vez mais pressionado por representatividade. A tendência é que tentem compensar isso nas suplências do Senado, mas o impacto simbólico já existe.

Outro elemento importante é a montagem da estrutura técnica e eleitoral. Mauro Benevides Filho assumindo o programa de governo indica a tentativa de devolver densidade econômica ao discurso da campanha. Já a presença do baiano João Santana no marketing sinaliza algo ainda maior: Ciro quer uma campanha emocionalmente agressiva, narrativa, fortemente baseada em contraste e reconstrução de imagem.

No entanto, no momento, o verdadeiro problema da candidatura talvez não esteja no discurso, mas na engenharia política e partidária.

A situação da federação PP-União Brasil é tudo, menos estável. Presidente da sigla PP no Ceará, o deputado federal AJ Albuquerque mantém proximidade firme com a base de Elmano de Freitas. O mesmo ocorre com Moses Rodrigues, plo lado do União Brasil. Por outro lado, a federação está sob influência de Capitão Wagner, aliado de Ciro. Ou seja: há uma estrutura formal apontando para um lado e interesses políticos concretos puxando para outro.

Na prática, isso significa insegurança absoluta.

E Ciro sabe disso.

Mais ainda: as direções nacionais do PP e do União Brasil, como os notórios Ciro Nogueira e Antônio Rueda, vivem momentos delicados em Brasília. Em cenários assim, decisões locais podem mudar rapidamente conforme conveniências nacionais, pressões judiciais ou rearranjos internos de poder sempre influenciadas por investigaçõe e operações  da PF. Quem conhece minimamente o funcionamento dos partidos brasileiros sabe que alianças “provisórias” frequentemente são apenas fotografias de um instante.

O caso do PL também permanece nebuloso. A proximidade de setores bolsonaristas com Ciro enfrenta resistência aberta de Michelle Bolsonaro, que não demonstra entusiasmo algum com eventual apoio ao pedetista no Ceará. E os ruídos envolvendo Flávio Bolsonaro ampliam ainda mais as tensões dentro do campo conservador.

Há ainda uma ironia política poderosa: Ciro, histórico crítico do bolsonarismo, agora depende parcialmente de setores ligados ao ex-president para construir competitividade eleitoral no Ceará. A política brasileira tem dessas voltas quase literárias.

O lançamento no Conjunto Ceará mostrou uma candidatura politicamente viva, competitiva, emocionalmente organizada e motivado por números de todas as pesquisas de opinião até aqui. Mas mostrou também uma construção extremamente dependente de variáveis externas: federações frágeis, alianças contraditórias, disputas nacionais e personagens conhecidos pela imprevisibilidade mergulhados em cenarios também imprevisíveis.

A preço de hoje, como gosta de dizer Ciro, tudo aponta para a consolidação desse bloco oposicionista. Mas a política raramente é decidida pelo preço de hoje. Daí a graça da frase.

No Ceará — especialmente no Ceará — o preço de amanhã costuma mudar muito rápido.

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