O Real de Lula? Proposta de Lara Resende promete derrubar juros a 7,5% e enfrentar crise fiscal

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Um dos formuladores do Plano Real, economista sustenta que os juros elevados, e não os gastos primários, são o principal motor do crescimento da dívida pública. Proposta prevê redução gradual da Selic em 12 meses.

O fato: O economista André Lara Resende, de 75 anos, um dos formuladores do Plano Real, defende uma mudança profunda na política monetária brasileira. Sua proposta é reduzir gradualmente a taxa Selic até aproximadamente 7,5% ao ano, num período de 12 meses, e criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para coordenar as políticas fiscal e monetária.

Em artigo publicado em 25 de setembro de 2026, na plataforma Substack, Lara Resende responsabiliza diretamente o Banco Central pela trajetória de crescimento da dívida pública brasileira.

“Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater.”

O problema não é o gasto, são os juros

Por que importa: Lara Resende contesta um dos principais argumentos do debate econômico brasileiro: o de que o desequilíbrio fiscal decorre essencialmente do excesso de gastos públicos.

Para ele, a questão central está no custo financeiro da dívida.

“O cerne do problema fiscal está no serviço da dívida. Todo o resto é secundário.”

O economista apresenta uma conta para sustentar sua tese: enquanto a dívida bruta cresce 12,7% ao ano, o PIB nominal avança aproximadamente 7%. Essa diferença contribui para elevar continuamente o endividamento em relação ao tamanho da economia.

“Não é preciso muita elaboração para concluir que a situação é insustentável. A trajetória explosiva da dívida em relação ao PIB deve ser interrompida o quanto antes.”

Na avaliação de Lara Resende, o principal responsável por essa dinâmica é o nível extraordinariamente elevado da taxa básica de juros.

Juros altos travam a economia e concentram riqueza

O impacto: O economista argumenta que a política monetária brasileira produz efeitos negativos simultâneos sobre o crescimento econômico, o endividamento privado, o investimento e a distribuição de renda.

“Todos estão de acordo: a taxa de juros é um problema. Inviabiliza o crédito para a produção e o consumo, provoca o endividamento insustentável das famílias e das empresas e desestimula o investimento produtivo.”

Lara Resende acrescenta uma dimensão distributiva à crítica.

“Além disso, dado que a dívida pública está nas mãos da parcela mais rica da população, agrava a concentração de renda e riqueza.”

Na interpretação do economista, os juros elevados acabam funcionando como um mecanismo de transferência de renda para os detentores de títulos públicos, ampliando a concentração de riqueza.

A proposta: reduzir a Selic para 7,5%

O caminho: Lara Resende propõe uma redução gradual da taxa básica de juros ao longo de aproximadamente um ano, até alcançar o patamar de 7,5% ao ano.

A estratégia seria acompanhada da criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, responsável por coordenar as políticas fiscal e monetária.

O objetivo é interromper a trajetória de crescimento da dívida pública, aliviar o custo de seu financiamento e abrir espaço para a recuperação do investimento produtivo.

O economista reconhece, entretanto, que a redução dos juros pode provocar uma elevação temporária da inflação.

“A redução do juro vai efetivamente trazer a inflação para baixo, mas só depois de um repique da inflação no curto prazo.”

Ele identifica nesse risco de curto prazo um dos maiores obstáculos políticos à adoção de sua proposta.

“É muito provável que o banqueiro central que tentar reduzir a inflação através da redução do juro perca o emprego antes de ver a inflação se reduzir.”

Sua argumentação se apoia na interpretação de que, no longo prazo, juros nominais e inflação apresentam correlação positiva. Trata-se de uma visão controversa, que contraria a abordagem predominante dos bancos centrais sobre o uso dos juros para controlar a inflação.

Críticas ao Banco Central, à imprensa e ao mercado

O confronto: Lara Resende não restringe suas críticas à autoridade monetária. Também responsabiliza a imprensa econômica e os analistas do mercado financeiro pela manutenção do que considera um consenso equivocado.

“Acuso a grande imprensa de repetir, sem exame, que o problema está no gasto primário, quando está nos juros.”

Em seguida, amplia o ataque:

“Acuso os analistas do mercado financeiro de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica.”

