O mercado financeiro acordou nesta segunda-feira com uma tremenda dor de cabeça. A reeleição de Lula foi recebida como uma notícia indigesta. O dólar chegou a R$ 5,60. A Bolsa despencou, com perdas superiores a 16%, e as negociações precisaram ser interrompidas.
É o mercado sendo mercado. Quando perde uma aposta política, reage como quem perdeu a paciência. E, às vezes, perde também a compostura. Mas existe uma questão real por trás do mau humor: o que Lula pretende fazer com a economia brasileira nos próximos quatro anos?
Pois bem. O presidente tem à disposição um calmante poderoso. E não estou falando da Maracugina que Ciro Gomes, certa vez, recomendou ao mercado. Esse calmante tem nome e sobrenome: Geraldo Alckmin.
Médico, começou como vereador e prefeito de Pindamonhangaba. Foi deputado estadual, deputado federal, vice-governador e governador de São Paulo. Governou o estado mais rico do país em dois longos períodos, de 2001 a 2006 e de 2011 a 2018. Venceu três eleições para governador e consolidou a reputação de administrador experiente, moderado e previsível.
Foi fundador do PSDB, adversário histórico do PT e disputou a Presidência da República contra o próprio Lula, em 2006. Em 2022, os antigos adversários fizeram uma aliança que parecia impossível. E funcionou. Alckmin representa uma tradição política hoje quase em extinção: a do centro moderado, da negociação, da estabilidade institucional.
É conservador nos modos, discreto nas palavras e pouco afeito a aventuras. Em resumo: Alckmin reúne praticamente tudo aquilo que o mercado gostaria de ouvir.
E há um detalhe importante. Na comemoração da vitória, Lula foi correto e generoso com o vice. Reconheceu seu papel na aliança. Mas reconhecimento político e entrega de poder são coisas muito diferentes. Imagine Lula anunciando que Geraldo Alckmin terá protagonismo decisivo na condução econômica do novo governo, com autonomia, respaldo presidencial e participação efetiva nas grandes decisões.
Seria um sinal de enorme peso.
Não resolveria, por si só, os problemas fiscais do país. Mas ajudaria a reconstruir uma ponte de confiança. Agora vem a pergunta inconveniente.
O PT estaria disposto a entregar tamanha parcela de poder a alguém que não é petista?
Convenhamos: é mais fácil imaginar o mercado tomando Maracugina por conta própria. O PT tem seus quadros, suas correntes internas, seus compromissos e uma conhecida dificuldade de compartilhar os espaços mais estratégicos do governo. Só que Lula não foi reeleito para governar exclusivamente para o PT. Foi eleito para governar o Brasil.
E governar um país dividido exige mais do que administrar a própria base política. A ironia é deliciosa. O homem que Lula enfrentou nas urnas, em 2006, pode ser justamente aquele de que mais precisa em 2026. Alckmin não seria uma rendição de Lula ao mercado. Seria uma demonstração de maturidade política.
Afinal, o presidente já tem o calmante ao seu lado. Resta saber se terá coragem de prescrevê-lo. Ou se o PT vai preferir deixar o mercado nervoso a ver um não petista tranquilo demais dentro do governo.







