Derrota de Flávio, vitória de Michelle

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A histórica vitória de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) na noite do último domingo (25/10) – com uma diferença considerável de pouco mais de 4 milhões de votos (maior do que a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro) – produziu, sem dúvida, um conjunto de outras vitórias.

Destaco, aqui, uma que considero das mais fundamentais: a “vitória” de Michelle Bolsonaro (PL), que jamais será admitida – ao menos, em público.

Desde que expôs, em junho passado, as fissuras no interior do bolsonarismo e da própria família (já conhecidas e noticiadas pela imprensa), a agora senadora eleita pelo DF deu mostras do envolvimento meramente protocolar na campanha do enteado que viria a ter. No famoso vídeo de junho, como podemos lembrar, Michelle expôs uma série de queixas acerca dos modos como era tratada por Flávio, pelos irmãos e por políticos e influenciadores diretamente ligados a eles.

Mesmo com o pedido encenado de desculpas feito por Flávio e aceito por ela, mediado pelas “leoas” Damares Alves (REP) e Celina Leão (PP), Michelle, como se viu na campanha, tratou mesmo foi de batalhar por sua eleição ao Senado, pela eleição de Bia Kicis e de Celina (o que conseguiu com pleno êxito) e de outras leoas, participando apenas formalmente da campanha do enteado.

No segundo turno, estratégia repetida: aparições pontuais no HGPE e participação no evento que abriu o segundo turno; depois disso, tratou de fazer campanha por Celina e viajou ao Acre para pedir votos para a candidata à reeleição Mailza Assis (PP) – que disputou o primeiro turno contra Alan Rick, apoiado por Flávio, mas venceu no segundo – e ao Amazonas, pedindo votos para Professora Maria do Carmo (PL), derrotada por Omar Aziz na disputa pelo governo.

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Neste domingo, Michelle não acompanhou a apuração dos votos onde Flávio estava, preferindo estar ao lado de Celina, cuja vitória comemorou como se dela fosse. Não esteve com seu enteado quando ele, dando vazão ao golpismo que alimenta o sobrenome, questionou o resultado eleitoral. Suas manifestações pós-eleição se resumiram a dois stories no Instagram: no primeiro, podia-se ler que “Deus é o dono do Brasil“; no segundo, “Os reis passam, os governos mudam, mas o Senhor continua reinando. É nele que devemos firmar nossa esperança“.

Logo, para ela, aceite-se o resultado e espere-se que o “rei Lula”, como todos os outros “reis”, “passe”.

Nenhum pedido de intervenção, de golpe, de sedição. Na linha Michelle, “espere-se no Senhor”.

Mas, por que vejo vitória de Michelle na derrota de Flávio?

Ora, além do que está acima, imagine o/a leitor/a o que sobraria para Michelle num eventual governo Flávio: possivelmente, um Ministério de pouca projeção (que não sei se aceitaria) ou ser (mais) uma senadora da base aliada, sem destaque permitido pelo enteado e por outros próceres radicais do bolsonarismo que já estão ou que estrearão na Casa. Protagonismo nenhum lhe sobraria.

Com Lula reeleito, porém, a história deverá ser outra: além de senadora de oposição, presidente do PL Mulher e ex-primeira-dama, sem indulto a Jair Bolsonaro continuará a ser, ela, a “voz” judicialmente autorizada de Jair, o que lhe dará condições de ser uma forte opositora de Lula, destacando-se nacionalmente; além disso, liderará as “leoas” Kicis e Damares e outras que aportarem debaixo de sua sombra.

Somente a derrota de Flávio daria condições estruturais de Michelle mostrar sua capacidade política de fazer oposição e liderar.

Liderar, aliás, já ficou comprovado ser uma de suas habilidades. Fazendo oposição a Lula mostrará sua capacidade de liderar institucionalmente, projetando seu nome como aposta da oposição. Restará saber qual será o seu filão na oposição.

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