E conclui:

“Acuso todos os que, sabendo que juros absurdos inviabilizam o país, preferem o conforto do consenso ao incômodo da verdade.”

Para Lara Resende, a resistência à mudança está associada à permanência de concepções monetárias e fiscais que considera ultrapassadas.

“A economia tem um problema básico: a extraordinariamente alta taxa básica de juros. Um problema que tem solução clara. Só é preciso vencer os preconceitos associados a uma teoria monetária e fiscal anacrônica.”

O economista também critica a qualidade dos gastos públicos

Outro lado da equação: Embora atribua aos juros a responsabilidade central pelo desequilíbrio fiscal, Lara Resende não absolve o Estado brasileiro de seus problemas de gestão.

Segundo ele, o país desperdiça recursos e mantém mecanismos de distribuição de verbas que atendem a interesses particulares.

“Aloca recursos de forma irracional, patrimonialista, como no caso das emendas parlamentares e das vantagens pecuniárias do judiciário, e demagógica, como no caso das vinculações de receitas, isenções e subsídios de toda ordem.”

Ainda assim, argumenta que o déficit primário brasileiro é relativamente pequeno diante do peso das despesas financeiras.

Uma divergência que vem de longe

Contexto: As críticas de Lara Resende à política de juros não são recentes.

Em fevereiro de 2023, em artigo publicado no Valor Econômico, o economista já questionava a insistência de analistas e instituições financeiras em apontar uma deterioração fiscal, mesmo diante de resultados melhores do que os esperados.

“Independentemente dos dados e da realidade, decide-se que o risco fiscal é alto.”

Na ocasião, também criticou a reação do mercado aos indicadores das contas públicas.

“Quero que o leitor se pergunte por que, mesmo diante de resultados muito mais favoráveis que o esperado, os analistas e a mídia redobram sua histeria em relação ao ‘risco fiscal’ e clamam por juros ainda mais altos.”

Em agosto de 2022, Lara Resende assinou, ao lado de outros economistas, entre eles Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central, um documento que questionava a centralidade atribuída ao equilíbrio fiscal na formulação das políticas econômicas.

O texto, publicado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais, defendia uma atuação mais ativa do Estado no desenvolvimento econômico e alertava para os efeitos potencialmente contraproducentes da elevação dos juros.

O debate político

Repercussão: A proposta recebeu apoio de Gleisi Hoffmann, do PT, ex-ministra das Relações Institucionais do governo Lula.

Em publicação na rede social X, Gleisi classificou o artigo como fundamental para enfrentar o que chamou de ofensiva sobre a política fiscal brasileira.

A manifestação evidencia a dimensão política do debate sobre a taxa de juros, especialmente diante das divergências entre setores do governo, o mercado financeiro e a autoridade monetária.

Entrelinhas: quem produz o desequilíbrio fiscal?

A tese de Lara Resende inverte a lógica predominante no debate econômico.

Na visão convencional, o descontrole fiscal eleva o risco, pressiona as expectativas de inflação e exige juros maiores. Para Lara Resende, a manutenção de juros excessivamente elevados é, ela própria, um dos principais fatores de agravamento da dívida pública.

A diferença não é apenas teórica. Cada diagnóstico conduz a uma política econômica distinta.

Enquanto a abordagem tradicional enfatiza o controle dos gastos, a proposta do economista coloca a redução dos juros no centro do esforço de estabilização da dívida.

O ponto controverso: A tese de que juros menores podem reduzir a inflação no longo prazo não representa consenso entre economistas. A visão predominante na política monetária sustenta que cortes excessivamente rápidos podem desancorar expectativas, pressionar o câmbio e elevar a inflação.

Além disso, a dinâmica da dívida pública depende de outros fatores, como crescimento econômico, resultado primário e condições de financiamento.

O que vem a seguir: A proposta de Lara Resende recoloca no centro do debate brasileiro uma questão decisiva: até que ponto a política de juros, concebida para assegurar a estabilidade econômica, pode se transformar em obstáculo ao crescimento e ao próprio equilíbrio das contas públicas?

Para o economista, a resposta exige uma ruptura com o consenso atual.

Fonte: Artigo de André Lara Resende publicado no Substack em 25 de setembro de 2026.

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