A irrealidade real. Por Angela Barros Leal

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Morri, constatam meus netos nas passagens de fase dos jogos eletrônicos, só um tantinho irritados. Morri de novo, se aborrecem, reconhecendo a rotina da morte. São crianças. Brigam, competem, enfrentam desafios. Ganham ou perdem como qualquer um de nós, e a única diferença é que choram com menor discrição.

Creio piamente que eles se preparam para o apocalipse-zumbi-nuclear da Nova Era anunciada. King Kong e Godzilla enchem o peito para a batalha final da qual eles serão espectadores. Homem Aranha recorre ao metaverso, reencontra suas encarnações anteriores e o mundo perderá a memória. No intervalo comercial, Venom lambe os beiços com sua língua bífida, exibindo uma espantosa abertura bucal na qual todos os dentes são caninos.

Os meninos conhecem, e usam, palavras adultas: versus; tentáculos; desintegração. Mas não conseguem distinguir o real do imaginário, e eu admito que está cada vez mais difícil. Concordam com a irrealidade de jacarés tomando sorvete cor de rosa, de casas em formato de abacaxi, de xícaras cantantes. Aceitam com relutância a inexistência de unicórnios e duendes, de navios capazes de se refazer em carros e em aviões, de dragões (E o dragão-de-komodo? – desafia o mais velho).

Rejeitam qualquer tentativa minha de argumentar sobre a impossibilidade de criaturas dotadas dos superpoderes do fogo, da água, do gelo e do ar, ou de seres mutantes com visão de Raio-X, de elasticidade, de máxima velocidade. Todos esses são dotes que eles possuem, e que o pequeno faz questão de me exibir, as pernas lépidas voando da sala ao quarto, o solado das chinelas batendo nos calcanhares, ida e volta, desafio cumprido em fragmentos de segundo – pelo menos no relógio deles.

Tentam escalar paredes a partir das cadeiras, poltronas, mesas e estantes, meninos-aranha testando destreza e capacidades. Manejam com habilidade o escudo do Capitão América ou o poderoso martelo de Thor. Tendo como único inimigo o calor, usam as roupas verdes, acolchoadas, do musculoso Hulk. Usufruem seus privilégios.

Se há presença de humanos nos filmes ou jogos, eles tendem a crer que é tudo verdade. Mas é com pessoas! – eles gritam, olhos acesos, enfurecidos com a minha cegueira e ignorância. Não importa que sejam mutantes, ogros desalmados, monstros com aspecto humanoide. Têm rosto de gente, se comportam como gente, e eles não entendem como eu não aceito tão clara evidência.

Vivem em um universo de fronteiras porosas, onde o que parecia real pode subitamente ser reduzido a nada, pela simples palavra de um adulto. Não é um mundo de faz-de-conta, aquele mundo tradicional das histórias contadas pelas avós de antes. Não lidam com figuras etéreas nem se restringem a sentimentos ditos infantis. Presenciam destruição de planetas, desastres colossais, apocalipses de mundos.

A mitologia deles é quase toda pautada pelo universo Marvel, uma bem construída existência paralela de deuses e semideuses, de alguma forma inspirados na mitologia greco-romana, em divindades nórdicas, chinesas, indianas, nos livros sagrados de diferentes culturas.

Sentamos no sofá, atentos à TV, e eles tentam deslindar para mim a genealogia das figuras, agitados com o meu interesse. Acima da Terra existem os Celestiais, criadores de tudo. Na Terra estão os Eternos, representantes do bem, e os Deviantes, os vilões estranhamente sedutores – Loki, Thanos –, o mal em estado puro. De certa forma, a estrutura me parece familiar.

Na descrição dos personagens reconheço Ajax, Atena, Zeus, Hades, Vulcano, convivendo com uma constelação de heróis de maior ou menor grandeza, dos quais os meninos possuem a representação material: bonecos que levam para a cama, ou carregam na mão quando saem, amuletos protetores contra os riscos de uma invasão da Terra por alienígenas ambiciosos, ou da passagem súbita de uma dimensão a outra, como sabem ser possível acontecer, a partir dos filmes.

As histórias que vejo com eles na televisão assombram, porém cativam, envolvem, convencem. Possuem uma verossimilhança espantosa. Sugam você num vórtice de sons e imagens, numa ambiência de estrondos e luzes, e me fazem lembrar a frase de um super-herói da Literatura inglesa, cuja existência, ironicamente, é uma dúvida: “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum”.

Dentro da convulsa realidade no noticiário de TV (que eles não veem), das magias científicas e minúsculas maravilhas cotidianas, das epidemias e descoberta de antídotos, dos milagres e transformações, de heróis que parecem vilões e vice-versa, quem sou eu para dizer a meus netos o que é, ou o que não é, real…

Angela Barros Leal é jornalista e escritora

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