
A ex-senadora e ex-ministra Kátia Abreu protagonizou a fala de maior repercussão na reunião da cúpula do PT convocada para avaliar o resultado do primeiro turno. Originária do agronegócio, recém-filiada ao partido e coordenadora da campanha de Lula no Tocantins, ela criticou a condução nacional da campanha, a estratégia de comunicação e a participação da primeira-dama Janja da Silva.
A fala de Kátia Abreu na reunião da cúpula do PT revela uma cobrança que vai além da presença da primeira-dama ou da comunicação da campanha. A ex-senadora atacou o comando nacional, classificou seus integrantes como “paulistas sem voto” e defendeu maior espaço para Geraldo Alckmin no segundo turno.
A manifestação ganhou força porque Kátia não é uma petista histórica. Filiada ao PT apenas este ano, depois de passar por DEM, PP e MDB, ela chegou ao partido com uma trajetória própria e experiência no agronegócio, no Congresso e no Executivo. Sua fala, segundo O Globo, foi a mais aplaudida da reunião, diante de cerca de cem participantes.
A cobrança por Alckmin tem um significado maior
Ao pedir “menos Janja, mais Alckmin”, Kátia recolocou em cena um personagem que foi fundamental para a construção da frente ampla de Lula em 2022. Alckmin não foi apenas o vice de Lula. Ex-governador de São Paulo e antigo adversário histórico do PT, ele funcionou como uma ponte com setores políticos, empresariais e sociais que tradicionalmente não votavam no partido.
E essa ponte tinha uma extensão ainda mais importante: o velho PSDB.
A frente de 2022 era maior que o PT
Na eleição de 2022, Lula construiu uma frente que ultrapassou largamente os limites da esquerda. No segundo turno, recebeu apoios de nomes que durante décadas estiveram do outro lado da disputa política. Entre os tucanos, estavam Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Tasso Jereissati, Aloysio Nunes e José Aníbal. FHC declarou voto em Lula em nome da democracia; Tasso, então presidente do PSDB, também anunciou apoio; Serra e Aloysio fizeram o mesmo.
Não eram apoios meramente partidários. Eram personagens com densidade política, experiência de governo e vínculos com setores importantes do centro e da centro-direita brasileira. A lista ainda ia além dos tucanos. Lula recebeu o apoio de Simone Tebet, terceira colocada no primeiro turno, além de nomes como Armínio Fraga, Henrique Meirelles, Joaquim Barbosa, Cid Gomes e João Amoêdo, entre outros.
Os tucanos foram uma peça simbólica da operação
O caso de FHC é particularmente emblemático. O homem que derrotou Lula duas vezes na década de 1990 declarou voto no petista em 2022. José Serra, outro adversário histórico de Lula, também anunciou apoio ao candidato do PT no segundo turno. Tasso Jereissati fez o mesmo no Ceará.
O movimento foi interpretado naquele momento como parte de uma frente democrática mais ampla, formada para enfrentar Jair Bolsonaro. O PSDB, como partido, decidiu liberar seus filiados, mas algumas de suas principais lideranças históricas optaram explicitamente por Lula.
Há, portanto, uma diferença importante entre ter o apoio dessas figuras e simplesmente ampliar a coligação partidária. Lula, em 2022, conseguiu colocar ao seu lado pessoas que haviam passado décadas combatendo o PT nas urnas e no debate público. O ´problema é que Lula não respeito na gestão a promessa da frente ampla. O preço a se pagar hoje é altíssimo.
O contraste com 2026
É nesse ponto que a fala de Kátia Abreu ganha uma dimensão política maior. A campanha atual chega ao segundo turno depois de um primeiro turno no qual Lula terminou atrás de Flávio Bolsonaro. O resultado provocou uma revisão interna da campanha e críticas à comunicação, à escolha das agendas e à própria composição do comando.
Kátia sustenta que a campanha deveria olhar mais para frente e menos para o legado de Lula. Também defende que o vice-presidente tenha participação maior. A crítica, portanto, pode ser lida dentro de uma pergunta mais ampla: onde está, em 2026, a frente ampla que Lula conseguiu construir em 2022?
A questão não é apenas quem está na coordenação
A expressão utilizada por Kátia — “paulistas sem voto” — atingiu diretamente a estrutura de comando da campanha. Mas o problema apontado por ela vai além da origem geográfica dos dirigentes. A discussão envolve representatividade eleitoral, capacidade de diálogo e conexão com setores que não são tradicionalmente petistas.
Em 2022, a presença de Alckmin na chapa ajudou Lula a dialogar com esse universo. O próprio Alckmin trabalhou naquele período para aproximar Lula de integrantes da velha guarda tucana. A cobrança de Kátia é, nesse sentido, bastante reveladora: ela pede que a campanha volte a olhar para fora do núcleo tradicional do PT.
E há uma ironia política na história
Kátia Abreu também pertence à história dessa frente ampla. Em 2018, ela foi candidata a vice-presidente na chapa de Ciro Gomes. Em 2022, apoiou Lula no segundo turno. Agora, filiada ao PT, cobra do partido uma campanha capaz de conversar com um eleitorado mais amplo. Sua trajetória é justamente a de alguém que transitou por diferentes campos da política brasileira antes de chegar ao PT. Por isso, a fala contra o fechamento da campanha tem peso simbólico.
O debate sobre Janja é, na verdade, sobre estratégia para vencer o bolsonarismo
As críticas à primeira-dama também precisam ser entendidas nesse contexto. Segundo O Globo, Kátia questionou a participação de Janja nos comícios, inclusive o episódio em que cantou música gospel, e defendeu uma presença maior de Alckmin. Outros dirigentes também criticaram a estratégia de comunicação e defenderam que a campanha fale mais de futuro do que de realizações passadas.
Edinho Silva, presidente do PT e coordenador-geral da campanha, reconheceu que haverá mudanças na comunicação para o segundo turno, argumentando que agora existe uma disputa direta entre dois candidatos e dois projetos de país.
Por que importa
A fala de Kátia Abreu colocou em público uma discussão que vinha aparecendo nos bastidores: o Lula de 2026 precisa reconstruir a amplitude política que marcou a campanha de 2022. Naquela eleição, essa amplitude teve rostos muito claros: Alckmin, FHC, Serra, Tasso, Aloysio, Simone Tebet, Armínio Fraga, Meirelles e outros nomes de fora do campo petista. Quatro anos depois, a cobrança dentro do próprio PT é para que essa capacidade de diálogo volte a ocupar espaço central na campanha.
Vá mais fundo
O episódio também ajuda a explicar por que Alckmin aparece novamente no centro da discussão. Sua importância não está apenas no cargo de vice-presidente. Está no que ele representa dentro da arquitetura política construída por Lula: um ex-tucano, ex-governador de São Paulo e antigo adversário do PT funcionando como ponte com setores que historicamente não se identificam com o partido.
Em 2022, essa ponte ajudou a aproximar Lula de uma parcela expressiva da velha guarda tucana. Em 2026, Kátia Abreu pede que ela seja novamente utilizada.
A frase “menos Janja, mais Alckmin”, portanto, pode ser lida como uma síntese de uma cobrança maior: menos campanha voltada para dentro e mais campanha voltada para fora do PT.
Origem: O Globo, reportagem de Sérgio Roxo, publicada em 7 de outubro de 2026. A contextualização sobre os apoios de 2022 foi conferida em registros da imprensa daquele pleito.







